Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os trs magnficos da bola: o linchamento do treinador e a morte do jornalista (fim)

12 de Março, 2018
A jocosa e abusiva atoarda lançada irresponsavelmente por Coimbra, por via dos microfones avassaladores, colou à parede e vai produzir estragos de efeitos retardados ao edifício, ou seja, tanto directamente ao treinador e aos adeptos desorientados e, por ricochete, contra si. Os ouvintes na bancada passaram a repetir a acusação gratuita.
Segundo conta o narrador, “ Tudo indicava que o treinador tinha sido comprado pela equipa adversária. Segundo a versão posta a circular sem observância do exercício do contraditório, os nigerianos gozariam da fama de tal acto reprovável não confirmado, inclusive foi insinuado que o treinador foi visto com os mesmos no hotel em que se hospedaram: “Da suposição passou à verdade.. Da verdade começaram a surgir pessoas que se diziam possuídas de provas do negócio. Outros afirmavam terem visto o treinador Firmino no hotel dos nigerianos.”
Tal diatribe e manipulação da opinião pública, terá levado os adeptos a aprontarem um correctivo contra o inocente treinador que foi atacado em pleno estádio, onde decorria o jogo, ante o silêncio e a passividade dos agentes policiais encarregues da manutenção da segurança e tranquilidade públicas, escapando o mister do linchamento por um triz, pondo-se a monte quanto antes.
Teve que se pôr ao fresco, oh, perna para que te quero! Quem se ocupou doravante da orientação técnica da equipa foi um dos adeptos curioso, assessorado por um antigo atleta atrevido, ante à indiferença dos responsáveis federativos.
Na verdade estamos em presença de um metonímia da Ordem feita desordem social. Estava instaurado o caos cultural e, quiça, social, ante a irresponsabilidade do jornalista, nas vestes de comentarista desportivo da rádio local, ao rotular o treinador de corrupto, sem qualquer prova dada, e só por causa da sua opção táctica em manter os três craques inicialmente no banco.
\"Firmino bate bola baixa\"
Infeliz e desafortunadamente, o caos estendeu-se até ao bairro onde habitava o treinador e, consequentemente, à sua família: ante a chacota geral, a esposa decidiu pôr termo ao casamento, pois já não suportava mais tantos apupos e insultos, até dos mais \"marginalizados\" da base da pirâmede social, recorrência do enredo centrado entre “vagabundos, prostitutas e bêbedos”( diria Jorge Amado que essa tipologia de personagens\" é que lhe dá honra imensa\").
De tal sorte que, entre estes últimos, os famosos amigos de ocasião, ou seja do \"copo\", um se permitia a tanto:“Cada vez que a foto saía nos jornais- diz o narrador- um vizinho bêbado sentava-se em frente à porta e dedicava-lhes meia hora das piores asneiras e xingamentos i(ni)magináveis. Tudo ouvido pelos filhos, mulher e familiares que o iam consolar. Um cantor de rap decidiu eternizar a carreira fracassada de Firmino, fazendo dela a personagem central de uma letra comercialmente bem sucedida. \"Firmino bate bola baixa\" virou uma cantilena nacional.
No dia em que o filho mais velho do treinador fez 18 anos, o DJ resolveu fazer uma provocaçãozinha e tocou” a dita cuja canção. Facto que levou a esposa aos arames, pois “não aguentava (mais ) vê-lo sentado sem reagir, quando todos , do vizinho bêbado aos jornais o apedrejavam, até o DJ(… )e ele nada dizia. Era demais!”, partindo, assim, para o divórcio que se revelou efémero.
Habituada a boa vida que levava, a \"latona\" da estória aparentemente interesseira não resistiu, quando o marido havia caído em desgraça, apesar do juramento feito quando da celebração do casamento na presença do padre, \" na desgraça e na riqueza sempre juntos\".
A chicotada psicológica sofrida pelo marido foi dupla :
“A equipa do Petro, cuja direcção técnica acumulava com a da selecção, dispensou-o com o argumento de que não tinha condições de trabalho. A selecção nacional fez o mesmo, interrompendo uma carreira de 15 anos.”Mas o “volte face” estava para vir, quando todos menos esperavam: um estratagema para mudar o ritmo aparentemente fatal da vida de Firmino foi montado habilmente, com a participação na trama da sua amada, com o intuito de salvá-lo do precipício.
Mora da história: o acto consuma-se também com a ausência dos três magníficos na última partida de futebol, dado o rapto da tripla, que resulta, pois o treinador destronado volta à ribalta futebolística: dirigir mais uma vez a selecção. Tal cenário virtuoso vai forçar que o mesmo vai ser buscado em causa pelo jornalista que mais o contestou e condicionou a sua saída do ‘time’ nacional, escapando este último ao linchamento dos adeptos; experiência amarga por que passou no Firmino, convertido de “bestial à besta” e depois a recíproca tornou-se também verdadeira.
Já Coimbra barrado pela multidão “jurou largar a profissão, chorando baba e ranho”, quando os adeptos queriam linchá-lo, pois fora acusado se ser o culpado da queda em desgraça do mister, por via do seu linchamento mediático, traduzido em calúnias e insultos - qual deles o mais inqualificável!
Infelizmente, o inadvertido do escriba teve morte súbita no dia seguinte, quando escapou do correctivo da multidão enfurecida:
“O país estava convertido ao mister Firmino e, por isso mesmo, ninguém reparou na página de necrologia. Lá estava a foto de G. Coimbra, com os dizeres ‘ os familiares de GC comunicam o seu falecimento, vítima de súbita doença.” Gabriel Coimbra não terá resistido à pressão popular. Já mister Firmino teve melhor sorte: a dupla reconciliação da sua vida, com o regresso à selecção e da esposa à procedêmcia , que conspirara para que o seu marido voltasse ao trabalho, raptando os craques no início da partida, deixando a equipa completamente descaracterizada, ante a surpresa da audiência.
Contudo, com a entrada em cena do parceiro e três pupilos na segunda parte do derradeiro \"trumuno\" da estória, a selecção da casa bateu a equipa adversária pelos suados 3-2, quando estava a perder por 2-1. Daí à chuva de felicitações foi só um salto de cobra: “No dia seguinte, o PR mandou uma mensagem. Os partidos seguiram o exemplo”, dando assim uma prova de reconciliação nacional. “As rádios não se calaram com o feito do dia anterior. 20 minutos de noticiários de 30.
A Firmino a que é de Firmino.” O feito futebolístico foi a notícia da semana, como mandam os manuais de jornalismo, sobrepondo-se à política, à economia e à sociedade, com destaque para o crime, que, regra geral, dominam a actualidade e o interesse da opinião pública.
NORBERTO COSTA

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