Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Problema estratgico do desporto em Angola

25 de Fevereiro, 2019
Embora tenhamos títulos africanos, que os dedos das nossas mãos não chegam para reflectir, destaque para os feitos das selecções nacionais de basquetebol, em ambos os géneros, selecção nacional feminina de andebol e tantos outros conquistados, sem um carácter sistemático, pelas selecções nacionais de natação, judo, vela, xadrez, canoagem e outras.
Também as melhores equipas de basquetebol masculino e feminino de Angola, não deixam de conquistar títulos atrás de títulos, assim como as meninas do 1º de Agosto e do Petro não deixam, que mais nenhuma outra venha apaziguar a luta pela conquista total e avassaladora do domínio do andebol em África.
Contudo, nem tudo tem sido um mar de rosa, porque já importamos treinadores de basquetebol e andebol sem conta e somos forçados a naturalizar jogadores e jogadoras, os títulos africanos pelas selecções nacionais de basquetebol já nos caem das mãos com maior frequência, lindos campos de futebol e pavilhões multifuncionais foram erguidos das nossas terras, albergaram maravilhosamente os nossos hóspedes desportivos, dando uma dimensão invejável ao tímido turismo desportivo em Angola, mas a massificação que se prometeu, só é vista com uma lupa e, o mais grave de tudo, todos entendem, a sua maneira, de que padece o desporto nacional.
Realmente, todos em Angola entendem do que se passa com o desporto nacional, em termo macro desportivo e aos pedaços, mas ninguém entende que o desporto é uma actividade técnica como muitas outras, nomeadamente a agricultura, construção e aviação civil, que precisa de um Instituto Nacional de Desporto, que deverá orientar e pesquisar os diferentes segmentos da actividade desportiva, nomeadamente a formação de quadro, condição jurídica do desporto, o sistema de preparação das selecções nacionais, financiamento e construção de instalações desportivas.
Ao contrario de Portugal, que tem o Instituto Português de Desporto e Juventude; Moçambique que tem o Instituto Nacional de Desporto e o Fundo para o desporto e Cabo-verde, que terá o Instituto Cabo-verdiano de desporto e Juventude, Angola não tem um único Instituto que oriente o desporto nacional. Sem temer de ser repetitivo, gostaria eu de afirmar que o desporto, em Angola, precisa de um Instituto Nacional de Desporto, que teria responsabilidades muito sérias com os trabalhos de preparação das selecções nacionais desportivas, investigação dos fenómenos no desporto e os directores técnicos das federações nacionais estariam metodologicamente sob sua dependência.
Em Angola, embora todos falem de desporto, em casa, na universidade, em hospitais, nas ruas e, especialmente, em estúdios de rádio e televisão, nos lugares mais vocacionados, como clubes desportivos, associações desportivas provinciais e nas federações nacionais desportivas, falar ou debater o presente ou o futuro do desporto é “tabu”, porque ninguém tem coragem de falar ou debater o desporto de forma sistemática e institucional, pois os tempos das comissões técnicas nacionais junto das federações desportivas nacionais pertencem ao passado.
Ao contrário de outras partes do Mundo, em Angola, os presidentes das federações desportivas nacionais, embora possam ser médicos, economistas, juristas, empresários, militares ou pilotos, decidem quem deve ser o director técnico das federações desportivas nacionais, quando deveria ser regulamentada as possibilidades de indicação e contratação, pois o país já licencia, através das instituições de ensino superior, anualmente, mais de 25 especialistas em desporto.
No passado, ao contrário da estrutura actual do Ministério da Juventude e Desporto, que tem uma direcção nacional para as políticas desportivas, a então Secretaria de Estado dos Desportos tinha uma direcção nacional dos desportos com um departamento de desporto federado e um outro de alta competição, tendo o ultimo departamento a tarefa de acompanhar, fiscalizar e orientar os trabalhos das selecções nacionais de Angola.
Portanto, o Instituto de Desporto, que propõe-se seria um órgão do Ministério da Juventude e Desporto e teria a função do então departamento de alta competição e muito mais, visto que, com a sua extinção, o desporto nacional ficou amputado, daí que o rendimento desportivo das selecções nacionais tem vindo a definhar.
O que seria do futebol, se treinadores e académicos pudessem reunir-se num órgão, como uma comissão técnica nacional que, dirigida pelo director técnico da FAF, trataria de questões relativas a preparação das selecções nacionais de sub 15, 17 e olímpica?
O que seria se as comitivas desportivas de Angola aos jogos olímpicos, Jogos Pan-africanos e campeonatos africanos, tivessem um menor pendor turístico ao incluir, pela primeira vez, técnicos superiores de um possível Instituto Nacional de Desporto, com a tarefa de investigar o desempenho competitivo dos nossos atletas e houvesse, no final, um relatório redigido pelo mesmo Instituto, sobre a relação entre o desempenho competitivo e gasto financeiro?
Não tenha dúvidas, seria uma maravilha, porque estaríamos a corrigir o que está mal e melhorar o que está bem, pois de mãos dadas estaríamos à dirigir o desporto nacional, nomeadamente políticos, gestores desportivos, técnicos superiores desportivos, treinadores desportivos, clínicos desportivos e atletas. Manuel Garrido


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