Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Presidente do CIO, d-nos bolsas e formao!

10 de Maio, 2017
O presidente do comité internacional olímpico vem a África pelo segundo ano consecutivo desde que assumiu o movimento olímpico em 2013. Thomas Bach esteve em Março de 2016 a apaziguar o Magrebe, fustigado por atentados particularmente na Tunísia e em plena crise de foragidos da Líbia que se refugiavam na Argélia, tendo culminado essa visita no Marrocos.

O senhor Bach aproveitou a estada em Tunis para sublinhar ‘o papel de linha da frente que o desporto deve ter para poder infundir os seus valores nos jovens e banir o extremismo e a violência’. Embora política, a mensagem tem um realismo absoluto.

O mais importante dos sinais então enviados pelo sucessor de Juan Samaranch e Jacques Rogge é quando exorta a seguir, em Argel, a importância da introdução precoce do desporto no currículo escolar em idade tenra para suprir o vazio susceptível de levar ao desvio comportamental da criança e do adolescente.

Entre nós a introdução do desporto no currículo era coisa para a 5ª classe em diante, tendo entretanto sido suprimido do programa escolar a cadeira de educação física, onde se adquiria a introdução ao desporto. Hoje já não temos educação física, sequer.

Até à reforma, o desporto ainda foi seiva que correu pelas veias do Ministério da Educação, tendo havido o exitoso ‘desporto escolar’ que chegara a mover através do país mais de quarenta equipas de andebol juvenil em ambos os sexos. Contudo nunca o ministério e a Secretaria de Estado da Educação Física e Desportos chegaram a um consenso. Estranhou quando em 2013, senão erro, houve um simpósio do ministério da Juventude e Desportos a indicar, inclusive, Rui Mingas na coordenação, sabe Deus do quê!

Contava-se que enquanto quadro da Educação, Rui Mingas instava a Secretaria de Estado da Educação Física e Desportos a arcar com o desporto escolar, mas quando pouco tempo depois foi nomeados Secretário de Estado, terá rechaçado a sua própria ‘oferta’. Verdade ou mentira, o curioso é que volvidos 30 anos ‘devolvem-lhe a batata’.

E decerto não por vontade nem incapacidade dele, da indicação não se passou também.

No entanto, na época, encerraram-se ginásios nos liceus, estragou-se mais por deterioração e desuso uma data de equipamento e material, até se fez fogo e lenha das preciosas madeiras do piso parquet próprio dos ginásios e dos espaldares de fino acabamento, todavia indiferente para o apetite voraz de qualquer fogo. Mas não indiferente à falta da sensatez humana.

Agora o Presidente do CIO, Thomas Bach, vem à África sub-sariana, onde países como o Senegal afirma na voz do próprio Chefe de Estado, Macky Sall, afirma que o seu país quer ‘colocar o desporto no centro da sociedade’. O estadista africano declarara isto quando visitava em 22 de Março o Museu Olímpico, em Lausanne, na Suíça.

O senhor Bach sabe que desta vez a visita é diversa e distinta da do Magrebe. E mais diversa chega a significar mais complexa. O alemão soube separar os objectivos no seu plano de viagem, tendo priorizado acalmar o agitado ‘mundo árabe’ e escolhido vir agora em tempos de grandes mudanças desportivas, acompanhar como África se pode encaixar na sua agenda. Não se descure que África representa hoje 54 votos que nenhum presidente de comité algum se permite desperdiçar; até direi, controlar.

O presidente do CIO começa, entretanto, por parar no Djibuti até hoje, tendo respondido ao convite para a Assembleia-Geral da ACNOA (Associação dos comités olímpicos nacionais de África), estando a sua presença a contribuir para acalmar os tumultuados ares do fórum, depois que alguns candidatos a presidente se viram desqualificados e sem poder concorrer.

Tal como já havíamos assistido na CAF com uma espécie de acerto de contas em meio a novidades geopolíticas do futebol, também a ACNOA propende para a dinâmica binário franco-anglófona – quando o binário não é negro-árabe - pela supremacia, domínio e influência no desporto.

E nesta espécie do jogo ‘dança das cadeiras’ a que os Lusófonos ainda assistem impotentes, mas receptivos a alianças, lá os ‘Palop’ vamos tentando tratar-nos por ‘irmãos’ de facto. Mas por vezes são a vizinhança e o regionalismo que mais pesam.

