Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Penso para os ex-atletas

30 de Junho, 2017
A História mais recente do nosso país não será escrita jamais sem referência obrigatória ao esforço consentido pelos seus filhos em diferentes sectores. Momento houve em que todos acabaram mobilizados para cada um colocar a sua pedra nos alicerces da sua edificação.

Muitos destes sacrificaram toda uma juventude, perderam oportunidades que visavam dar outro impulso à sua vida etc etc. Por tudo isso, há uma geração a quem Angola fica a dever aquilo que é hoje, ainda que a muitos, por mera hipocrisia, possa custar reconhecer esta particularidade.

Sendo verdade que nenhuma revolução se faz com sucesso sem uma rectaguarda segura, enquanto uns pegavam em armas para nas linhas do inimigo defender a integridade territorial, outros emprestavam o seu know how a outras áreas vitais ao desenvolvimento nacional. Uma destas áreas foi, sem dúvidas, o desporto, que em determinada época serviu como bálsamo para as agruras da guerra.

Muitos desportistas dessa época, que nas quadras suavam a camisola, faziam-no sem qualquer contrapartida, mas apenas por amor à pátria, à camisola como soe dizer-se, sendo de todo descabido supor que se tenham organizado socialmente com os proventos do seu rendimento enquanto atletas de alta competição.

De resto, é público que não havia contratos aliciantes e chorudos como há hoje, e muitos destes o mínimo que obtinham eram uns míseros trocados nas deslocações ao estrangeiro, que mais não serviam senão para a compra de uma lembrança do país para onde se deslocassem. Mesmo os prémios de jogo, no caso de desportos colectivos, não representavam absolutamente nada.

Alguns destes desportistas levam hoje uma condição de vida incompatível com o papel que tiveram no activo, porque o apego ao desporto às vezes roubou-lhes tempo para outra experiência. Estes homens, que souberam elevar bem alto o nome de Angola, devem ou deviam ser merecedores de um pouco mais de atenção das nossas autoridades desportivas.

Temos, por exemplo o caso daqueles, que pretendidos por emblemas estrangeiros, acabaram impedidos pelos ditames da política instituída na época. Logo, este atleta a quem foi coartada a possibilidade de ingressar para uma carreira profissional devia beneficiar de uma pensão de reforma desportiva. Foi bom saber que os ex-futebolistas poderão ter este direito na sequência de um ingente esforço que tem vindo a ser conjugado por um certo grupo bem identificado.

Ainda assim, pensamos que não dá solução definitiva ao caso. Antes pelo contrário será o atirar de achas à fogueira para aquilo que pode vir a ser um movimento reivindicativo sem precedentes. Porque tal como futebolistas, também houve praticantes de outras modalidades que orgulharam o país, e hoje necessitados de uma mão de caridade.

Podemos, lá isto sim, dizer que os futebolistas por constituírem a maior população de antigos praticantes, mais organizados, deram o primeiro passo, mas a solução deve ser inclusiva e devia ser, à partida, de iniciativa do próprio Governo, que afinal é testemunho ocular de todas etapas por que passou o nosso desporto no período pós-independência, e quem foram os seus artífices.A História não se esquecerá nunca que foi por via da actividade desportiva, em plena época da metralha, que Angola, ainda como jovem nação, se fez conhecer ao mundo.

E os seus fazedores ainda estão ai. Alguns deles sem o menor reconhecimento, nem mesmo pelos clubes cujas cores representaram. Não se sabe se a situação ainda é corrigível, mas o que é certo é que a política do Estado não foi correcta com esta gente.
Matias Adriano

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