Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Outra vez o 1 de Maio

14 de Julho, 2017
Há maka grossa em Benguela. No clube Estrela 1º de Maio o clima não é de calmia. Com alguma ironia, digo mesmo que na Rua Domingos do Ó a circulação está condicionada, como se também estivesse a receber obras enquadradas no programa de revitalização de eixos viários, que por Luanda deixa a todos de cabelos ao ar e nervos à flor da pele. Mas aqui o assunto é de natureza administrativa.

O clube parece ter atingido a bancarrota, chegando a extremos que forçaram a declaração da falência. Mais uma vez soltou o grito de Ipiranga o velho papão benguelense, e desta vez não ameaçando apenas retirada da sua equipa de futebol do campeonato nacional da primeira divisão, mas como o vendaval pode mesmo varrer com o próprio presidente de direcção.

Pelos vistos, Wilson Faria vê-se impotente, depois de até aqui ter já se revelado num milagreiro na busca de soluções financeiras para manter a equipa em competição. Não há dinheiros para suportar as últimas jornadas no Girabola Zap, e ninguém se predispõe a dar uma mão de modo a que se possa suavizar a situação. Cerca de 250 milhões de Kwanzas é quanto se precisa.

Por aqui fica-se sem saber se devo vangloriar a formação benguelense com vários encómios ou desatar em criticá-la. Primeiro, porque sendo uma situação recorrente, pois, nunca terminou a prova em segurança, o 1 de Maio só pode ser uma heróica equipa, capaz de ir à luta mesmo por entre várias limitações, sejam elas de foro financeiro ou a ver com recursos humanos.

Entretanto, a crítica pode ganhar lógica atendendo que em face das situações que já enfrentou em ocasiões anteriores devia ter aprendido, ainda que para tal recorresse à cabula, a lição de não se envolver em compromissos onerosos, como é o caso do Girabola Zap, sem se certificar das suas capacidades financeiras.

O ano passado foi assim, e a situação terá, indubitavelmente, influenciado a sua despromoção. Logo, o seu regresso ou manutenção, que resultou da desistência do Benfica de Luanda, acabou por surpreender algum segmento da nossa sociedade desportiva, pois ocorria um caso quase jocoso, em que um esfarelado substituía uma equipa financeiramente mais saudável, mas que definiu outra prioridade.

A meu ver, depois do que passou na edição passada a direcção do 1º de Maio devia é fazer uma profunda reflexão e ver se valia a pena assumir este desafio ou não. Talvez o mais sensato fosse parar e apostar na formação, enquanto eram encontradas soluções para o desafogo financeiro. Porque, na verdade, nesta fase de profunda recessão económica as coisas não andam fáceis.

Sair um pouco das labaredas da guerra não é e nunca será sinal de fracasso, pode ser uma estratégia para o reabastecimento, que pode reanimar a tropa e ganhar outro fôlego. Quem, como eu, acompanhou a última refrega militar no país que levaria à conquista da estabilidade, deve se lembrar desta célebre frase do general João Baptista de Matos: \"recuo estratégico para posições mais vantajosas\".

Portanto, nem todos recuos expressam derrota. E no nosso Desporto abundam os exemplos de equipas que abdicaram do Girabola, a começar pelo Cambondo, de Laurentino Abel Martins, até ao Benfica de Luanda, passando pelo Petro do Huambo e pela Académica do Soyo. Estes foram mais astutos, evitaram entrar numa luta em que à partida estavam derrotados, em face do sem número de dificuldades financeiras.

Chegadas as coisas, até onde chagaram, caberá à Federação Angolana, a mesma que acolheu o 1º de Maio de mãos abertas, mesmo sabendo dos problemas de tesouraria que vivia, encontrar uma solução que não belisque o campeonato. Ou seja, encontrar as muletas para que este, mesmo mutilado, prossiga o seu curso normal, sem prejuízo para as outras equipas.
Matias Adriano

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