Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os trs magnficos da bola nos cinco dedos de vida (1)

26 de Fevereiro, 2018
Depois do livro de crónicas “Bué de Bocas”, que fizeram furor nas antenas da Rádio Nacional de Angola, convertidas em “Recados ao meu chefe” na LAC, Ismael Mateus publicou “Laços de sangue”(prosa), a dar livre curso à sua capacidade ficcional, na recriação de factos e números do nosso real quotidiano atroz e virulento, embora, nem tudo sejam espinhos. No título seguinte, um conjunto de contos (Cinco dedos de vida”, traz um texto não menos interessante, intitulado sugestivamente, “Os três magníficos da bola”, que entroncam no objecto de trabalho deste “Jornal dos Desportos” que vamos analisar, após uma prévia exploração crítica e mesmo lúdica, que nos suscitou o “prazer (da sua) leitura”- como sustentava Roland Bartes, o grande semiólogo francês.
No conto em questão, evoluem cinco personagens de grande quilate, cada um à sua maneira: os dois irmãos espirituais, os famosos “MA”, conforme eram tratados pelos fãs e não só, ambos actuavam como avançados, um era canhoto e outro dextro; e o terceiro magnífico da bola, que atende pelo nome de Zeca Pequeno, ou simplesmente Pequeno, que os espectadores descobriram características similares ao do falecido pai Zeca. Pequeno, era o meio campista servidor destes pontas avançados, cujos lances terminavam quase sempre em perigo junto da baliza contrária e mesmo em golo, de tal sorte que um não podiam jogar um sem o outro, embora, ambos fossem pontas de lança, inflectiam mais à esquerda ou à direita, conforme o pé decisivo na hora do chuto ou da finta habilidosa. A estas três figuras de destaque juntam-se, duas outras personagens de relevo, o treinador Firmino e Coimbra o jornalista desportivo, de que nos vamos ocupar com mais detalhe, à posteriori.
Quanto ao jogo jogado, propriamente dito, os manos MA começaram a brilhar no pelado, como a maioria das crianças, adolescentes e jovens que constituem o nosso sub - mundo do futebol. O espaço em que ocorre a história, fala por si: bairro da Cuca, lá para as bandas da Refrinor, campo em que actuavam por via de regra:
“Marcos Samuel e Mário Victor nasceram no mesmo bairro(…) Aos seis anos, de tanto andarem um com o outro, alguém os baptizou de MA (Eme A)”. Os jovens passam a responder por essa alcunha e faziam questão de apresentarem-se assim, individualmente ou não. Mais tarde, passaram a experimentar a vida do desporto federado, com equipamento a preceito ( além do lanche à mistura), - tal eram os apoios que o organizadores passaram a mobilizar(!), combatiam também por via disso , a nudez e a fome que às vezes, a pobreza do musseque comporta. Estavam abertas as portas da sua mobilidade social, dada a lenta, mas segura ascensão social, - já experimentados por outros atleta, patrícios no tempo da outra senhora, com transferência para a metrópole e tudo, - pois, da Refrinor, passaram a evoluir noutros campos desportivos da cidade, incluindo na zona baixa da capital, indo parar até às equipas renomadas e mesmo à selecção nacional, que o maestro Firmino veio a treinar à boleia dos seus craques, ou seja, dos três magníficos descobertos no “Estádio pelado da Refrinor”.
Chegados aos 10 anos, “em pleno início de 1990 ( uma referência importante para situar o potencial leitor, em termos de tempo da narrativa), entraram para uma equipa dos caçulinhas da bola, embora, tais eventos ocorreram na realidade nos meados dos anos 80, o que resulta da capacidade factual por banda do autor:“Tinham jeito ( os 2MA). Eram ambos pontas de lança. As equipas de então , treinadas pelo professor Firmino dos Anjos, não tinham como hoje quaisquer sistemas alternativos: 4X3X3 era o esquema do jogo e assim, não cabiam os dois pontas de lança. Ora jogava um, ora jogava o outro”, ao contrário do que se habituaram nos tempos do pelado, na fase inicial do crescimento físico. O narrador acrescenta que tal esquema táctico “ Não resultava. Isoladamente, os MA não funcionavam.”
O contexto social da época não escapa ao autor, - a literatura reflecte ou refracta a realidade em presença e/ou em conflito, - ditado pela ingrata sorte da marginalidade social do grosso, que constituía a plateia de assistentes entre os espectadores no campo da Refrinor, para queimar o tempo totalmente livre de desempregados.
NORBERTO COSTA

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