Jornal dos Desportos

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Opinio

Palancas Negras em momento de reflexo

03 de Fevereiro, 2018
A recente participação dos Palancas Negras no CHAN de Marrocos, onde acabaram por cair às portas das meias-finais, merece para todos os efeitos uma análise ainda que superficial para a devida reflexão que se impõe, a fim de projectar nas calmas, os futuros compromissos competitivos em que o combinado nacional vai ter de se esmerar para almejar patamares visíveis, nomeadamente, no CAN do próximo ano nos Camarões.
Para lá da preparação atípica, com turbulências e incongruências à mistura, os Palancas Negras entraram na competição em Agadir, de “cara lavada” e em consequência disso, tiveram boa prestação nos quatro jogos que disputaram. Isto, fez pensar que se fossem observados os processos prévios, inclusive os jogos de controlo, podiam ter ido muito mais longe. Chegados onde chegamos, mais longe significa atingir pelo menos a final.
Na verdade, o imbróglio a que foram sujeitos os Palancas Negras, convenhamos que contribuiu desfavoravelmente, para o fracasso. O combinado nacional começou por enfrentar incongruências, com a indicação tardia do seleccionador nacional que veio a acontecer a menos de 40 dias da estreia com o Burkina Faso, com quem empatou a zero.
Ora, a julgar pelas indecisões na indicação do novo técnico, expectativas e ansiedades dos potenciais selecionáveis e outros quesitos de foro administrativo, as atribulações acabaram por contribuir em desfavor, reflectiu-se depois no grupo de trabalho, mesmo com a aparente solidez que se notou em campo, no desenrolar da competição. Aliás, tudo começou com o “divórcio” inesperado (?) de Beto Bianchi, ao que sabemos depois de proporcionar o apuramento, estava a preparar ao detalhe a participação dos Palancas Negras na prova. Porém, quando menos se esperava, Bianchi e seus pares acabaram apeados e confinados ao “seu” Petro de Luanda, cujas razões de fundo envolveram inclusive polémicas que já foram suficientemente badaladas nos círculos desportivos.
A verdade é que até à indicação de Seguei Vassiljevic, muito tempo de indecisões se passou e prejudicou o processo e toda estrutura psicológica montada de antemão. A Federação Angolana de Futebol (FAF) parecia bloqueada, ante os apelos sucessivos da sociedade desportiva face aos “timings” e aos objectivos pouco clarificados e até “escamoteados”.
Logo à entrada, Vassiljevic pegou na convocatória que Bianchi deixou e que desafortunada e inoportunamente veio a vazar a público (não devia!), colocou mais um e outros atletas, dado o “desconhecimento”, e sobretudo a contar com ajuda prestimosa de Silvestre Pelé e demais técnicos de distintas equipas.
Infelizmente, tal como vimos, alguns atletas acabaram por “desertar” com particular destaque aos do 1º de Agosto, por sinal o campeão nacional, que talvez se tenha esquecido que: “a Pátria aos seus filhos não implora, Ordena!”
Contas feitas, o sérvio chegou às cegas, conseguiu juntar 35 atletas e daí tirou os “delfins para a “Operação Marrocos”, aplicou o princípio segundo o qual: “quanto mais a amostra, melhor a escolha”. Disse, dias depois antes da partida para Agadir, que confiava piamente no grupo mesmo que para isso, tenha tido a oportunidade de fazer apenas único jogo de controlo, mais ainda, com o modesto Domant F. C. de Bula Atumba.
O que Vassiljevic não sabia, na verdade, eram as péssimas condições de trabalho postas à disposição, as dificuldades pessoais dos atletas, de autocarro sem ar condicionado, alimentação com algumas deficiências, enfim, alguns males que perduram nas nossas selecções e que infelizmente muitos dos dirigentes federativos acham meramente “normais”.
Por outro lado, em face disso e de outras situações, como por exemplo, como montar uma verdadeira equipa de futebol, Vassiljevic sabia bem que era a todos os títulos uma autêntica “aventura das arábias”, pois, como estudioso sabia que estava a atropelar todos os princípios da ciência futebolística. Ainda assim, como estreante “aventureiro”, assumiu a empreitada.
O que vimos na competição foi de facto agradável. Uma equipa com personalidade, característica competitiva, agressiva e com processos em fase de consolidação, à medida que a competição ia evoluindo. O combinado nacional arriscou para ganhar forma desportiva.
O escalonamento dos jogadores foi algo que o seleccionador apreendeu rápido. Percebeu a característica de cada um, e em função da estratégia colocou cada “pedra” no seu lugar, esperou delas o rendimento em função do que se pretendia em cada jogo.
O mais relevante em tudo, é que Vassiljevic teve o condão de transformar mentalidades e conferir uma atitude guerreira. Brava. Conferir estoicismo à equipa, que se bateu de “peito aberto” com adversários que à partida pareciam poderosos, face às preparações que previamente tiveram. O sérvio transformou pedra em ouro. Venceu o segundo jogo com os Camarões (1-0) e arrancou um empate ao “temível” Diabos Vermelhos do Congo Brazzaville (0-0).
Na fase seguinte, diante da Nigéria os Palancas Negras demonstraram serenidade e vontade de vencer, ombrearam com um dos potenciais candidatos ao título que curiosamente disputa amanhã a final com o Marrocos. Infelizmente, vieram ao de cima aspectos que já mencionamos: fraca preparação, falta de jogos de controlo e sobretudo deficiente consolidação de alguns processos.
Isso, fez que quer no aspecto defensivo, como no ofensivo, tivéssemos falhas clamorosas que custaram a eliminação, à porta das meias-finais. Em condição de vantagem no marcador, tivemos situações de golo -feito que podíamos “fechar o caixão”, todavia, a falta de discernimento e concentração dos nossos rapazes foi notória. Fica a impressão de que se tivéssemos uma preparação cientificamente cuidada, podíamos se calhar, ser mais do que vice - campeões que alcançamos em 2011, no Rwanda. O que resta é o consolo e muito trabalho para assumir as eliminatórias para o CAN dos Camarões no próximo ano, corrigir o que está mal e melhorar o que está bem.Devemos transformar tudo isso, num grande momento de reflexão…
Tenho dito!
Morais Canâmua

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