Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Prova influenciou a media desportiva

09 de Dezembro, 2019
O “Girabola”, pode-se agora afirmar, influenciou sobremaneira a formação da Redacção Desportiva da RNA. Aquele mencionado quinteto de radialistas havia-se tornado insuficiente para a demanda, sobretudo a partida dos dois últimos; enquanto isso, nas principais rádios provinciais, a entrada de clubes locais no campeonato foi aquilo que estimulou o surgimento dos primeiros correspondentes desportivos, bem como em certos casos, a revelação de novos relatores: Arlindo João Carlos (Uíge), Francisco Simons (Luanda), Joaquim Gonçalves (Huíla); Adão Gabriel, Jorge Costa e Jorge Lage (Benguela), Manecas Mbingi(Huambo), e algumas temporadas depois, Mateus Gonçalves e Manuel Rabelais chegariam respectivamente do Lubango e Benguela, aos Estúdios Centrais da RNA, em Luanda, assim como José Sequesseque (Huambo), Manuel Madureira (Lubango e Benguela) e Silvério Martins (Cabinda).
Nos Anos 90, a Rádio teve outras novas revelações, casos de Joaquim Limpinho (Lobito), José Kissanga (Luanda), José Sequesseque (Huambo) e Vaz Kinguri (Luanda). Não são na totalidade os relatores que serviram ao longo dos 40 anos da competição e da narração no rádio, porém, foram aqueles que primeiramente surgiram e os que lhes seguiram de forma mais denodada e notada. Ainda assim, faço o ‘mea culpa’ se por ventura tiver cometido alguma omissão, que foi inviluntária.
A cobertura de uma competição nacional, mesmo para um ‘media’ electrónico ou, até, uma rádio nacional, era recheada de peripécias; se algo havia que fosse determinante, era a colaboração dos CTTA (Correios, Telégrafos e Telefones de Angola), cujas linhas de transmissão – o famoso circuito de 4 fios – era a alma gemeada rádio, mas não era tudo.
A máquina mais sofisticada da transmissão por cabo na época era o telex, que para a Imprensa era a única via; e quando não houvesse isso, havia sempre uma alternativa.
Neste último caso, o “correspondente” do jornal ou da agência, ia à estação local da RNA e, por telefone, chamava o “colega” de Luanda, que se deslocava até à Comandante Gika, para atender uma chamada na Rádio Nacional: ali e por telefone, o correspondente iria ditar, palavra por palavra, o teor do seu despacho. O mesmo sucedia amiúde quando houvesse uma deslocação ao exterior, pois, ao requisitar um circuito para os seus enviados, a RNA disporia de um determinado tempo de comunicação internacional, que os enviados da Imprensa nacional haveriam de aproveitar para ‘despachar’ para a sua redacção, em Luanda, a esperada ‘correspondência’ que, não vindo por telex, chegaria por telefone. E no final, a conta seria uma apenas e paga pela RNA...
Havia outros episódios caricatos e dignos de realce, não apenas pela curiosidade jornalística: relatar do cimo de uma árvore, pela melhor visibilidade dada das 4 linhas de jogo era por vezes uma hipótese melhor em campos com pouca acomodação para tantos espectadores incluindo profissionais da comunicação. E se o circuito via CTTA falhasse, a gravação do relato seria mandada em mão pela equipa visitante, no regresso a Luanda, ou em trânsito pela capital, indo alguém ao aeroporto recolher a fita, para ser transmitida na primeira oportunidade. Vezes sucedeu em que o portador da fita era precisamente a equipa derrotada, mas ainda assim ‘castigada’ em levar em mão e para Luanda o relato da própria derrota.
Entretanto a RNA ia-se equipando. Quando se puderam comprar os primeiros veículos para reportagem (Renault R4 combi), conhecidos por ‘azulinhos’ em alusão à pintura em dois tons de azul (cores institucionais), deixamos de nos empoleirar em muros e árvores quando necessário, para nos sentarmos na cobertura do mesmo veículo que nos servia de estúdio móvel. E para entrevistar, tínhamos de puxar os entrevistados até onde ficasse parqueado o veículo, dada a importância do seu posicionamento ser onde mais claramente se produzisse o sinal de rádio enviado para os estúdios. Seria também esse o começo dos repórteres de pista ou móveis, que presos a dezenas de metros de cabo, procuravam cobrir toda a chamada área técnica, a qual inclui a área dos bancos de suplentes e acesso aos vestiários.
Algo também marcante nas transmissões da época era o bairrismo dos narradores, incapazes de aceitar a supremacia do clube visitante, ou que eram mais enfáticos na narração das jogadas do emblema do seu coração, o que distorcia por vezes a imagem sonora, dando a impressão de uma realidade aumentada do próprio jogo. Foi só com o advento das primeiras transmissões televisivas do futebol que apareceu um ‘juiz’ da imparcialidade, que é o caso da lente de qualquer câmara.
Ainda assim, havia espaço para a brincadeira e chalaça no relato. Recordo uma vez em que, em uma Cidadela lotada, e durante uma prolongada paragem do jogo, pedi a um repórter que fosse até a um jogador caído no terreno e lhe perguntasse se estava bem para poder prosseguir; é claro que isso ultrapassava a margem das regras, pela invasão do terreno de jogo, e não iria estranhar o árbitro expulsar o repórter de dentro das quatro linhas, e aí foi que o meu colega desobedeceu o juiz da partida, a quem disse que estava ali a mando do relator e não sairia sem a resposta do atleta magoado, sobre como o mesmo se estava a sentir...
Assim e olhando para o passado, é possível aferir que o surgimento do “Girabola” foi um dos principais factores de desenvolvimento da própria comunicação social desportiva, tanto técnica como editorialmente. Para os repórteres da rádio júniores, o começo de carreira era a chamada “via sacra”, como soe dizer-se, e que constava em ir sempre primeiro aos vestiários conhecer a composição das 3 equipas, antes do jogo; e ao intervalo, lá voltar para saber se haviam alterações a registar. Só gradualmente esses juniores começavam a estar habilitados a fazer o seu informe ‘em directo’, ao invés de levar e trazer papéis.
Ultimamente as coisas elevaram-se sobremaneira ao possibilitar que os relatores utilizem a transmissão televisivas para poder rever jogadas, melhor que qualquer repórter de pista, pois essas imagens nunca mentem. De igual modo, a transmissão televisiva tem possibilitado fazer-se o relato de rádio sem estar forçosamente no estádio do jogo. Tempos houve, nos primórdios da TV em Angola, que a TPA usava o relato da rádio para ilustrar as imagens que passava sem relato próprio, e a que a RNA chamava por troça “rádiovisão”, para notório desconforto dos responsáveis editoriais da casa de televisão.
Como se percebe actualmente, aquelas foram situações transitórias, hoje felizmente ultrapassadas, o que não exclui que pontualmente não possa haver consulta entre os profissionais da rádio, televisão e imprensa, sobretudo quando os eventos são fora e os três não estão todos presentes. O que possa parecer ter sido antes uma divisão, foi na realidade o reforço das relações de amizade de interdependência que sempre existem no jornalismo, mesmo quando uma casa queira ter o exclusivo sobre as demais, pois, pela sua própria natureza, o desporto irmana as pessoas.

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