Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Quanto vale o nosso quilmetro/quadrado de desporto?

31 de Janeiro, 2019
Outro ano desportivo inicia sem promessas, nem expectativas, nem compromisso. Estamos apenas no início.
Enquanto olhas para os teus filhos, vês exactamente o mesmo que o Estado: a razão de ser. O natural prolongamento. A tua paternidade, e a o mesmo tempo, a tua descendência. Só vai depender da maneira de veres, do olhar que houver. E se cada olhar desses te revelar um progenitor, protector e mentor educador, estarás ou não atento às tuas responsabilidades.
Em Angola o tamanho da obra do desporto já se pode ver ao quilómetro/quadrado graças a várias aferições, mesmo sem GPS, foto aérea ou drones. Durante muito tempo, a nossa unidade de medida desportiva foi o Cazenga. Este município com mais de 700 mil crianças e jovens não tem ainda uma única infra-estrutura desportiva pública.
Mas essa medida não bem a nulidade, tanto quanto parecia ser a monstruosidade do nosso sistema desportivo, cada vez mais atrofiado, a perder pressupostos, um a seguir a outro.
Sem zeladores, nem fiscais, menos ainda, ideias, o nosso desporto lá tem sobrevivido, já que as suas raízes não pegam nos municípios, sendo possível que o tamanho da inactividade já se consiga medir por quilómetro/quadrado. Quem diz da inactividade, dirá dos ratios de quadros técnicos necessários para cuidar depois da actividade desportiva.
O desporto é necessário como o ar que se respira, sucedendo naturalmente tornar-se uma actividade da comunidade, inclusive que envolve os pais e as crianças. O menos usual é haver aquilo que mais temos, que são comunidades inactivas. Municípios inteiros, até.
Assim dito, o problema parece inicialmente de raiz cultural e interligado aos hábitos que se repetem diariamente, que passam de pais para filhos. Mas a nossa comunidade já não é assim porque as metrópoles e grandes cidades não deixam espaço, nem tempo para desporto. E frequentar o ginásio tornou-se coisa de gente com posses para pagar por isso.
Fazer-se desporto deixou de ser público e livre, para se tornar privado e negociado? A tendência parece ser , que sim, mas é ainda possível contornar isso, se for a próxima (ou já presente) tendência.
Atrás de uma plataforma cultural única a comunidade realiza o seu modo de vida social e é obrigação do Estado criar os pressupostos para haver isso. E enquanto actores reguladores da sociedade, através das suas administrações, os agentes do Estado deviam cuidar com o mesmo zelo dos assuntos juvenis e desportivos da sua comunidade, por exemplo, para que a educação e o desporto fossem uma actividade indispensável da criança.
Só um problema cultural pode explicar a placidez dos pais e encarregados de educação, perante esse facto que, nem já na mais remota aldeia africana da actualidade, teria explicação. Os campeões quenianos e etíopes provêm da montanha e populações campestres, não da cidade.
E mal vai o desporto que nem acontece numa comunidade. O que Angola tem estado a perder a olhos vistos em matéria de formação dos seus jovens, comparando com os países vizinhos, é tão volumoso em desenvolvimento juvenil, como em aproveitamento desportivo social.
Além de abandonarmos a prática social do desporto, tornamo-lo uma mercadoria, pois, hoje não se move uma palha para desporto, sem primeiro se perguntar, tal qual ‘sine qua non’, quanto dinheiro há para isso? E assim, até para aproveitar o se talento descoberto, o jovem ainda quer saber primeiro quanto lhe vão dar...
Se para jogar à bola, os putos só pedem pelado e bola de trapos, porque será que para os mais velhos organizarem essa energia natural e depois sistematizar esse hábito social, afugenta tanto, que nem os clubes queiram fazer com as camadas jovens!?
O desporto, por incrível que parece, tem visto morrer a iniciativa. Depois dos pais, a dos Administradores. Do Sr.‘Bairrismo’ e dos clubes de bairro. Do saber eclético e trilogia que ensinava Demóstenes de Almeida – mente, corpo e espírito. Cuidas de tudo e serás sensacional.
Mas já não se ensina isso nas escolas, nem há mentores nos bairros. Os meninos crescidos de hoje são filhos de pais que também já não haviam tido desporto nos próprios pés. De pais, para filhos, o meio também tem empobrecido e a escola volta a estar ausente, ali e quando devia ser o ‘norte’ da educação e formação das crianças.
Mesmo sem a escola, o clube numa comunidade é algo que só não acontece por falta de iniciativa; depois não chegarão até lá, os instrutores e monitores do treino. E estes não passam do asfalto e da capital de província porque a vida geral não arranca, as forças produtivas não têm poder de compra ou de iniciativa, logo a economia desses meios causa que nenhum instrutor, monitor, nem professor, queira ir para lá.
Será sempre pela perda desse tecido social que havia no desporto em Angola, que se desenvolveu inclusive no período da guerra civil, quando os militares eram a força activa do desenvolvimento desportivo, ao contrário de agora, em que há paz e uma sociedade amorfa.
