Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

"Quatro anos sem pena"

11 de Agosto, 2018
Em duas ocasiões recentes Angola acaba de ver consagrado Demarte Pena em Top Angolano do desporto, enquanto no espaço de menos dum mês arrebatou os Prémios ‘Globo de Ouro’ e ‘Novo Jornal & Expansão’, referentes a 2017.
Em 16 de Dezembro desse ano, na África do Sul, quando enfrentava Irshaad Sayed, para o cinturão africano de pesos bantam da MMA/UFC, Demarte Pena rubricou uma vitória dominante tendo desferido vários socos poderosos e culminado num pontapé giratório à cabeça de Sayed, um oriundo da Nova Zelândia com percentagem de ADN asiático e nacionalidade também sul-africana.
Agora Demarte acaba de ser suspenso, com efeitos desde Julho último. Por quatro anos.
Segundo IOL Sport, o ex-campeão de pesos galo da EFC (extreme fight) está actualmente a cumprir uma proibição de quatro anos pelo uso de drogas para melhorar o desempenho. Além disso, ele não havia limpo completamente o seu nome quando fizera a defesa final do seu cinturão bantam, contra Irshaad Sayed, em dezembro do ano passado.
De acordo com um relatório do Tribunal de Arbitragem do Desporto (CAS), Demarte testou positivo por testosterona e sinais de uso de esteroide anabolizante, após a sua primeira luta contra o mesmo rival, em 11 de novembro de 2016, altura em que uma amostra de urina recolhida na África do Sul e analisada pelo Instituto De Desporto Sem Drogas (SAIDS) evidenciou uma contaminação nociva para o desporto que incriminava o laureado lutador angolano.
Ele foi provisoriamente banido, mas depois inocentado de dopagem intencional, em Maio de 2017, após a mesma SAIDS ter testado amostras de suplementos legais que Demarte Pena havia consumido, os quais revelaram estar contaminados com substâncias proibidas. Desse modo não foi julgado que Pena tivesse tido a intenção de se dopar.
Aparentemente limpo de todos os delitos, Pena enfrentaria Sayed novamente, em 16 de dezembro do ano passado, essa tal ocasião que lhe viria a valer os dois prémios recebidos recentemente em Luanda.
Na realidade, como mostrado no relatório do CAS, Pena ainda teve de repelir primeiro um apelo da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) contra a decisão da audiência de Demarte Pena pelo Painel de Doping Independente, por ter deixado o angolano apenas sujeito a uma reprimenda e liberdade para continuar a combater.
O presidente da EFC, Cairo Howarth, disse que a organização foi informada sobre o resultado da audiência de arbitragem e a proibição da Pena nas últimas 48 horas. \"O positivo é que a WADA e a SAIDS estão fazendo testes rigorosos em toda a EFC\", disse Howarth.
\"Demarte tem testado inúmeras vezes, assim como os nossos outros campeões”, comenta Cairo Howarth, Presidente da EFC, uma das organizações-padrão destas novas lutas para gladiadores de um futuro cada vez mais actual.
“Esperamos que cada vez menos pessoas no desporto vão utilizar produtos dopantes. É uma suspensão longa para Demarte. Isso é muito desanimador para as pessoas. Se há pessoas que não jogam de acordo com as regras, esperamos que isso desencoraje e tenhamos um desporto mais limpo e seguro. Não apenas no MMA, mas em todos os desportes em geral. \", sentenciou o senhor Cairo.
Se assim for, em breve surgirá a notícia pela qual Demarte Pena poderá renunciar ao título porque, afinal, não foi um gesto tão nobre depois de tudo isto; não são apenas os seus suplementos que foram contaminados, pode até ser que a sua reputação seja muito mais.
WADA não sossegara após aquela reprimenda, simplesmente, como sanção a Demarte; era como se ele quisesse forçosamente ver sangue e entrou com um recurso no CAS contra a decisão inicial, em Julho do ano passado, meses antes deste último combate. E depois da WADA fazer várias perguntas a Demarte Pena, sobre as amostras de suplemento que forneceu à SAIDS, para teste.
Sucedeu-se um prolongado processo de vai-e-vem para a escolha, primeiro, da data e local da audiência de arbitragem, e as evidências e testemunhos que seria permitido levar à arbitragem, sucederam-se nos meses antes e depois desta segunda e última luta entre Pena e Sayed.
Apenas quatro dias após a segunda luta, portanto, a 20 de dezembro passado, o CAS definiu a data da audiência para 15 de março deste ano e a localização como sendo Johanesburgo. A EFC anunciou a decisão de Pena de renunciar ao título de 2016 em 19 de fevereiro do ano passado. Nos dias que se seguiram, o seu advogado faria vários pedidos para ter a data da audiência adiada até meados de julho, a fim de realizar um \"estudo simulado\" com o objectivo de provar a inocência de Pena. Mas estes foram negados pelo árbitro único do caso.
“Agora eu sento-me e espero que a EFC faça a coisa certa. Restabeleça-me como campeão e deixe-me sair deste desporto em paz e dar continuidade à minha vida”, declarou Irshaad Sayed. O árbitro continuaria a favorecer a WADA e acabaria por proibir a Pena por quatro anos e declararia nulos todos os seus resultados competitivos contados a partir de 11 de novembro de 2016 (data da primeira luta).
Assim os títulos de Demarte Pena estão invalidados e terá que devolver os cinturões ganhos até Dezembro último.
