Jornal dos Desportos

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Opinio

Palancas, pastor e o pasto

16 de Dezembro, 2017
Finalmente, a Federação Angolana de Futebol (FAF) levantou o véu e deu a cara ao anunciar e apresentar, em conferência de imprensa realizada há dias em Luanda, o seleccionador nacional de futebol, o sérvio de 43 anos, Sergei Vasiljevic.
Não é demais ressaltar que até se chegar à essa realidade, houve um arrastar impressionante, que obrigava, inclusive, alguns agentes desportivos a considerarem o órgão reitor do futebol nacional de “pouco patriota, em face dos desafios e compromissos ingentes que se avizinham a curtíssimo prazo e tendo em conta de igual modo, a natureza intrínseca do futebol ser um fenómeno social e agitar círculos.
Sergei Vasiljevic é apresentado há, praticamente, mês e poucos dias do início do CHAN de Marrocos onde Angola figura num grupo conjuntamente com as suas similares do Burquina Faso, dos Camarões e do Congo Brazzaville. Se por um lado há satisfação por este facto pois, antes tarde do que nunca, por outro, paira um enorme cepticismo na atmosfera desportiva, cujos agentes se interrogam e duvidam inclusive daquilo que pode ser a prestação dos Palancas Negras, principalmente naquela competição reservada à atletas que evoluem nos campeonatos domésticos.
Que trabalho será realizado por Vasiljevic em face da prova que está no dobrar da esquina? Será um trabalho de observação ou de profundidade estratégica com vista a competição que se avizinha? Que resultados podemos esperar deste “guisado” feito à pressas e servido frio?
Todos sabemos que, para uma equipa de futebol (que se preze!) competir, há imensos factores que concorrem antecipadamente para conferir a consistência que se impõe, com fito de enfrentar uma prova “efémera” como o CHAN onde, num ápice são cumpridos os três jogos que comportam a primeira fase, sendo os resultados desses determinantes para o prosseguimento na prova. São necessários pressupostos organizativos quer do ponto de vista administrativo como desportivo e competitivo.
Toda essa operacionalidade, bem gizada, proporciona que os resultados apareçam de forma quase natural procurando, já na competição, aprimorar alguns aspectos, dotar os jogadores de atitude e concentração cujo trabalho de mentalização deve ser envolvido de um ambiente bom. Salutar. De confiança, paz e estabilidade. Numa só palavra, deve haver coesão.
Infelizmente, este não é o estado actual dos Palancas Negras que, apenas agora arranjaram um Pastor e parece não terem Pasto para arregimentarem as competências competitivas e enfrentarem o CHAN. Independentemente das bases deixadas pelo hispano-brasileiro Roberto Bianchi, o mentor da qualificação de Angola à este palco e cujo trabalho, metodologias e filosofias seguramente são diferentes das de Vassiljevic. Está por isso, à vista que o sérvio parta do zero, em tudo. Formar um novo e verdadeiro grupo, com bases seguras nas suas concepções, e orientação de filosofia futebolística.
O que aqui mais preocupa é que o novo Pastor dos Palancas Negras irá partir às cegas. Do Zero. Com venda nos olhos. Primeiro porque, seguramente não conhece a profundidade do futebol africano e angolano em particular pois, na sua “folha de serviço” que foi apresentada, consta que nunca teve passagem pelo continente berço; segundo, porque, provavelmente não conhece a profundidade do nosso futebol; os hábitos, cultura e costumes, enfim a idiossincrasia do futebolista angolano. Até aqui, é líquido perceber que Sergei Vasiljevic precisará de tempo até para ele próprio se ambientar numa capital africana com características próprias e isso, como se sabe, leva o seu tempo, ainda que tenha como adjuntos o seu compatriota Miroslav Maksimovic e o angolano José Silvestre “Pelé”. O tempo, este recurso irrenovável, será determinante para o que advinha da prestação no CHAN de Marrocos.
Nesta perspectiva, ainda há o imbróglio dos representantes angolanos nas Afrotaças que, em função dos seus objectivos particulares, é líquido que tenderão a refrear a cedência deste ou daquele jogador à Selecção Nacional dada a coincidência das datas, a necessidade de aprimorarem a pré-temporada e ambição de dotarem os planteis com a consistência competitiva necessária para enfrentar a fase preliminar.
Mais difícil para Vasiljevic mesmo contando com a coadjuvância dos técnicos citados, será o facto de não poder evitar a dificuldade primária de recuperar os jogadores convocados que, na sua esmagadora maioria, terminaram a época futebolística há mais de um mês. Em menos de 30 dias para o primeiro embate, acho que será um autêntico “suicídio” ombrear a organização de formações como Burkina Faso, Camarões e Congo Brazzaville que há muito preparam minuciosamente a empreitada.
Estas selecções que fazem parte do grupo dos Palancas Negras, há muito conferiram a responsabilidade e importância que a prova merece. Angola, que foi já vice-campeã nas primeiras edições desta competição, até hoje não aprendeu a lição de se puder superar sempre. Portanto, mesmo com imensas responsabilidades e respeito que granjeiam, os Palancas Negras, anunciam, à partida, um fracasso visível. Esperemos que isto seja apenas e só cogitações de um angolano como eu (e muitos outros!) que sofre e quer o melhor pela sua selecção. Por outro lado, há esperança num trabalho de continuidade efectiva com vista aos outros compromissos competitivos, nomeadamente o apuramento ao CAN.
MORAIS CANÃMUA

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