Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Partir-se j derrotados pelo sistema...

06 de Junho, 2019
Um País é feito aos poucos pela sua Sociedade. Em Angola vimos de passados opostos e sentimos,desde a nossa Independência, a necessidade de uma Nação. Porque sem a Nação não haverásentimentoscomuns, nem identidade.
Se a democracia é um exercício que cria expectativas, ao mesmo tempo ela impõe-nos regras e esse é o credo dos concidadãos e a razão de força da acção social. E consequentemente da concertação social. Por isso importam os símbolos de identidade nacional e também de unidade nacional.
Quem deve promover esses sentimentos são particularmente as lideranças e em especial os titulares dos cargos públicos e que representam o projecto de Nação que houver. Assim e na interpretação dos despachos superiores é interessante observar como os nossos Governantes exprimem o que sentem pelos seus concidadãos enquanto servidores públicos. E isto vem a propósito de tudo.
Quando na passada semana, do alto do seu pedestal, a Ministra da Juventude e Desporto praticamente ridicularizou a condição financeira nada saudável que rodeia a principal Equipa Nacional do País desportivo – uma posição e simbolismo a que darei mais subsídios adiante – foi manifestamente a expressão do politicamente incorrecto. Pretende-se moralizar a Despesa nacional ilustrando que não é possível subsidiar o futebol enquanto o País continuar a precisar de mais saúde pública, por exemplo.
Antes de mais, importa conceituar o que é essa SelecçãoNacional “AA” de futebol na actualidade e em qualquer País do Mundo. No mundo actual, a crescente desilusão social por falta de acerto das políticas com as condições sociais reais, o Futebol – infelizmente não pode sê-lo o andebol, nem o basquetebol – tem sido o escape e a distracção.
Claro que, para um andebolista por exemplo, tal afirmação é uma blasfémia, uma frase achada descabida eventualmente, porque formalmente os desportos se escondem sob a capa de que são iguais em direitos e deveres, aos olhos do Estado – mas sabemos todos como é que é e quem é quem no âmago popular. Aí que um CAN seja faca de dois gumes para com um sentimento geral.
Uma Angola em condições apesentada num CAN seria o teme necessário para um País que precisa de obter alegrias nacionais. De outro modo, o próprio tema “Selecção Nacional” será a semente de um descontentamento maior e mergulho da Sociedade no debate imparável da sua triste sorte. Algo que o desporto e em especial o futebol tem o condão de anestesiar, aliviando-nos das penas que vivemos, por pelo menos um mês.
Quando nos sobra a impressão de que não existe a esse respeito um conhecimento ou experiência de vida torna-se algo inquietante, pois os factores de coesão estarão a ser subestimados, ou até negligenciados. Um despacho do Chefe de Estado para se tratar de um assunto, depois apresentado a público como sendo coisa inviável, só poderá deixar a alguém mal nessa foto.
E uma equipa que trabalhar com método e profissionalismo só revela competência, em contraste com a recomendação de que seria melhor terem ficado em casa por haver falta de verba para estagiar, devendo limitar-se a viajar directamente para o torneio, ainda que lá cheguem às três pancadas (!).
Então, Angola, esse país frondoso à beira-mar plantado, que a cada dia renasce da fé e esperança em poder-se ser melhor, agora irá expor-se ao ridículo, nas televisões do Mundo inteiro e das rádios de meio mundo, porque ao País faltou primeiro a visão estratégica do evento que ia haver e da imagem nacional de Angola que lá íamos deixar?
Bem, vamos ao que importa e que se chama boa ou má governança. No caso dos fundos do Tesouro destinados a missões desportivas representativas do País, existe um ‘modus operandi’ que não convenceria a nenhuma contabilidade séria.
Ao que percebi, as missões estão orçamentadas e compreensivelmente não obtêm tudo quanto pedem, porém, o sério e grave é o ‘tipo de desculpas’ que se dão para explicar o diferencial entre o orçamento e o cabimentado. As livranças do dinheiro às Federações são feitas por via do Ministério da Juventude e Desporto, que tem uma engenharia consubstanciada em fazer de unidades suas, providas de conta bancária, os expedidores dos cheques ou transferências para as Federações.