Deixámos morrer hábitos sãos e que nos haviam moldado até há poucas gerações. Hoje os pais são diferentes e mais ausentes, e as atracções dos irmãos e compinchas do bairro são redondas, mas não bolas, daí o mau exemplo. Assim rodas e motos tornaram-se a obsessão da maioria dos adolescentes, roubando espaço ao desportivo no imaginário delas. E os educadores estão ausentes a maioria do tempo de crescimento da criança e adolescente.
Cá fora de casa, a sociedade passou de uma dimensão partidária, em que o partido era a preocupação máxima, para uma dimensão espírito-temporal, em que a Igreja voltou e reclamou assento na sociedade. Só as outras iniciativas sociais, nomeadamente juvenis, culturais e recreativas, parecem não ter ocasião, nem espaço nas vidas demasiado ocupadas, já também dos jovens.
A primeira ferramenta de que vamos precisar para consertar isso, chama-se motivação. Habitualmente esta relaciona-se bem com a vontade. Por outro lado, tudo o que não for feito de maneira reiterada, repetida, repetitiva, constante, não fará as pessoas ganhar o hábito. E os angolanos perderam de facto muitos e bons hábitos, que urge começar a recuperar para o bem social e comum. Servir é uma dessas virtudes que precisamos de reconquistar. Servir sem esperar em troca.
Uma comunidade pouco habituada a servir, uma administração que nem toca no assunto e nem aparece a falar aos concidadãos, e ainda por cima, uma escola que não nos prepara direito para a vida, a tal ponto que ali, o desporto deixou de ser visto como a melhor educação e formação juvenil.
E quem não olhar para o desporto como sendo, na actualidade, o mais expedito contribuinte para o progresso social, começando pelo emprego, então não está na sintonia.
Pode até faltar-nos a melhor moldura, mas a imagem de um sector onde se responda pelas políticas juvenis do Estado, não sendo uma delas ‘um desporto obrigatório’ vai deitar a perder o melhor engajamento natural da juventude, que é dirigida pelo mesmo sector que contém o desporto.
E quando assim suceda seria comum os pais e encarregados de educação, os professores e os munícipes, os jornalistas, sociólogos e psicólogos em primeira instância, intrigarem-se e eventualmente indagarem, alimentando uma reflexão que a sociedade tem estado a adiar.
O desporto sendo uma indignação geral e nacional, clama por maior atenção e rigor funcional. O que se espera dos partidos vencedores são soluções vencedoras. E estranha que o desporto sendo mobilizador como pode, pertença à secção dos descasos que se cometem no país, ao abrigo da falta de divisas. E pelas suas valências, forças, factores e emoções, o desporto merece uma correcta orientação e promoção.
Não seria difícil a um visitante do nosso espaço social aperceber-se que a primeira fraqueza do nosso desporto jovem é o facto de as próprias organizações juvenis partidárias estarem ausentes do fenómeno. Não usam o desporto como arma. Não chutam, eles mesmos, nem exploram a força social da bola. E sem ofensa, isso até um cego visitante pode ver aqui.
Que atracção faltará ao desporto para ser como a mulher que passa e para onde todos olham ao mesmo tempo? São factos mundanos como esse que nos devem despertar se pensar e agir mais religiosamente em relação ao desporto. Está tudo muito bem lá no texto constitucional. Mas tem de se passar do texto, à prática.
Será que ainda não nos apercebemos de que nos faltam também treinadores de bons hábitos? Reveja-se o ‘mote’ do nosso Dia nacional do desporto, celebrado no dia passado dia 23, e que ocasionou um fórum nacional sobre modelos de gestão e
manutenção de infra-estruturas juvenis e desportivas”, promovido pelo Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD).
Qual o peso da importância, qual o sentido de oportunidade desse tema de infras-estruturas juvenis e desportivas, quando comparado com o tema ‘o empobrecimento do desporto’? Pode ver e rever esse filme, que o enigma vai estar no facto de o número diminuto de praticantes ser a grande questão da gestão do parque imobiliário do sector.
Quantos atletas frequentam essas instalações geridas no público-privado? E a que preço se faz? Assim continuando a fazer-se desporto à míngua, a colossal infraestrutura desportiva de Angola não se vai manter um negócio comprometido, inclusive um negócio falido?
Consabido que o maior negócio e que mais falta nos faz, é criar população desportiva para meter nessas tais infra-estruturas juvenis, justificar-se-ia com maior primazia discutir no dia do desporto, a colocação em marcha do desporto na comunidade e no município, tendo como sub-tema a passagem da gestão da infraestrutura desportiva para ad administrações locais.
Cuidar mais do negócio, que do objecto do negócio, não será colocar a carroça à frente dos bois? Assim e no final das contas, qual será a alma deste negócio chamado juventude e desporto, na República de Angola?
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • 14 de Dezembro, 2019

