Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Possibilidades repartidas

17 de Maio, 2013
Não há dúvida que se trata de uma “missão espinhosa”, para a qual o bicampeão nacional alcançou o direito de participar por mérito próprio, nas condições que são do conhecimento de todos.

Fruto de sacrifício acrescido, mesmo que na competição interna comece a dar indícios de ter sacudido a crise, os representantes angolanos vão procurar atingir a final, pretensão que está ao seu alcance, se atendermos ao facto que as equipas que atingiram esta fase partem em idênticas circunstâncias. O facto de o Esperance de Tunes, vice-campeão da competição e um dos “colossos” do desporto rei continental, figurar no grupo, ao contrário da opinião de algumas pessoas, deve servir de inspiração para os angolanos, que na fase de eliminatórias deixaram pelo caminho Enugu Rangers da Nigéria, outro teórico “papão” do futebol continental.

É justo reconhecer que os adversários dos angolanos são de países com alguma tradição no futebol continental, mas não deixa de ser verdade que nos últimos tempos, o nível de qualidade da competição interna nos Camarões e na Costa do Marfim tem conhecido um certo decréscimo.
É certo que o Recreativo do Libolo, tal como acontece com os outros sete participantes, incluindo os do grupo A, constituído pelo Al Ahly (Egipto), campeão em título, Zamalek (Egipto), Orlando Pirates (África do Sul) e AC Leopards (República do Congo), tem possibilidades de chamar a si o triunfo.

O facto de alguns “colossos” do futebol africano, como o campeão e vice - campeão continental, o Al Ahly (Egipto) e Esperance de Tunes (Tunísia) e outros habituais estarem presentes nesta fase da competição, infere-se que qualquer um pode chamar a si o triunfo e representar o continente africano no Campeonato do Mundo para clubes, a ter lugar em Dezembro próximo, em Marrocos.

Realisticamente, é de convir que qualquer das oito equipas que vão marcar presença na derradeira fase da “Champions” africana, cuja primeira jornada está prevista para os dias 19, 20 e 21 de Julho, traçou como meta alcançar a melhor classificação possível, não sendo de descurar a conquista do troféu.

Na jornada em referência, o representante angolano defronta, em Calulo, o Esperance de Tunes, formação que eliminou na fase de eliminatórias, o 1º de Agosto por 2-0, fruto de dois triunfos de 0-1 e 1-0, respectivamente, em Luanda e Tunes. Ao se reconhecer que o Recreativo do Libolo, ainda “desconhecido” nas lides do futebol de topo continental, mas que impõe respeito a adversários de qualquer quilate, e estar no direito de “pensar grande”, não se deve dissociar do que a realidade apresenta.

Como o segundo passo deve ser dado a seguir ao primeiro, distantes da intenção de nos imiscuirmos nos propósitos da direcção dos “embaixadores” angolanos, somos de opinião que o objectivo dos pupilos de Henrique Calisto deve assentar, de imediato, sobre a obtenção de uma classificação na fase preliminar do grupo B, designadamente, a 1ª ou a 2ª posição, que lhe permita alcançar as meias-finais, para depois lutar pelo passe para lutar pela conquista do título.

Para que a preparação administrativa, técnica, desportiva e competitiva decorra a preceito, é necessário que o trabalho de casa comece o quanto antes. Os encontros para o Girabola, cuja recuperação começou a ser encetada, para além de servirem para testar o grau da capacidade de evolução dos atletas, pois é consenso geral que no que concerne a organização administrativa, o Recreativo do Libolo constitui um exemplo a ser seguido pelos demais clubes angolanos, devem ser aproveitados para elevar a questão psicológica e os factores de motivação.

É caso para aferir que tal como as demais equipas participantes nesta fase, Angola “corre o risco” de marcar presença, pela primeira vez, num Campeonato do Mundo de clubes, por intermédio do Recreativo do Libolo. O próximo “Mundial” de clubes está previsto para Dezembro, em Marrocos.
Leonel Libório



ARTIGO DE FUNDO
Fins e meios


No desporto, como em tudo na vida, nem sempre os fins devem justificar os meios. Ganhar a qualquer custo pode significar utilizar meios pouco claros para atingir a vitória e isso pode significar a perda de valores elementares.

No mundo do desporto, hoje, temos casos que em nada abonam a integridade dos desportistas e de todos quantos nele estão engajados. Os casos de corrupção que abundam pelo mundo fora são exemplos típicos que devem levar à reflexão e a um combate mais cerrado. No boxe, Mike Tyson teve uma mordidela famosa no combate contra Evander Hoolyfeld, quando decidiu arrancar um pedaço da orelha do adversário para tentar chegar à vitória.

Por cá, falou-se muito, em tempos idos, de um juiz de campo que obrigava jogadores de determinada equipa a caírem dentro da área adversária para assinalar o respectivo penálti, pois, em troca receberia “favores” pelo acordo. Conta-se que em determinado jogo o mesmo juiz expulsou um jogador, após obrigá-lo sistematicamente a cair na área de rigor adversária, sem este fazer menção de fazê-lo, o que colocava em causa o acordo com a equipa do mesmo atleta. Mas no mundo de hoje também proliferam atletas íntegros, que não se sentem vencedores sem o merecerem.

Na Burlada, uma pequena localidade de Navarra, em Espanha, um jovem de 24 anos tornou-se no meu herói, por estes dias. Numa prova de cross country, Ivan Fernandez só não venceu porque mostrou carácter e honestidade. Na prova, com atletas de renome, entre os quais o queniano Abel Mutai, medalha de ouro nos 3.000 m obstáculos em Londres, Fernández podia ter sido um vencedor inesperado, mas recusou-se a seguir as ordens do destino. A história é contada da seguinte forma:

Mutai estava prestes a vencer a corrida mas parou no lugar errado, pensando que tinha chegado à meta, na primeira posição. Ivan Fernández, que na altura era o segundo classificado, viu o erro do concorrente africano e, em vez de ultrapassá-lo, conduziu-o ao local de chegada para confirmar a vitória que por instantes lhe escapara. Dizem as crónicas que o jovem corredor espanhol chegou mesmo a arrastar Mutai, pois não se entendiam em línguas diferentes e nem tão-pouco em gestos que o espanhol fazia para convencer o campeão olímpico que no sítio em que parara não era a linha de chegada.

Ivan Fernández estava a dez metros da consagração com a vitória em Burlada mas preferiu entrar para o clube dos atletas íntegros, daqueles que preferem vencer apenas e quando merecem este direito. Se Mutai não se tivesse enganado seria o vencedor natural porque não tinha oposição e o corredor espanhol ajudou-o simplesmente a corrigir um erro involuntário. E escreveu depois: “Acho que é melhor o que eu fiz do que se tivesse vencido nessas circunstâncias. E isso é muito importante, porque hoje, como estão as coisas em toda a sociedade, no futebol, na política, onde parece que vale tudo, um gesto de honestidade fica muito bem”. Ele disse tudo.
FONTES PEREIRA

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