Jornal dos Desportos

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Opinião

Quando se atinge o fundo do poço

14 de Julho, 2017
As ameaças do 1º de Maio de Benguela suscitam rajadas de risos. Melhor do que isso não merecem os proletários. Com devido respeito para o sofrimento dos seus adeptos, mas os responsáveis da equipa encarnada de Benguela não estão a ser sérios. Ninguém os obrigou aceitar o lugar deixado pelo Benfica de Luanda, que atirou a tolha ao tapete por incapacidade financeira. Foi uma decisão sensata, que poupa os seus adeptos do vexame e respeita a verdade desportiva.

Embora fossem “os preferentes legais” para ocupar a posição do Benfica de Luanda, por terem jogado a edição de 2016, o certo é que podiam declinar o convite, evocando as mesmas razões. Ou não fossem questões de ordem financeira que tornaram o 1º de Maio de Benguela num autêntico elevador.

Sim, tivessem os dirigentes dos proletários respeito pelo emblema, teriam outra atitude, semelhante à do Benfica ou mesmo trabalhar apenas na formação, até existirem fontes sólidas e efectivas de receitas para suportar despesas do Girabola. Essa postura de uma bebé acossada por cólicas não abona a imagem nem a história do 1º de Maio de Benguela. Foi a primeira equipa na história do futebol nacional a disputar uma final africana. Foi a primeira equipa fora de Luanda a conquistar dois campeonatos. Foi, a par dos dois grandes de Luanda, principal contribuinte de jogadores para os Palancas Negras.

Paulo Alves “Paulão”, o extremo que carregou os Palancas Negras para estreia no CAN, na África do Sul em 96, é produto do 1º de Maio de Benguela. Foi um senhor jogador, infelizmente pouco dignificado. Tem no curriculum o facto de ter sido titular da Selecção de África, que defrontou e empatou a Europa de Jurgen Klisman. O golo do empate, apontado por Abedi Pele, nasceu dos seus pés. Quase já ninguém se lembra dele.

Ou não querem lembrar-se.Um clube dessa dimensão merece outro tratamento, dos seus dirigentes e dos adeptos. Não podemos, entretanto, evocar a responsabilidade dos dirigentes do 1º de Maio de Benguela, porque também o são os da FAF. órgão reitor da competição. Do qual se espera soluções. Porque se demora a encontrar um caminho. Não há condições para se avançar para uma liga? Que se encontre então um meio-termo. É hora de se profissionalizar a prova.

Se meios faltarem, que haja outro caminho. Ficar como está, não. Por que não se estabelecer nos estatutos da competição a obrigação dos clubes fazerem fé das suas capacidades no início da competição? Se não houver clubes suficientes, que se faça com os clubes possíveis, duas ou três voltas, que seja. Mas é necessário melhorar o rosto do Girabola, expurgar situações vergonhosas que conferem à competição uma identidade de amadora, pouco séria e outros adjectivos qualificativos nada bonitos.

É uma questão de vontade, de respeito da prova e de quem a faz acontecer. Se for um assunto varrido para o debaixo do tapete, não nos espantemos que haja falta de comparências, capazes de alterar o destino dos seus adversários, em particular os que lutam para o título e a permanência.

O Girabola, essa mesma prova, já registou a anedótica situação de uma equipa perder falta de comparência em sua própria casa, o que influenciou o desfecho do título. O clube foi punido disciplinarmente, e nada mais. Esse mesmo Girabola tem assistido mortes atrás de mortes, por negligência dos clubes, tem havido inquéritos e nada mais. Esse mesmo Girabola assiste outras situações absurdas, e da FAF nada. Não seria escândalo algum, se o 1º de Maio de Benguela desistisse, e for apenas e só disciplinarmente sancionado, como se isso resolvesse o problema. Enquanto for assim, Girabola será Girabola.
Teixeira Cândido

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