Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Por qu o Dia Nacional do Desporto?

24 de Janeiro, 2019
Governar por manual é diferente de governar por realidades. E o desporto precisa de benfeitores, não de malfeitores. Assinalou-se ontem o Dia Nacional do Desporto e o que é isso? Uma data. Uma repetição de lugares comuns com datas diferentes. Uma base histórica para uma data, hoje por hoje, apenas simbólica.
O 23 de Janeiro foi proclamado pelo Governo como Dia Nacional do Desporto em reconhecimento do inegável papel que o desporto assume na sociedade enquanto factor de integração e desenvolvimento humano. Foi nesse dia, em 1979, que o Governo, em parceria com a sociedade civil, criou as primeiras comissões instaladoras de desportos na recém-independente República angolana e que, mais tarde, deram origem às primeiras federações angolanas dos desportos.
Isso, sim, foi uma época linda, com jovens bem formados e que lideraram a juventude nos bairros, depois comandaram as tropas e as vontades, a tal ponto que a juventude neles não se extinguia em si e quiseram ser jovens ainda e atrair outros mais jovens ainda, pois, já que não podiam jogar à bola à civil, jogariam na vida militar. E foi lindo ver nascer os primeiros clubes na Angola pós-colonial.
Nasceu primeiro o clube das Forças Armadas, alusivo à mesma data, Primeiro de Agosto, mas era a Sonangol quem parecia que dava oxigénio ao país e então não podia ficar atrás; apoderou-se do Clube Atlético de Luanda e dali fez o Petro. Assim nascia uma rivalidade que haveria, até aos dias de hoje, parecer que se trata do umbigo desportivo dos angolanos. Mesmo no Sul, no Leste, uma mística rachada a meias.
Assim e em tempo record, do pioneiríssimo clube Atlético – primeira gafe da nossa história desportiva – nem sequer a memória de Demóstenes sobrou, quando mais a lembrança do grito já de cisne, do Velho Couto Cabral, último representante duma geração enterrada viva pelo turbilhão dos primeiros tempos e da mudança.
Angola já havia tido uma elite africana no desporto colonial e o Atlético e Velho Demo eram representantes dessa cultura desportiva, que era a duma antiga elite social-desportiva africana que se destacava nas escolas, ginásios, bairros e clubes, época essa donde Bonga e Rui Mingas saíram primeiro do anonimato e de tão bons, ambos foram campeões e recordistas em Portugal. Mas não foram únicos em tais façanhas.
Assim foi que a memória e a revolução mantiveram uma relação do tipo alter-ego, daí o mesmo tempo que apagou o Atlético do mapa, ser o mesmo que nem sequer se falou do exemplar Demóstenes de Almeida. A dar os primeiros sinais de cansaço da guerra nas tropas, as lideranças militares compreenderam que o desporto seria um bom escape, além de alguma forma de manter a preparação combativa.
O fenómeno era transversal e logo depois do Petro nascer, os militares, que não se reviam todos no Primeiro de Agosto, embora lhe reconhecessem o papel pioneiro, queriam fundar também emblemas dos diferentes ramos e forças em que se haviam desmultiplicado os antigos guerrilheiros e novos comandantes militares do país. Assim surgiriam a BCR, oficina militar, e mais tarde o Clube Dínamos, gerado no seio da Segurança do Estado. Quem não se quis deixar atrás foi a Polícia, que instaurou no seu seio o Interclube, fortemente sustentado pela corporação, ao que se diz, a exemplo do clube-pai da tropa toda.
No entanto, haviam alguns poucos clubes sobreviventes ao fim da época colonial de Angola e que não fecharam portas, embora mudassem de nome, como o Sporting de Luanda ter virado “Diabos Verdes”. Mas, de todo o cenário, o mais curioso foi como em finais dos Anos 80, primeira metade dos 90, se fazia desporto graças à crise.
As fábricas estavam a lutar para não encerrar, nem despedir, então a sua fraca produção servia para fazer de pagamento de salários, inaugurando a fase a que se chamou de “auto-consumo”. Foi, então, que os grupos desportivos da indústria perceberam que, sendo a procura de produtos altíssima no mercado informal, então seria ali que poderia obter mundos e fundos, logrando assim criar equipas de andebol, basquetebol, até futebol, que viviam da venda da própria produção, a preços especulativos.
Todos se recordam da época em que em Angola, era tal o que se pagava pela cerveja importada, que o valor de uma caixa rendia em kwanzas o suficiente para comprar um bilhete de passagem e ainda pagar-se o hotel por breve estadia. A fase do auto-consumo e da grade de gasosa são símbolos da Angola desportiva a que se refere o Dia Nacional do Desporto. E foram dessa época os nomes de grupos desportivos que muito fizeram e nada deixaram, chamados Bolama, Cuca, ERT, Nocal, Sociborda, Textang, etc, etc, etc.
