Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Pelo desporto adaptado!

15 de Outubro, 2018
Nda kukuete cimue ñe watungila ondjo? As manhãs de 1 de Janeiro foram as mais divertidas de sempre e de rica memória para mim. Cançonetes bem harmoniosas, executadas por gentes que não fazíamos ideias de onde vinham, acordavam-nos e davam-nos a boa disposição para começar o ano.
A tradição popular de irromper à madrugada pela cidade e fazer festinhas aos moradores, em forma de saudação pela passagem de ano, marcou a minha infância e adolescência.
O \"mbeta mbeta\", como chamávamos, consagrou a canção, em umbundu, cujo trecho citamos acima.
\"Se não tens nada, qual a razão de construíres uma casa?\", uma pergunta interessante e adaptável ao momento que o desporto adaptado no país vive.
Na jornada paralímpica do final de semana, senti-me tocado ao ouvir o presidente do Comité Paralímpico Angolano, na presença do Director Nacional dos Desportos, a clamar por um espaço, para que as pessoas com necessidades especiais possam desenvolver a sua actividade condignamente.
Sei do quadro de dificuldades em que andam mergulhados todos os fazedores do desporto, mas, acreditem, ouvir a Federação de Basquetebol a reclamar dinheiro ou a FAF, que pede dinheiros para trazer profissionais à selecção, já é chocante. No entanto, em nada se compara em ouvir um responsável, que trabalha para esta classe de pessoas, lamentar e revelar que, muitas vezes, tem de recorrer ao bolso próprio. Tem de recorrer ao dinheiro pessoal, para que as pessoas sejam tiradas do Bié, Huíla, Cunene e outras bandas e trazidos a Luanda, sendo que o CPA tem de se responsabilizar desde que estas pessoas saem de casa até os levar de volta.
Assustador!
Leonel da Rocha Pinto pediu, na presença do Director Nacional dos Desportos, que as autoridades providenciem um Centro de Estágios para CPA. Disse, que faz esta solicitação há anos. Realçou que, a ausência de um espaço destes, deita por terra o bom nome granjeado pelo país, na medida em que Angola detém a presidência e a sede do Comité Paralímpico Africano.
Não posso deixar de denunciar esta insensibilidade. É ela responsável pela não realização, até hoje, do Grande Prémio José Sayovo.
Aqui, volto à questão da abertura. Porque será que o Ministério da Juventude e Desportos (Minjud) instituiu a prova, se não tem condições para tal?
Estamos na fase de elaboração do OGE. Vai o Minjud propor orçamentação desta prova? E onde é que foi parar a verba para a prova deste ano?
Senhores governantes, deputados e desportistas entendam, que homenagear Sayovo é trazer as pessoas com necessidades especiais à dignidade humana.
Há um mundo de gente com exemplos de superação emanados da prática desportiva. José Sayovo, Henda Gerónimo, Irene Bandeira, Ângelo Londaka e outros, esperam respostas concretas. Não de insensibilidade. Não de exclusão.
A vida de um portador de deficiência é repleta de desafios, preconceitos e superações. Vivemos em uma sociedade cruel, em que nos fazem companhia pessoas capazes de passar por cima das outras, na hora de apanhar o táxi ou da disputa pelo pão.
Levantemo-nos pelo desporto adaptado!
Silva Cacuti

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