Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Pirmide invertida

20 de Março, 2015
Bom, da publicação da matéria ao dia de ontem, nenhum membro do órgão máximo do futebol nacional veio a público desmentir tal matéria jornalística. Dai a infusão da percepção de que a mesma corresponde à verdade pura e cristalina.

À partida, a situação dá lugar a duas leituras: a primeira configura uma situação com alguma gravidade, sendo que coloca de mãos atadas o treinador no que se refere à gestão da sua vida privada, enquanto homem a quem se atribui responsabilidade familiar. A segunda deixa "preto no branco" que por mais vontade que tenhamos em melhorar aqui e ali, continua a não haver um rumo definido para o nosso futebol.

Mesmo no nosso quotidiano, hoje que o sonho da casa própria quase que virou uma praga que nos move a um lufa-a-lufa exasperado, nenhum mestre de obra levaria a nossa casa à primeira viga, quando não se lhe tirasse a barriga da miséria. Isto analisado numa outra perspectiva incentiva a "lei de menor esforço", e quando assim é, os resultados são catastróficos ou muito aquém do traçado.

Depois dos sucessivos fracassos registados pela nossa Selecção Nacional nos últimos compromissos competitivos, o que se recomenda é, a bem ou mal, a correcção do erro, acertar o passo e tocar a bola para a frente. Porém, este gesto passa não só pela soma de ideias de gente sábia e entendida na "coisa desportiva", mas também por algum sentido de organização funcional e estrutural.

Enquanto nos faltarem estas condições continuaremos a remar contra a maré, na mesma não iremos a lado algum. Estaremos condenados ao fracasso. É que quando um órgão federativo se acha incapaz até de pagar ao seleccionador nacional, expõe um situação que deve preocupar não apenas os seus dirigentes, mas em última instância o país em si, porque a nosso ver indicia o prenúncio do holocausto.

Por aqui, talvez até o mais distraído dos mortais começa a entender em que labirinto se aloja o mal que dilacera o nosso futebol. É comum ouvir dizer que já não pontificam no nosso campeonato estrelas como no passado, que, em obediência à verdade, mesmo não citá-los por nomes, souberam servir os seus emblemas e a Selecção Nacional com iniludível competência.

Porém, uma pergunta emerge deste argumento: estamos bem servidos em termos de dirigismo? Não será a conjugação dos dois factores que nos arrastam e encurralam hoje numa espécie de beco sem saída? Mesmo que a solução passe pela refundação da qual algumas vozes se assumem apologistas, esta só produz resultados e efeitos desejados havendo propostas concretas e realísticas, e mais do que isso organização na estrutura dirigente.

Pois, se um dia Hervé Renard, que hoje numa espécie de chapada sem mão nos brinda com títulos africanos, saltou do barco, é porque receou o naufrágio. Se também um dia Zeca Amaral renunciou à Selecção Nacional a favor de uma equipa da primeira divisão, é porque fê-lo movido por alguma causa justa. Há casas em que entramos e logo na primeira noite, olhando pelos seus cantos, concluímos que ali não dá para morar.

Infelizmente, a FAF parece transformar-se neste tipo de casa que afugenta os inquilinos. Saberá o seleccionador nacional como resiste a esta imoralidade. Por este andar é justo que receemos outro insucesso nas campanhas que se avizinham. As qualificativas ao CAN'2017 e ao Russia'2018 podem trazer outra desilusão, porque não vemos trabalho ou acções que levem a encarar o amanhã de forma expectante.

A renovação da selecção, que há muito se propala aos quatro ventos, não passa de mera intenção. A Taça Cosafa que devia servir para a rodagem da nova geração, a ver o que dai se podia extrair, foi, por alegada limitação financeira, atirada para as calendas gregas.

Para onde vamos afinal? O que pretendemos de concreto? Dia menos dia chegam as qualificativas e lá vamos nós nos arrastar com a mesma equipa que em condições normais já devia passar testemunho.

É assim que queremos sair da penumbra e vislumbrar novos horizontes? Quanto a nós está dito: venham Mourinhos, Guardiolas, Mancinis; venham congressos ou cimeiras sobre futebol não trarão nada de novo, se do ponto de vista organizativo o nosso futebol se mantiver apoiado numa estrutura de vigas ocas.
Matias Adriano

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