O pior de tudo, foi o desenraizamento dos clubes tradicionais. Tal como havia acontecido com o Clube Atlético de Luanda, cujos pais não conseguiram manter fiéis os filhos, aconteceu deixarem o desporto morrer onde eram tradicionais os clubes Ara da Gabela, Dinizes de Ndalatando, Independentes do Tômbua, para dar exemplos mortais praticamente de comunidades que deixaram de ter ligação incondicional ao desporto e ás suas próprias tradições.
Ao que se diz, nas condições de transição política de Angola, houve clubes e modalidades que ficaram sem seguidores, por falta de identidade local entre os naturais e os emblemas coloniais que ali havia. Será? E já sem o colono, ali não se gosta mais de desporto? E assim mudaram as famílias? Ou as culturas?
A partir de 1993, com a passagem à economia de mercado, conjugadamente com a extinção da Secretaria de Estado da Educação Física e Desportos, perdeu-se o nosso prumo desportivo e perdeu-se a presença da educação física no quotidiano da criança e do jovem angolano. Aos técnicos, seguiram-se os políticos no sector.
Os antigos dirigentes juvenis cansaram-se de marchar e passaram a reclamar gabinetes, tendo os destinos do desporto passado das mãos dos técnicos, para as dos políticos, jovens e inexperientes. De uns para outros, não sei se a interpretação da data e motivos do Dia Nacional do Desporto se mantêm, ou se mudaram. Já se havia perdido a tradição, depois o bairrismo, e agora as valências.
O desporto sofreu a recessão a sério, clubes morreram, competições desapareceram, viveiros secaram, contudo, mas nada disso foi por falta de meios. Os vícios da sociedade apoderaram-se do fenómeno desportivo e o empenho e dedicação, foram trocados pelo interesse pessoal e a vantagem material, ou nada feito.
Sempre desatentos ao fenómeno, foi só ver como cresceu o Ministério da Juventude e Desportos, a tal ponto, que se juntarmos todos os seus funcionários, em várias províncias são mais numerosos que os atletas em actividade.
Actualmente o ministério não controla o desporto de bairro, o desporto na comunidade, do município, nem descentralizar ou desconcentra e a prova é como continua apegado às infra-estruturas desportivas do Estado, ao invés de as entregar à administração local. Uns detêm os meios e outros, a população.
Não há um verdadeiro casamento de vontades e no cerne das questões está sempre o bem, ou a vantagem material. Neste mesmo momento, por exemplo, há um projecto na capital que não tem acordo há meses, simplesmente porque quem deve ceder os direitos quer conservar para si o nicho de negócio das galerias. E não seria para as galerias suportar o projecto, mas sim o ex-administrador.
Portanto, acabou o auto-consumo, mas não o espírito da gasosa. Outro exemplo disso é o Estádio dos Coqueiros, igualito ao Estádio da Cidadela. Os compadres e parentes cobiçam sempre as galerias, vê-se pelo meio muitas placas de associações desportivas e federadas, mas depressa se deixa de ver a actividade desportiva, passando a crescer a actividade comercial. Ou a morrer. E um dia tem-se o estádio só com pouca coisa aberta à volta, habitualmente um banco e três salões, um de unhas, outro de cabeleireiro e outro ainda, que nem o próprio dono sabe mais de quê.
Isto é o retrato da incapacidade, até, de mobilizar os espíritos para assinalar-se a data ou Dia Nacional do Desporto, com o significado e simbolismo que deve ter. Ontem, ao assinalar o 23 de Janeiro, houve painéis e exposições sobre actividades, situações e património, nomeadamente as principais infra-estruturas desportivas. Quem já gere explicava como está a gerir, ao invés de o ministério explicar como transitar de si, para as províncias e municipalidades, a gestão directa das infra-estruturas.
A maior dificuldade de gestão das nossas infra-estruturas desportivas é não estarem concebidas para ser massivamente usadas, mas para serem comercialmente viabilizadas. Os centros cívicos, como o teatro, o estádio, o mercado, a praia, etc. não são para ser privados, mas públicos. Assim foi concebido estar-se em sociedade, todavia persiste quem infelizmente queira por vezes bens só para si.
Hoje uma Cidadela, mesmo os Coqueiros, para dar dois exemplos, são mais locais de comércio e serviços, do que desporto. E é diante desta realidades cruas que a dedicatória de um Dia Nacional do Desporto a falar dos negócios do desporto, vale menos do que passar um dia a mobilizar as comunidades e administrações para abraçar a municipalização do desporto.
O país está a pretender seguir num rumo diferente do MINJUD, que quer fazer render fora de prazo bens que até aqui só desperdiçou. Mas, de todos, nenhum tão valioso quanto a juventude angolana deixada ao sedentarismo.
Arlindo Macedo

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