Jornal dos Desportos

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Opinio

Podemos acreditar na Seleco

27 de Junho, 2019
Depois da soberba exibição que os Palancas Negras fizeram diante da Tunísia, no jogo de estreia do Campeonato Africano das Nações (CAN), que está a decorrer no Egipto, podemos dizer que os angolanos têm motivos para acreditar e confiar na sua equipa.
Com uma atitude mental completamente nova, os nossos rapazes mostraram que não estão no Egipto para passear, mas sim para competir. Era isto que faltava aos nossos jogadores. É importante lembrar que, depois do Mundial de 2006, o futebol angolano regrediu de forma assustadora.
Mas, antes deste período, tivemos dois momentos importantes. De 1976 á 1985, vivenciamos grandes momentos de futebol, com jogadores vindos da época colonial, como Inguila, Dinis, Chimalanga, Geovety, João Machado, Garcia, Napoleão, Ferreira Pinto, Alves, Arménio, Chiby, Eduardo André, Santinho e tantos outros.
Portanto, em função da qualidade técnica e física dos jogadores da geração dos acima mencionados, Angola teve momentos memoráveis em jogos internacionais, embora nunca tenha participado numa fase final de um CAN, limitando-se apenas em disputar jogos amistosos e participações de fases de eliminatórias da prova e Mundiais sem sucesso. Certamente, muitos dos que agora estão na casa dos 50 anos para cima, lembram-se, com alguma saudade, daquela selecção que disputou o celebre torneio Angola – Cuba, e que efectuou o primeiro jogo oficial de Angola contra o Congo Brazzaville em 1976! Em 1980, se a memoria não me atraiçoa, Angola começou a sua participação, na disputa dos jogos para o apuramento ao CAN e Mundiais e não podemos nos esquecer daquela celebre selecção de 1985(?) composta por Napoleão, André, Sarmento, Eduardo Machado, Chico Afonso, Macuéria Santo António, Ndunguidi e outros, que chegou a penúltima eliminatória para o Mundial de 1986, contra a forte equipa da Argélia. Pela primeira vez, Angola havia colocado de sentido uma das maiores forças do futebol africano da época, a Argélia, de Rabat Madjer e companhia.
No primeiro jogo realizado no Estádio dos Coqueiros, houve um empate a zero e em Argel, a escassos dez minutos do fim da contenda, Angola impunha um rigoroso empate a duas bolas e marcou um terceiro golo, que foi anulado pelo árbitro da partida, por motivos que só ele sabia. Naquela ocasião, Angola deu o primeiro aviso ao continente e não só, de que estava preparada para estar entre as grandes selecções de África. Entretanto, com o envelhecimento de alguns jogadores daquela geração e muitos factores extra campo, o nosso futebol foi impedido de progredir. Dez anos depois, em 1995, Angola recuperou o fôlego e com muito apoio do ex presidente da República, José Eduardo dos Santos, a Federação Angola de Futebol (FAF), com Justino Fernandes no comando, montou uma selecção liderada por Carlos Alinho, e jogadores como Marito, Akwá, Jony, Paulão, Quinzinho, Wilson, Fua, Minhonha, Castela e outros, conseguiram o passe para o seu primeiro CAN realizado na África do Sul em 1996.
Curiosamente, passados mais dez anos Angola chegou ao seu primeiro e único Mundial até ao momento, em 2006, realizado pela Alemanha. No referido campeonato, Angola fez grande figura. Perdeu no jogo de estreia com Portugal, de Luís Figo, Ronaldo, Pauleta e outros por 1-0, empatou com o México, de Rafael Marques e companhia a zero e com o Irão a uma bola. As coisas correram-nos bem até depois do CAN de 2008, onde também a nossa equipa fez uma grande exibição.
No entanto, as coisas começaram a mudar de figura já na fase de apuramento para o CAN de 2010, que foi organizado pelo nosso país e para o Mundial do mesmo ano na África do Sul. De repente, como do dia para a noite, o nosso futebol começou a regredir drasticamente. Ninguém sabia explicar os reais motivos de tal situação. A família do futebol angolano ficou dividida. Levantaram-se muitas acusações e muitos, como Oliveira Gonçalves, que foi considerado um herói por ter levado Angola ao seu primeiro Mundial, foram sacrificados ou vilipendiados.
A situação do nosso futebol ficou tão critica, que foi necessário o governo organizar uma conferência nacional com convidados do estrangeiros em 2016, para descobrir o “medicamento”, para a cura da doença do nosso desporto favorito, mas tudo foi em vão. Curiosamente, quase dez anos depois, isto a partir de 2017, as coisas começaram a mudar. Com o apoio incondicional do Presidente João Lourenço, o nosso futebol começou a voltar aos tempos de glória. Tempos de glória não necessariamente significam conquista de títulos, mas também podem significar momentos de alegria, proporcionados por jogadores com mentalidade nobre e que percebem a responsabilidade que é representar uma nação.
Num espaço de apenas dois anos, a FAF conseguiu montar uma equipa capaz de representar, com dignidade, o país que representam. Depois da excelente exibição dos Palancas Negras, diante da Tunísia, no dia 24 do corrente, podemos dizer que os Palancas Negras estão em condições de fazer história neste CAN.
No sábado, o adversário será a Mauritânia, que perdeu por 4-1 diante do Mali, e que por isso tudo fará para, no mínimo, pontuar, o que implica dizer que será um jogo muito difícil, para a nossa rapaziada. Mas depois do jogo contra a Tunísia, temos motivos para acreditar que, com maior ou menor dificuldades, Angola vergará o seu adversário. Augusto Fernandes

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