A grande questão é a discrepância entre o valor orçamentado, aquele depois livrado pelo Cofre nacional, e ainda outro valor que corresponde ao total de tudo aquilo que acaba por chegar ao destinatário da verba. E sempre que este reclamar, ter de ouvir a invariável resposta autoritária de que o MINJUD tem mais despesas para pagar (!).
Já se está a ver que tipo de contabilidade administra as contas de um ministério assim. Que despesas essas, outras, serão as tais, para que se justifique darem largas dentadas nos bolos que se destinam às representações desportivas do País? Isso significa em primeira análise, que o MINJUD gastará mais do que tem orçamentado para si próprio.
Sobre isto pouco haverá a dizer, pois é conhecida a influência do modo de gestão à cantineiro, sobre vasta parte dos serviços e da função pública, ainda desprovido de boa governança partindo do rigor financeiro. Mas, uma coisa é certa: não é o subsídio à Equipa Nacional de Angola que há-de comprometer a ajuda à seca e a outras crises que vivemos já quase secularmente e que só carecem de mais engenho humano para encontrar soluções.
Infelizmente não consigo entrever nos rumos desportivos do País algum proveito de um pensamento desportivo provido pela estrutura que entre nós mais se se assemelhou a uma Academia do desporto nacional, quando era habitual ouvir-se que costumava reunir umcomité de especialidade do Desporto, por sinal afecto à força política dirigente do País.
Assim e enquanto se desperdiça a maior festa do desporto para alegrar um pouco a Sociedade desse mesmo País, além de explorar o efeito de um símbolo de unidade nacional inquestionável, que são os “Palancas Negras”, já se me afigura um caso que merece mais reflexão e prudência.
O futebol distrai. Como nada mais igual existirá! NBA, andebol,Faustão, “GotTalent” e circos têm lá a sua magia, mas infelizmente não são umculto nacional. Uma coisa é entreter e outra é distrair. Quando se entretém, nem sempre se distrai. Mas quando se distrai, todos se entretêm. E nós que vivemos mergulhados em ‘makas’ e pendentes, teríamos todos certamente um alívio nas costas que levam com o pau de cada dia.
Estou a falar de uma falha de estratégia em minha opinião,mas é indesmentivelmente uma postura virada 180 graus à esquerda, comparando com o capricho com que Angola quis dar antes ao Mundo, uma imagem de felicidade nacional. E foi aquando do
Mundial FIFA da Alemanha, em 2006. De lá, para cá, nada mais jeitoso se voltou a ver dessa dimensão e esta, no Egipto, poderia ser a ocasião.
O Planeta está com a ideia de que Angola está a mudar para melhor e esta seria a oportunidade da deixar uma imagem do país que carrega a esperança de sempre para um amanhã melhor. E infelizmente não é uma imagem – nem de longa a mesma audiência Planetária – que se possa esperar das selecções de andebol feminino, de basquetebol masculino ou de hóquei-em-patins...
A imagem é algo que devia preocupar mais o Estado Angolano e no CAN vamos estar sob os holofotes do Mundo. Era suposto que as inteligências se aguçassem e aproveitassem a oportunidade para mostrar uma Sociedade e País que não estagnaram.
Portanto, o contraste entre a forma como a Imagem do País nos preocupar ou não, consoante os eventos e circunstâncias, é algo que merece maior ponderação, pois, quer se queira ou não, os “Palancas Negras” é que são a maior Marca desportiva do País e da Nação! A prova está na sua força de calar armas durante a guerra civil angolana...
Sim, os “Palancas Negras” são – depois do Hino e da Bandeira - o maior símbolo nacional e de unidade, logo, os “Palancas Negras” representamesse símbolo vivo e dinâmico da unidade nacional de todos os angolanos. E não se deve brincarcom isso em nenhum momento, seja a sério ou a feijões, pois sentimentos nacionais ainda nos escasseiam...
A atitude do servidor público é um bem importante para a construção duma Sociedade. Masa proactividade de um Ministro de Desporto em qualquer parte de África contrasta tanto com o que vejo em Angola, que só por isso, os nossos “Palancas Negras” parece que já partem de casa derrotados...

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