Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Plantar no deserto (II)

27 de Julho, 2017
À semana passada debrucei-me sobre o tema acima, colocando um ponto e vírgula no artigo com a questão de como seria disputado o Girabola em 2018 em função da situação económica do país. Pelo que temos estado a observar, o futuro do desporto angolano e em particular o do futebol, por ser a modalidade que mais movimenta atletas (só no Girabola são cerca de 368 atletas de 16 equipas de 23 cada) está comprometido.

Por exemplo, só em termos de salários, uma equipa de primeira água não paga menos de cinco mil dólares aos seus jogadores mensalmente.
As de baixo rendimento, prometem mais ou menos o equivalente a 200 mil kwanzas ou menos. Se nos apegarmos a esta última hipótese, teríamos a seguinte situação numa equipa de baixo rendimento: 4.000.000.00 (quatro milhões seiscentos mil kwanzas) de salários mensalmente só para os jogadores sem contar com a equipa técnica, viagens, hospedagens, outros assalariados do clube além das despesas extras.

Anualmente, ou seja, por época, que se a memória não me atraiçoa leva cerca de dez meses, o clube teria um gasto de 46.000.000.00 (Quarenta e seis milhões de kwanzas). Se adicionarmos outros tantos milhões referentes a outras despesas indispensáveis para a vida do clube então….já podemos calcular o porquê das desistências.

Entretanto, na maior parte dos casos, apostar no Girabola é claramente uma forma de investir conscientemente num terreno que não produz, o que é equivalente a plantar no deserto, porque por mais que um clássico Petro de Luanda – 1º de Agosto arraste alguma multidão, na realidade a maior parte dos espectadores não paga.

Além disso, mesmo que pagassem, o valor cobrado é irrisório e às vezes nem dá para pagar o aluguer do estádio visto que ambos os clubes jogam em campos alugados. O que dizer de equipas que mesmo jogando em casa não conseguem arrecadar pelo menos vinte mil kwanzas ou menos por partida? Mesmo assim, os clubes do Girabola e não só, dão-se ao luxo de gastar balúrdios em dinheiro com salários, prémios de jogo, contratação de jogadores às vezes a preços astronómicos, e outras despesas necessárias mais sem receber rigorosamente nada!
O prémio da equipa que vença um campeonato nacional é como uma gota de um água adicionada num copo já cheio deste líquido, muito inferior ao que se gasta ao longo de uma época. Não conheço o lado invisível do Girabola, por isso não me atrevo a concluir que os patrões do nosso futebol não estejam a bater muito bem.

Por outro lado, a fraca capacidade económica da maior parte dos amantes do desporto angolano e a ausência de verdadeiros artistas nas diversas modalidades para atrair o público aos palcos de disputa contribui muito para que não haja retorno do que se investe.

Em contraste, em países como Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Holanda, França, e outros da Europa e não só, as coisas funcionam porque os adeptos na maior parte dos casos têm capacidade financeira que lhes permite pagar para ver os verdadeiros artistas em acção. Outro aspecto que conta a favor do desporto em tais países, é que os homens de dinheiro daquelas paragens apostam seriamente no desporto porque ganham muito com as apostas entre eles. Os clubes têm verdadeiros activos, como por exemplo acções em grades empresas e patrocínios de adeptos ferrenhos e ricos além das receitas que fazem por cada partida no seu Estádio.

De onde saem os milhões de dólares que as equipas que disputam a Liga dos Campeões Europeus ganha por jogo e nas finais? não são receitas vindas de nenhum Estado, mas sim de empresários que apostam seriamente na Liga e esperam com naturalidade o seu retorno.

É assim que em desportos como a Formula 1, Ténis de Campo, Golf, Boxe Basquetebol e outros fazem-se grandes milionários entre os artistas que fazem as delícias dos amantes das diversas modalidades.

Dai, os valores envolvidos em transferências ou compra de jogadores valiosos para os clubes mais endinheirados da Europa e não só . A China, está a aprender muito bem a lição e não nos admiremos se dentro de pouco tempo aquele país vir a ser ou a estar entre as maiores potências do futebol Mundial. Portanto, é ponto assente de que tem de haver outras políticas para se investir no desporto angolano por forma a se obter um retorno. Enquanto este tempo não chegar, se calhar será necessário mudar o molde de disputa do Girabola para que o campeonato não pare por falta de equipas em condições de fazê-lo no actual molde de disputa.

Para isso podemos contar com o contributo de muitos cérebros que este pais tem ligados ao desporto para “fabricar” ideias que realmente funcionem e os nossos campeonatos nacionais, especialmente o de futebol, Andebol, Basquetebol não parem por falta de dinheiro.

Em termos de mudanças nos moldes de disputa do Girabola, em 2018, se realmente as coisas se complicarem em termos financeiros, o que é mais provável que venha acontecer, talvez devêssemos voltar ao sistema de disputa por seres como aconteceu em 1979, ou algo parecido. O mais importante será criar um sistema de disputa que não envolva muitos custos para as equipas de modo a permitira que todas elas participem e terminem a competição sem grandes dificuldades e manter a verdade desportiva.

De resto vamos deixar que os especialistas da matéria trabalhem seriamente e encontrem soluções praticas para que no caso de as coisas piorarem no campo económico em 2018 não venhamos a ficar privados da grande festa do povo: O Girabola.
Augusto Fernandes

Últimas Opinies

  • 19 de Março, 2020

    Escaldante Girabola

    O campeonato nacional de futebol da primeira divisão vai dobrando os últimos contornos. A presente edição, amputada face a desqualificação do 1º de Maio de Benguela, abeira-se do seu fim . Entretanto, do ponto de vista classificativo as coisas estão longe de se definirem. No topo, o 1º de Agosto e o Petro travam uma luta sem quartel pelo título.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Cartas dos leitores

    Estamos melhor do que nunca. A pressão é para as pessoas que não têm arroz e feijão para comer. Estamos sem pressão, temos todos bons salários e boas condições de trabalho. Estamos numa situação de privilégio e até ao último jogo tivemos apenas duas derrotas.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Jogos Olmpicos2020

    A suspensão de diferentes competições desportivas a nível mundial em função do coronavírus, já declarada pela OMS-Organização Mundial da Saúde como Pandemia, remete-nos, mais uma vez, a reflectir sobre a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Pelo menos até aqui, o COI-Comité Olímpico Internacional mantém de pé a ideia de realizar o evento nos prazos previstos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    FAF aquece com eleies

    Cá entre nós, o fim do ciclo olímpico, tal com é consabido, obriga, por imperativos legais, por parte das Associações Desportivas, de um modo geral e global, a realização de pleitos eleitorais para a renovação de mandatos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    Cartas dos Leitores

    Acho que o Estado deve velar por essas infra-estruturas.

    Ler mais »

Ver todas »