Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Perdas da cultura colectiva

29 de Novembro, 2017
Nós, os que presenciámos a ascensão do desporto angolano até ao seu esplendor, nunca deixaremos de assim o ver. E recordar. Porque, como nas estórinhas, “era uma vez, mesmo, que já fomos muitas vezes campeões. E de cada vez mais coisas. Agora esse clamor nunca se há-de silenciar.
O desporto angolano tem tido agenda internacional neste final de temporada, após viver uma excelente experiência ao nível do basquetebol sénior masculino, outra em curso lá for a com o andebol feminino, e o futebol, não tarda, estará em acção.
É sobretudo no basquetebol que ressaltou a gradual adesão do público até à final, embora fique sempre por saber se foi um efeito das vitórias do Cinco sénior masculino, ou se meia casa era do adversário e vizinho, porém, também residente, alias, como são os nossos lá, todavia, em números incomparáveis. E eles fazem-se notar, ou basta recordar quando o Kabuscorp enchia os Coqueiros e decerto não eram todos nossos, porém, todos nossos lá nunca fariam tamanha diferença.
Então, isto tem a ver com uma cultura colectiva, que temos estado a perder. O histórico sócio-cultural do jogo basquetebol em Angola é algo pioneiro e revolucionário, que fomentou inclusive o amor próprio e crescimento da modalidade que se haveria de tornar sua rival no coração dos angolanos, o andebol. E das melhores famílias saíam dois e três filhos e filhas a engrossar as fileiras que deram brilho ao desporto angolano.
Tão fenomenais chegámos a ser, que a própria história vinha ao nosso encontro com relíquias de oportunidades. É que até a honra do Dream Team One defrontámos. O que para uns começara como troça, acabou como rendida homenagem. Enquanto isso, havíamos aprendido tremendas lições, como a resistência da unidade, a defesa, e no final até de triplos andámos.
Um video recentemente posto a circular recorda esse confronto em pleno começo dos Jogos de Barcelona , em 1992, quando ao fim de 3 minutos estávamos empatados a 7-7 e dez minutos depois, fomos parar a 7-47, para troça do comentarista da tv brasileiro.
Quando abordado, o seleccionador angolano, Victorino Cunha, explicava que o problema inicial havia sido termos bloqueado mental, psicologicamente. Mas, para o poste norte-americano com um porte de armário, Pat Ewing, nós éramos bem melhores do que andavam a dizer.
E o povo angolano havia criado essa força e resistência enquanto o desporto construía bem as suas ambições e consolidava os seus progressos, algo que galvanizava por inteiro a nação, a tal ponto que as armas se calavam quando jogasse Angola, ou Ndunguidi entrava em campo.
A paixão desportiva já foi realmente uma cultura colectiva dos angolanos, mas é preciso resgatar isso, e procura-se-lhe o paradeiro!
Um dos principais esteios dessa cultura, o bairrismo, precisa igualmente de ser resgatado, pois, ele vai ditar a introdução do desporto nos bairros e comunidades, se novas iniciativas desportivas e populares, forem agilizadas.
É preciso sairmos do limbo e sentir o empenho total do MINJUD na coordenação deste esforço, que passa por ter em parte por implementar melhorias na legislação.
No entanto, a delonga com que se persiste em adiar iniciativas tarda a encontrar-se um plano comum e de compromisso, para não voltarmos a apelar mais às iniciativas público-privadas, do que ao desdobrar das forças para realiza um trabalho, se houver de facto projectos. O MINJUD é hoje uma máquina demasiado pesada e que precisa de mostrar trabalho, mais do que discursos.
O que se espera do MINJUD não é estar a repetir agendas que a Ministra já tinha quando era Secretária de Estado; o MINJUD está a fazer o mesmo que o futebol fez: repetir agendas. E assim não se passa da cepa torta, nem se pode esperar cedo um reverso da tendência acentuada para debate.
Existe hoje um fosso ideológico no desporto, que separa aqueles que fazem o desporto de maneira formal, e os que fazem o desporto de maneira real, factual. E estes são os que precisam sempre esperar e acertar o passo com os que vêm a marchar descompassados. O MINJUD tem hoje acessoria sugficiente para recuperar a força diligente, orientadora e monitora da implementação do desporto nacional.
O MINJUD deve fazer mais do que trazer apenas o contrato-programa aos agentes desportivos; o próprio MINJUD, fora do discurso formal, deve explicar aos agentes que desporto pretende, que direcção segue, que objectivos persegue e que prazos tem ou dá para o que for e o que seja.
Ninguém se lembra da última vez que um ministro visitou e auscultou agentes desportivos no local de trabalho destes. Ir ver como os clubes e federações funcionam, promover idênticas aferições nas províncias onde o MINJUD tiver delegados, faz parte da arte de bem governar, que é fora dos gabinetes e junto de quem empreende real acção. Tal devia ser um acompanhamento depois consagrado ao quotidiano de quem seria um real director nacional dos desportos, cargo este recentemente politizado e convertido em autor de políticas que não passam de muito palavreado semeado em eventos e encontros, mas que não parecem estar a germinar.
Tem que haver uma vida desportiva renovada e isso tem que partir de dentro do sistema, do ministério, levando aos agentes a dinâmica e organização, mais que a mensagem de quem espalha o seu evangelho.
É chegado um momento de acção, com mangas arregaçadas, virados para a luta pela conquista de patamares, medalhas e troféus para o país. E complementado por uma acção social que tornasse moda o desporto.
Na senda actual das coisas, o desporto custa muito caro para andar a brincar com ele e com o talento nacional. É preciso além do profissionalismo, a liderança do projecto e tal não pode ficar delegado às federações desportivas, pois, estas não ferem a sua independência por estar obrigadas a normas e princípios sem os quais devem então ir reclamar fora, porém contar primeiro que recebem fundos do estado.
O MINJUD não se intromete na gestão dos assuntos, porém, é como a mais importante dos conselhos fiscais, ora assembleia geral, dependendo de como ficar correlacionada a tal parceria público-privada, que é na realidade o tipo de relação mais parecida que deve existir entre o ministério e as federações, relação esta que devia ser a agenda do director nacional do desporto.
O estudo da história do desporto angolano faria bem a muita gente, sem excepção. Quem não estudar isso não vai poder depois compreender como fazer para voltar lá onde já chegámos um dia e estivemos ainda por algum tempo. De facto, a imagem actual do nosso desporto é a de uma descendência que empobreceu de atitude. O resto da culpa estender-se-ia à forma de gestão dos clubes, com seus vícios e máfias, que os há e as há.
O país tem uma história cultural colectiva que não está a ser contada, ou pelo menos bem contada, e assim não está a ser preservada, tanto que não se tem repetido. Os novos tempos e novos quadros do desporto não devem presumir que não haja nada a fazer, pois, falaciosamente escondemo-nos atrás do conforto da desculpa de que isso são sinais dos tempos.
Mas por que os sinais dos mesmos tempos serão para outros, de progresso? Vivemos num universo de conveniências recíprocas capazes de omitir obrigações e deveres, por mais absurdas e paradoxais que tiverem que ser.
Até o MINJUD realmente voltar a entrar em cena como organizador, primeiro que regulador, é que falta ver acontecer. Arlindo Macedo

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