Jornal dos Desportos

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Opinio

Porque lhes negamos a dignidade

30 de Junho, 2017
É um assunto que convoca uma abordagem permanente, ou não estivesse em causa a dignidade dos ex-desportistas, os tais que relegaram outros projectos para vestir a camisola do patriotismo.

Um exemplo vivo é o Ndungundi Daniel, o craque que não foi para o estrangeiro porque era necessário e imprescindível estar em Angola. Em nome do bem supremo aceitou o desafio, e hoje já quase nos esquecemos dele. Seria uma ofensa lhe oferecer, por exemplo, uma patente de brigadeiro? Não fez por merecer? Sabemos que não lhe foi reconhecido nesta dimensão. Como ele, há uma legião de desportistas.

Por exemplo, Baduna, não merecer ele mais do que ser assistente do treinador principal nas camadas jovens do Petro de Luanda.
Na mesa desse debate está a dignidade da pessoa humana, aqueles angolanos que decidiram colocar-se à disposição do País, no seu período mais complicada, de ausência de uma administrativa à altura. Foi nesse período em que receber o salário no guiché do clube não era escândalo algum.

Quantos não terão recebido no corredor dos clubes, nos autocarros em direcção a uma partida importante. Outros esperavam meses e meses para ver a cor do dinheiro. Quantas vezes não terão recebido em troca bens alimentares para acudir a fome em casa. Segurança social? Que coisa é essa? Nunca nos lembramos de saber se o clube contribuía ou não.

Aliás, muitos atletas quando colocaram fim as respectivas carreiras, o Instituto de Segurança Social nem sequer havia sido criado. Se existia, quase nunca ninguém se lembrou de obrigar os clubes a canalizarem as necessárias contribuições. Disso, resultou que muitos trabalharam 15 ou mais anos, porém, não sabem onde ir reclamar. Processar o clube ou o Estado deve acudi-los? A minha opinião é que é um assunto do Estado, nos mesmos termos em que fez com outros sectores da vida social.

Os atletas, particularmente, os que fizeram muito pelas selecções nacionais, pouco importa a modalidade, deviam ser tratados de outra maneira. Não se pode vê-los nas ruas a andarem feito desgraçados quaisquer, pessoas que nunca foram úteis para o País. Que País é esse que não é capaz de dar uma dignidade ao seu único medalhista mundial e paralímpico.

José Sayovo merecer apenas uma patente de capitão e nada mais? Não perdeu a visão em nome de um bem-comum? Inconformado com a sorte, hasteou a bandeira de Angola onde nenhum outro diplomata foi capaz de o fazê-lo. Que compensação tem hoje esse senhor? Podem as autoridades ouvirem e ficarem de calados ante a súplica de Sayovo para trabalhar?

Que mensagem estaremos a passar a outros atletas dispostos a vestir a mesma camisola? Não terão razão os angolanos que escolheram outros países para fazer a sua vida desportiva, chegando a usar as cores daquele país. Temos nós alguma autoridade moral para criticarmos a atitude do médio do Sporting William de Carvalho? Alguém no seu bom senso pode cobrar que filho do Gil Gomes opte por jogar nos Palancas Negras e não na Inglaterra, quando os anteriores andam nos mercados informais a venderem dólares, e outros negócios para sobreviverem. É uma questão que o Estado não pode continuar a ignorar.

É necessário além de uma legislação eficaz existir uma fiscalização canina, para que o Estado não seja obrigado a assumir despesas atrás de despesas. Mas para os que já contribuíram, é urgente existir uma medida. É necessário que alguém diga alguma coisa prática, capaz de animar os que agora se iniciam. De outro modo, corremos o risco de termos selecções pobres competitivamente, e o nosso país sempre abaixo do seu potencial.

Indigência dos jogadores não é saudável para o Estado nem para qualquer cidadão que viu esses atletas representarem o país com todo o seu esforço. É uma ofensa termos Jean Jacques sem o devido reconhecimento, uma fonte de subsistência à altura. Dirão muitos mais ele ganhou dinheiro nos clubes nos quais militou.

Mas quanto ganhou ao serviço da Selecção Nacional? Mais quantos fizeram menos pelo País e hoje são que mais dignidade socialmente usufruem. Jean Jacques é uma marca, e não mais um simples ex-jogador. Assim como Ndunguid, Joaquim Dinis, Akwa, Paulão e outros. Lutonda, Baduna, José Carlos Guimarães, David Dias e outros são o rosto do desporto nacional feito depois da independência. É preciso que se crie uma estratégia para os proteger do vexame de irem aos mercados informais para sobreviverem.
Teixeira Cândido

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