O relatório CAS sobre a arbitragem também refere que a WADA acreditava que Pena havia sido responsável por doping intencional, e não conseguiu provar que havia acidentalmente ingerido substâncias proibidas.
“Eu forneci as amostras dos suplementos e aleguei que eles estavam todos selados, quando de facto dois dos três haviam sido abertos”, admitiu Demarte Pena, citado pela IOL Sports. O frasco selado foi testado como limpo, enquanto as garrafas abertas foram testadas como contaminadas.
A concentração da substância proibida nos suplementos contaminados não poderia ter produzido a concentração encontrada na amostra de Pena. E assim ele saiu derrotado desta vez.
Desse modo, que campeão e laureado temos? Após ter sido despojado dos cinturões e títulos, irá Demarte Pena perder também a reputação?
Curiosamente quem se lançou também a estas novas lutas combinadas foi a nossa antiga coqueluche do judo, Faia.
Após ter estado onde poucos de nós angolanos já chegou um dia no desporto, a outrora campeã africana de judo de pesos médios, Antónia de Fátima Soares Moreira, acabou de fazer uma opção inesperada e quiçá decisiva na sua vida, oxalá.
Ainda um dia hei-de saber, da Faia, se a atracção dela pela MMA/UFC foi fatal, mera curiosidade, ou económica. Pode, até, nem ser qualquer delas. A maioria dos lutadores radicais extremistas primeiro lutou ou boxe, kick-box, muai-thai, jiu-jitsu, etc., até evoluir (?) para lutas combinada, misturadas ou como quiserem definir melhor um dia, a federação EFC, que gere o campeonato de lutas unidas (UFC), da ‘modalidade’ nova ‘artes marciais combinadas’ (MMA).
Pena cresceu com um fogo interior justificado e não sei se parte do seu talento é inato ou adquirido por força das suas múltiplas vivências de passado. A Faia, sim, o judo valeu-lhe, e também as vivências olímpicas, as dos grandes meetings e campeonatos do mundo, bem como da alta academia especial de treinamento, que amiúde acudia, no Marrocos e em Marraquexe. Se da combinação destas histórias e vivências pudesse obter a soma, ou preferencialmente a multiplicação, eu diria que o judo e o taekwendo angolanos devem encorajar a luta ‘catch’ a ressurgir e o futuro a nós pertencer, se a admiração e prática dessas lutas se popularizar e as gerações do futuro, as das lutas combinadas ou lutas unidas, beberem desta seiva que temos, pelos vistos, mas que não entra em produção industrial e é pena.
É um regalo poder saber do primeiro mundo sem lá estar; mas, é uma viagem nostálgica quando fecho a página e caio em mim e no meu mundo real em Angola. Vem isto a propósito de um desses sítios na net falar repetidas vezes da influência decisiva que o judo brasileiro tem nas lutas combinadas. Pasmei-me e fiquei curioso, porém, maior curiosidade ainda devem ter os agentes desportivos e atletas angolanos que apreciam dar e levar uns socos, pois, se há algo que parece que estes novos gladiadores têm mais que os lutadores convencionais, é oportunidades para ganhar dinheiro.
Seja como for, eu acredito que as lutas desportivas são dos tais desportos que em Angola hão-de sobreviver, pois, são muito populares na orla norte de Angola; particularmente o ‘catch’, nossa réplica africana para a luta japonesa ‘tsumo’. Com talvez séculos de existência no Benin, Camarões, Congos, ou Senegal, para citar alguns países. A popularidade dessas lutas costuma estar muito associada à cultura tradicional e educação desportiva de combate dos jovens, representando uma base muito importante para a sua iniciação desportiva em modalidades olímpicas de luta corpo-a-corpo, como a luta greco-romana, luta-livre. Angola tinha um embrião de uma associação desportiva da luta catch, que pode voltar a ter ignição em certas regiões do nosso país onde se mantém essa tradição do ‘catch’, particularmente na província do Zaire.
A questão reverte também atenção para o estado do judo angolano, uma modalidade que gozava de expansão e parece hoje mais restringida por razões que se prendem com a falta de incentivo juvenil e a rarefação de jovens a praticar desporto federado nas modalidades que outrora eram um manancial de medalhas em Angola, como foram já um dia o boxe e o judo, cuja recessão se deve ao desincentivo em clubes tradicionais de desportos de luta como eram os Dínamos, Interclube e Primeiro de Agosto. Para um país com espectro militarizante como é Angola, estranha o desmaio dos desportos de luta, que em tempos foram uma motivação desportiva também entre os Exércitos Amigos, cujas competições deixámos de frequentar. Mas, para efeitos de preparação combativa, era esperado que os militares fossem os primeiros povoadores dos ginásios e tatamis espalhados pelo país, ou supostamente cá existentes ainda.
Hoje acredita-se que a maioria dos desportos de luta em Angola estejam muito empobrecidos quanto a técnicos dessas modalidades devidamente certificados para exercerem. Mais uma vez a questão remete-nos para as políticas de fomento desportivo que o país tem, ou devia já ter. No entanto, como tudo o que hoje representa no país um ponto de retorno, é preciso inverter a tendência de certos desportos morrerem entre nós por uma simples falta de atenção geral para com o fenómeno desportivo e a sua extinção massiva em Angola. E enquanto há avisos, restam esperanças. Arlindo Macedo

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