Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Planos inclinados

21 de Abril, 2015
O tema arbitragem continua na ordem do dia. O processo, que colocou a arbitragem no topo das discussões do futebol nacional, não tem inocentes. A subversão à normalidade está enraizada em adeptos, clubes, dirigentes, árbitros e jornalistas, pelo que o anormal seria que as coisas fluíssem sem os problemas virem à tona.

Já deu para perceber uma maneira diferente de apitar e para pior, modificar radicalmente a Regra 12, que pune as infracções. Falta é falta em qualquer competição do mundo, qualquer que seja a política filosófico -ideológica ou seja lá o que for, não podem ser impostas ou praticadas pela arbitragem sem que as regras sejam modificadas. A falta tem de ser marcada e a simulação deve ser punida. Isso, acontece em qualquer parte do mundo e em Angola não pode ser diferente! Pergunto-me porque é que no meu país as coisas são diferentes?

O erro é humano. Mas o erro sistemático não tem nada de humano. Ao verificarmos num jogo, erros que prejudicam só uma equipa, isso não é o apanágio da arbitragem, mas uma clara suspeição de que o árbitro está comprometido com uma das equipas. Com a que mais favores recebe.
Nas duas últimas jornadas, só para citar algumas, até porque os “planos inclinados” avolumam-se a cada jornada que passa, dois casos vieram à baila. Um aconteceu no jogo Progresso da Lunda Sul- Bravos do Maquis, dirigido pelo árbitro Paulo Talaya e o outro no sábado, no estádio 22 de Junho, onde o Interclube mediu forças com o Recreativo do Libolo e que foi dirigido pelo juiz Hélder José.

Aliás, no final do jogo, o ministro do Interior e presidente da Mesa de Assembleia Geral do Interclube, Ângelo da Veiga Tavares, criticou o trabalho parcial do árbitro Hélder José. Toda a gente sabe, embora nenhum elemento do Conselho Central o queira admitir, que existe corrupção no nosso futebol.

Há equipas que “compram” árbitros, para vencer os seus jogos e prejudicar os principais concorrentes na luta pelo título. Há rumores, que algumas equipas, escolhem os árbitros para dirigirem os seus jogos. Têm “elos de ligação” dentro do Conselho Central, que os informam sobre o nome dos árbitros escalados. Se não estão de acordo utilizam as influências para a “devida e necessária”correcção.

Ao cabo de quase 35 anos, a seguir profissional e ininterruptamente o futebol, vi o suficiente para perceber que a própria arbitragem precisa de ser regulada. Não pode andar ao capricho, como anda actualmente, em plena era da industrialização do futebol e consequente profissionalização, de “estados de espíritos”, influência exógena ou mesmo de arremedo mafioso, que apenas têm o condão de aumentar as suspeitas e contribuir para afectar a imagem de uma modalidade a necessitar urgentemente, a este nível, de um tratamento de choque.

No quadro da auscultação dos temas a serem abordados durante a Conferência Nacional do Futebol, a realizar-se de 25 a 27 de Junho, na capital do país, o presidente do Conselho Central de Arbitragem da FAF, Muluta Prata, disse que a FAF deve tomar as rédeas do pagamento dos custos da arbitragem e não por acção directa dos clubes, que cria uma certa pressão psicológica aos árbitros.

Muluta disse ainda que essa mudança ia possibilitar resolver a questão do seguro, da segurança social e reforma dos árbitros, para que sejam mais valorizados e tenham uma actuação positiva.

Uma sugestão muito proveitosa, diga-se. Contudo, o Conselho Central tem de ser mais perspicaz com os seus filiados. Deve encontrar um meio termo para que se detectem os casos de corrupção de que são alvo os árbitros. As escutas telefónicas são uma solução. Embora no nosso país as escutas telefónicas não sejam permitidas por lei, o Conselho Central devia fazer “corredores” no sentido das mesmas integrarem o nosso quadro jurídico. Isso podia ajudar na credibilidade da nossa arbitragem e não só.

O caso Apito Dourado é um escândalo de corrupção no meio do futebol português que emergiu em 2004. Relacionado com o caso, existe o Apito Final, um homólogo do tribunal desportivo. Este processo baseou-se em casos de corrupção relacionados com os escalões inferiores do futebol português, nomeadamente o Gondomar Sport Clube. Para além desses, também o F.C. Porto e o Boavista foram visados, visto que foram detectadas escutas telefónicas comprometedoras. As investigações acabavam por incriminar Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto e Valentim Loureiro, antigo presidente do Boavista Futebol Clube e da Liga Portuguesa de Futebol. Cito esse exemplo, para que as nossas autoridades desportivas façam algo para ajudar o nosso futebol a sair do marasmo em que se encontra em termos de credibilidade.
POLICARPO DA ROSA

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