E enquanto não passarmos de um ‘bloco da herança Palop(iana)’, os nossos ‘5+1’, com a Guiné Equatorial às cavalitas, somos uma concertação apenas e sem um texto formal de aliança, de pacto ou de estratégia comum por enquanto.

Entretanto, o presidente do CIO está a caminho de Angola.

Quando em Março de 2016 esteve na Argélia, o Senhor Bach manteve um encontro com os jornalistas. Se isso se repetir em Angola, que não seja para pedir mais credenciais para a imprensa que cobre os jogos, mas sim, proporcionar ao jovem, incipiente e aspirante jornalismo desportivo angolense, um jornalismo mais consentâneo com o desenvolvimento desportivo, o fair play e o desenvolvimento.

Uma forma de o CIO e o seu filiado angolano, Comité Olímpico Angolano (COA), poderem contribuir com os jornalistas será formando a formação, por exemplo através da academia olímpica, mas também da associação profissional dos jornalistas desportivos, AIDA (Associação da Imprensa Desportiva Angolana).
Mas não somos nós, os jornalistas, os únicos, nem os principais carentes; os atletas, treinadores, inclusivamente os dirigentes, estão todos precisados do banho purificador do CIO em termos de formação, treinamento desportivo especial, e até administração.

Não sei com que fundos será, mas na Tunísia ficou implícita a ajuda do comité internacional a um projecto local em que o Presidente do CIO lançou a primeira pedra.

Além da futura nova sede do comité olímpico e da anexa academia olímpica, o complexo também vai incluir um centro especial de treinamento com hotel de 200 camas.

Quando depois se avistou com o Primeiro-Ministro argelino, Adbelmalek Sellall, o presidente ‘do Olimpismo mundial’ exortou os governos a promoverem o desporto, a cultura e a educação.
- ‘O trabalho do comité nacional olímpico não pode ser realizado sem a colaboração do governo’, enfatizou o presidente do CIO, Thomas Bach.

Assim e quando estiver entre nós, era desejável que o Presidente do Comité Internacional Olímpico pudesse, além de dar atenção ao COA, IOC possa atender os presidentes de algumas federações de modalidades olímpicas de Angola, sobretudo aquelas mais ‘desamparadas’.

E se estiver difícil, devem estes alternativamente ter ou uma mensagem única e pré-concertada ou abaixo-assinado pacífico como convém – ganhando-se em tempo no caso de indisponibilidade suficiente da visita – ou na falta ainda de também esta oportunidade, fazer chegar um ‘pé de orelha’ ao ilustre visitante e seu possível reconfortante.

Modalidades mais críticas, porém potenciais, como boxe, canoagem, ciclismo, ginástica, judo, natação, taekwondo, voleibol de praia, por exemplo, devem tentar o néctar maior que podem dali extrair se chegarem á fala com o Presidente Bach, que é – e sempre será – formação, actualização, evolução. Porque quem a obtiver primeiro sempre pode dar aos que se sigam.

Em outros países o CIO tem apoiado ou a construção da academia olímpica local, por exemplo, ou uma estrutura funcional do tipo centro formativo, informático ou biblioteca, mas aqui em Angola há demasiadas necessidades comuns para o desporto de alto rendimento que devem ter a primazia e a unanimidade. É tudo uma questão de discussão, acerto e partilha, mas será sobretudo uma questão de iniciativa, de agressividade com fair play, mas de responsabilidade e compromisso com o estado penurioso do ‘fenómeno desportivo’ em Angola.

O Presidente do Comité Internacional Olímpico comenta-se trazer uma mensagem de paz e esperança para a juventude africana. E segundo Thomas Bach, ‘os líderes têm de usar o poder de manifestação do desporto para disseminar mensagem de tolerância e de paz’. É uma mensagem humanista decalcada dos valores do olimpismo que resultam na melhor arma contra o ódio e o obscurantismo.

Nos jogos olímpicos os valores da excelência, amizade e respeito devem ser buscados e celebrados à escala mundial, mas é preciso cultivá-los primeiro, não se aprende apenas de cartilha e cantilena – e daí a importância da academia olímpica em um país. E esta será, no nosso contexto, a segunda das prioridades, a meu ver, logo a seguir à formação, se o Presidente do CIO abrir os cordões à bolsa, por pouco que seja.
Arlindo Macedo

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