Jornal dos Desportos

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Opinião

Princípios do Estado e o "sexo fraco"

06 de Dezembro, 2016
PONTO PRÉVIO: a minha colega Luísa Rogério em tempos escreveu: "Com a independência de Angola estabeleceram-se os pressupostos tendentes à concepção de cenários onde o chamado sexo fraco, afinal não tão fraco assim, tivesse um maior protagonismo. Basta lembrar que o Estado consagra entre os seus princípios, a igualdade de direitos que passa pela emancipação da mulher".

Eu, por esta razão, pego este fio à meada, para, com esta ilustre colega, dizer que a FAF, os clubes e Associações é que estão a negar esta igualdade ao futebol feminino.

E, coloco desde já, esta questão: se Angola realizou o último jogo internacional em 2011, diante da similar do Zimbabwe, no apuramento para os jogos Panafricanos de Maputo (Moçambique) em que no jogo da primeira “mão” disputado na cidade do Dundo (Lunda Norte), as duas selecções empataram (1-1) e, no confronto de resposta, em Harare, Angola foi derrotada, por 1-3,...dá para acreditar que há entre nós futebol no feminino, passados que estão cinco longos anos sem mais ver jogos oficiais desta ou nesta categoria?

Ontem, mesmo neste jornal deu-se a noticia de que só no sábado é que a selecção nacional de Sub-20, em feminino, perdeu por 1-2, frente às antigas praticantes, numa partida disputada no Estádio 22 de Junho, em antevisão aos Jogos da 5ª Região, que a cidade de Luanda vai acolher este mês. Portanto, repito, cinco longos anos depois...

Eu, na véspera do início deste ano de 2016, devido à essa pouca atenção que se dá ao escalão feminino, escrevi noutro espaço na nossa imprensa que seria mais um ano para esquecer em termos de desenvolvimento do futebol feminino, o que de certa forma metia dó para as nossas "senhoras" que a jogar à bola já chegam a marcar presença em dois campeonatos africanos, nos bons tempos bem recordados aqui ao lado, pelo meu colega Carlos Calongo.

Disse na altura que isto só estava ( e ainda está) assim; só se estava ( e ainda está-se) a jogar futebol " no feminino" aos solavancos, porque a Federação Angolana de Futebol (FAF), não deu ( e continua a não dar) corpo à sua propalada política para salvar este escalão, conforme faz alardes desde que a actual direcção entrou em funções.

Aproveitei para citar um debate quente na Televisão Pública de Angola (TPA), em que vi e ouvi o respeitado presidente da FAF, Pedro Neto, a dizer que só voltaria a concorrer para sua própria sucessão se Angola, em masculino, vencer o CHAN, do Ruanda...

E, acrescentei que o feminino merece respeito. Defendi na altura que Pedro Neto devia agregar o facto duma sua eventual recandidatura só faria sentido se mais exigisse dos clubes e Associações ou mesmo por parte das altas entidades competentes desportivas - que até defendem quotas concretas para as mulheres, lá onde os homens têm domínio maior - mais atenção ao futebol feminino. De outra maneira, não vale à pena fazer discursos floreados em relação à boa vontade de ver as "senhoras a jogar como manda a lei" e, no terreno da verdade, apenas vê-se "futebol de mentira" neste escalão.

Como é que não se pode criticar este "estado de coisas"? Estamos no fim de 2016, mas na viragem do ano de 2015 para 2016 também cheguei a ouvir o presidente da FAF a apelar à necessidade das associações provinciais realizarem campeonatos femininos. No seu seu discurso não obrigou o estabelecimento de calendários de provas da época e a organização de outros torneios desta categoria.

Na altura, só a Huíla é que superava Luanda porque tinha organizado o primeiro campeonato provincial feminino, com a participação de 30 equipas em representação de seis municípios. Não sei se a iniciativa da Huíla tinha ou não mexido com os outros clubes e Associações. Hoje, em Luanda, só existem oito equipas no activo - Progresso, Terra Nova, Gira Jovem, VG FAMA, Renascimento, Gabriela FC, Renascimento e Real do Cacuaco.

Depois, a passar da teoria para a prática, gostei do singular pontapé de saída dado pela direcção do 1º de Agosto, que apresentou um projecto virado à promoção do futebol feminino. Oxalá esse projecto resulte. Este "lance" devia ser da FAF!
Desde já desejo boa sorte à coordenação da antiga internacional e capitã da selecção nacional, Irene Gonçalves, que conta com a mobilização de atletas com idade compreendidas entre os 8 e 13 nos de idade, para a equipa liderada tecnicamente pela também antiga avançada da selecção nacional Veró.

Em boa verdade, o futebol feminino não pode ser impulsionado apenas pelo "Girabairro", organizado pelo Movimento Espontâneo. A menina Paula da selecção de sub-20, que logo aos 15 minutos, no sábado, “violou a baliza” das veteranas e a sua colega Lourdes Lutonda são exemplos de que o futebol feminino em Angola tem craques que um dia podem dar alegrias ao País. Este é o sonho dos que em 1995 decidiram pelo futebol feminino federado: Chico Ventura, Filipe Mascarenhas, Domingos Bumba António Pacavira, Ilídio Cruz, Josué Gourgel entre outros. Custa concretizar isto?

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