Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Plantar no deserto (I)

20 de Julho, 2017
A crise económica que assola o país desde 2015, deixou em aberto o buraco em que anda o desporto angolano, em especial o futebol, tido como a modalidade que mais adeptos tem, não só em Angola, como em todo o globo. Na realidade, as pessoas mais atentas do mundo do futebol nacional, muito antes da crise avisaram que o nosso desporto estava ser construído na areia sem alicerces, e que a qualquer momento ia acabar por desabar, assim como acontece com uma casa construída em condições similares.

Temos de entender que depois da Independência, em 1975, o Estado angolano teve de assumir a responsabilidade de ser o principal patrocinador do desporto no país.

Com o patrocínio do Estado, o país montou grandes equipas em diversas modalidades, como por exemplo, no futebol com clubes como Petro de Luanda, e 1º de Agosto. A nível de selecções, o Estado angolano montou as melhores equipas de basquetebol, seniores, masculino, e de andebol seniores, feminino, que dominam o continente nas referidas modalidades.

Entretanto, enquanto o Estado assumiu o papel de principal financiador, as coisas correram muito bem para o nosso desporto e para alguns desportistas.Se por um lado, a posição do Estado serviu como uma bênção ao desporto, por outro, adormeceu alguns dirigentes de mentalidade preguiçosa, que se limitaram a lei do “venha a nós”, sem a noção de custos envolvidos, para manter vivo um clube.

Assim, enquanto o Estado apoiou, a maior parte dos dirigentes do nosso desporto não tinha a noção de que investir no desporto, em espacial no futebol, no nosso contexto, é comparado a lançar sementes no deserto.Nos últimos 15 anos ou mais, surgiram algumas equipas particulares, cujos proprietários deram mostras de que tinham capacidade de manter de pé os seus clubes, e que até podiam discutir o título com equipas patrocinadas pelo Estado.

Mas atenção! Como é que um cidadão ou um grupo de cidadãos pode dar-se ao luxo de gastar mais de seis milhões de dólares, para o seu clube disputar um Girabola, sem ganhar absolutamente nada em troca? Mesmo que tais indivíduos tenham grandes fontes de entrada de dinheiro, a lógica indica que é uma atitude anormal, independentemente de ser o dono do seu dinheiro, e fazer dele o que bem entendesse.Por exemplo: nos últimos seis anos é normal equipas que se esforçam em chegar à primeira divisão, desistirem ou ameaçarem desistir a meio do caminho, por dificuldades financeiras.

O 1º de Maio de Benguela é a equipa que mais vezes faz este tipo de brincadeiras. Mesmo, depois de ver o Benfica de Luanda que à priori, tinha uma saúde financeira melhor que a sua, os proletários deram-se ao luxo de substituirem os benfiquistas, para cerca de dez jornadas do fim do campeonato estarem novamente aos gritos.Com todo o respeito que devo às pessoas que dirigem o nosso futebol, não posso deixar dizer, que algumas individualidades ligadas ao dirigismo desportivo, às vezes cometem erros graves inadmissíveis, visto que não é segredo para ninguém, que apostar no Girabola é equivalente a alguém queimar dinheiro, por mero prazer.

Neste momento, além do 1º de Maio de Benguela e da Académica do Lobito, temos também o Progresso da Lunda Sul que está em crise financeira, e a ameaçar desistir da competição. Tudo isto está a acontecer, porque as direcções dos referidos clubes, gostam de aventuras.

Pelo andar da carruagem, outros clubes vão seguir o mesmo caminho, antes do termo do presente Girabola. À medida que o tempo passa, a situação económica fica cada vez mais apertada. Como será o Girabola em 2018?
Augusto Fernandes

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