    Dcimo lugar reflecte sentido do dever cumprido

    O décimo-quinto lugar conseguido na 24ª edição do Campeonato do Mundo disputado na cidade japonesa de Kumamoto, melhorando o 19º conquistado há dois anos, na Alemanha, constitui uma safra boa.

    Ler mais »

  • 14 de Dezembro, 2019

    Cartas dos Leitores

    Os nossos atletas estão a corresponder com aquilo que nós almejamos, tentar fazer sempre o nosso melhor, no sentido de disputarmos um campeonato tranquilo para que consigamos, também, na parte final do campeonato, termos essa tranquilidade e a permanência assegurada.

    Ler mais »

  • 14 de Dezembro, 2019

    Quem salva o ASA

    Campeão das edições do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão de 2002, 2003 e de 2004, respectivamente, o Atlético Sport Aviação (ASA), um clube cuja existência remonta desde o longínquo 1 de Abril de 1953, corre o risco de extinguir a sua equipa principal.

    Ler mais »

  • 12 de Dezembro, 2019

    Vale a pena continuar a acreditar nos nossos representantes?

    A caminho da terceira jornada, os dois representantes angolanos na fase de grupos de Liga do  Campeões Africanos, continuam a decepcionar. Na primeira jornada, os militares perderam dois preciosos pontos na recepção aos zambianos do Zesco United, enquanto os petrolíferos foram goleados por três bolas a zero em casa do Mamelodi Sundowns da África do Sul.

    Ler mais »

  • 12 de Dezembro, 2019

    Manter a esperana apesar do mau comeo

    Realizadas as duas primeiras jornadas da Liga dos Campeões Africanos, em que estão envolvidas, em representação de Angola, o Clube Desportivo 1º de Agosto e o Atlético Petróleos de Luanda, reservo-me ao direito de expressar o que penso sobre o desempenho das equipas angolanas, que considero ser deficitário não só em termos dos resultados, mas também da qualidade do futebol apresentado.

    Ler mais »

Ver todas »