Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Palancas castigados pela falta de ousadia

06 de Julho, 2019
A inda na ressaca do recente afastamento de Angola da Taça de África das Nações, que decorre no Egipto, um assunto que, para já, continua fazer eco, é imperioso que se avaliem as causas, que estão por detrás de mais este descalabro.
A nível da “mídia” nacional bateu-se muito no assunto, apontando-se a falta de ousadia, de vontade de vencer e outros factores colaterais, como estando na base de mais esse insucesso dos Palancas Negras, quando tudo deixava antever uma campanha exitosa.
O nosso título, por exemplo, na antecâmara do jogo com o Mali, referente a última jornada da fase inicial de Campeonato Africano das Nações (CAN), focou um aspecto que incide na eterna praga da independência, em relação a este período.
Tal como o Jornal dos Desportos noticiou na sua edição de dia 1 do corrente mês, mais uma vez a Selecção Nacional de futebol de honras entrou para o último jogo de uma fase inicial de um campeonato africano, a fazer contas à vida.
Dito de outro forma, os Palancas Negras, tal como ocorreu em outras anteriores cinco edições do CAN que disputou, entraram para última ronda da primeira fase a depender de tal jogo, a ver se lograriam ou não o passe para a segunda fase. Estamos lembrados, nesse particular, que as únicas vezes que o combinado angolano transpôs a barreira da primeira etapa de um CAN foi, precisamente, em 2008 e 2010, nas edições realizadas no Ghana e no país. Fora isso, tal como ocorreu este ano no Egipto, em 1996 (na África do Sul), 1998 (Burkina Faso), 2006 (Egipto), 2012 (Gabão e Guiné-Equatorial) e em 2013 (novamente na Pátria de Nelson Mandela), Angola não passou da primeira fase.
É verdade que neste CAN do Egipto, apesar de um contratempo que marcou a preparação do conjunto, sobretudo no concernente a desonras de pagamento de prémios de jogos e pela qualificação ao certame aos jogadores, membros da equipa técnica e outros integrantes do conjunto, tudo parecia que se daria a volta por cima. Enganou-se, todavia, quem assim pensou, pois os Palancas Negras patentearam uma imagem muita pálida do seu real valor. Um apagão acabou por ensombrar o sonho que se vislumbrava.
Viu-se, ao cabo do três jogos que disputou, uma selecção sem atitude, sem fio de jogo convincente e, acima de tudo, pouco esclarecida em relação ao sistema táctico. Não se compreende como é que uma equipa que precisava de ganhar, não apostasse forte no ataque e relaxe perante alguma fragilidades demonstradas pelas suas oponentes, particularmente na zona defensiva. Se não tanto, o Mali, que nos tirou do caminho neste CAN, creio que com maior crença, determinação e vontade de vencer Angola poderia, perfeitamente, passar quer pela Tunísia, com quem empatou 1-1 na estreia, quer com a Mauritânia, 0-0, na segunda ronda. Não quero, com isso, dizer que os Palancas foram superiores de todo, mas ainda assim, tinham condições para desfeitear estes adversários.
Como disse já em outro espaço de opinião deste título, em três jogos realizados nesta fase inicial do CAN, a Selecção Nacional não conseguiu mais do que dois pontos, fruto de igual cifra de empates e a já referenciada derrota frente às “Águias” malianas. Depois dos empates frente as “Águias de Cartago” e “Mourabitones” mauritanianos, um escasso ponto era o quanto bastava, na derradeira jornada, para que Angola transpusesse, pela terceira vez no seu historial num CAN, a barreira da primeira fase. Era um exercício simples e concretizável. A meta traçada era chegar o mais longe possível.
Por isso, depois de atingir os quartos-de-final dos CAN do Ghana e de Angola, nos anos de 2008 e 2010, então era legítimo esperar que Angola pudesse voltar, no mínimo, para esta posição. É bem verdade que, na presente edição, transpor a primeira etapa consistiria primeiro atingir os oitavos-de-final face ao aumento de dezasseis para 24 selecções, mas ainda assim a Selecção Nacional tinha tudo a sua mercê para efectivar esse desiderato.
Devido ao aumento verificado no número de selecções, além dos dois primeiros de cada um dos seis grupos, passariam também outras quatro, que seriam “repescadas” de um lote das melhores terceiras classificadas. Angola teve aí uma soberana oportunidade, desde que lograsse um empate frente ao Mali. Contra todas as expectativas, os angolanos acabaram por ser os piores terceiros classificados dos seis grupos.
Somou apenas dois pontos, contra três do Quénia (no Grupo C), que viu os seus intentos de chegar à outra fase gorados pelo saldo negativo de dois golos. A África do Sul, igualmente com três pontos (no Grupo D) e não obstante o saldo também negativo - mas apenas de um golo -, a par da República de Democrática do Congo (que esteve no A) e do Benin (F), que atingiram a mesma cifra, garantiram a qualificação para os oitavos-de-final. A Guiné-Conacry, por sinal a única selecção que chegou ao quatro pontos, foi a terceira melhor classificada das quatro selecções que foram “repescadas”.
Por tudo isso, Angola só se pode queixar de si mesma, por mais insucesso numa fase final de um CAN. A sua derrocada começou a precipitar-se na fase de preparação, em que fez um único jogo de controlo em que venceu a sua similar da Guiné-Bissau, outra selecção lusófona que desfilou no Egipto, mas que tal como Angola não teve arte nem engenho, para inscrever o seu nome nos oitavos-de-final. E, queiramos ou não admitir, o afastamento prematuro da Selecção Nacional no Egipto-2019 é um castigo bem merecido. Esta é a minha convicção e respeito quem tenha uma opinião contrária...
Sérgio. V. Dias

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