Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Que desporto doravante?

27 de Setembro, 2017
Após ter sido porta-bandeira nacional no alvor da nossa independência, irá o desporto angolano ressurgir doravante como uma expressão renovadamente distintiva dos pergaminhos de uma sociedade que se esforça pela reconstrução, ou irá o desporto permanecer na coutada em que se tornou, até, desprovida dos seus melhores fundamentos?
Não é própriamente um desafio para o executivo a empossar daqui a pouco, mas, sim, uma questão de estado, ou não. A partir do modelo organizativo desse departamento da sociedade e do país, que é o desporto, haverá a Norte uma ideia mais nítida do horizonte que se há-de atravessar?
De todas as etapas, desde a ascensão à queda do desporto na Angola independente, sem dúvida, foram os Anos 80 os do tempo da cereja posta no cimo do bolo, e foi graças a uma pleiade de quadros hoje inigualáveis e que então não estavam nos clubes, mas, sim, na estrutura directiva do desporto, que ao tempo era denominada de Secretaria de Estado da Educação Física e Desporto.
Com quadros capazes e um projecto mais levado nas suas mentes, do que um dogma posto em cima da mesa, foi fácil poder concretizar no papel os intentos e depois materializar aquela que há-de perdurar como a mais rica experiência desportiva angolana de sempre. Foi dali que advieram os primeiros troféus do nosso povo e país, ou ainda, foi dali que iniciou um ciclo a culminar, já num outro milénio, com a nossa chegada a um campeonato do mundo de futebol, esse, sim, a tal cereja.
O último destes ciclos, acabado de viver sob a regência e formato de um ministério fadado a juntar a juventude e o desporto, acabou por se tornar na ideia entortada e desvirtudada do ideal que antes nos havia desportivamente norteado. Assim, posso dizer que só temo que nesta república acabada de nascer se venha a repetir a fórmula falida e mais parecida com uma procura de acomodar mais uns quadros e militantes, do que fazer-lhes arregaçar mangas para poderem colocar o desporto sobre novos e melhores carris, ainda.
O último modelo, pesado, lento, até, por vezes mórbido, de tão cada vez mais ausente e longe do nervo motriz do desporto, foi o que tornou este dispendioso e transformou a ideia de um Ministério da Juventude e desporto numa mirage, ou então utopia, daquilo que os jovens eram esperados dar ao desporto. Agora e no debalde dessa expectativa é certo que a juventude esboçou novos estatutos e plataformas para os jovens, que chegaram a receber tricilos e ferramentas para forjar caminhos, mas era outra a esperança que então havia.
Assim e em conclusão, faltou fomento no ADN do extinto ministério. Mas, não se sabe se voltará a ter essa fusão desportivo-juvenil. Pelo que então se pudesse ter tido como crítica acérrima, é evidente hoje que faltava um projecto. No fim do ciclo do MINJUD, não houve um resultado que justificasse a verba vertida, ou seja o bom resultado do custo/benefício, porém, nunca antes se vira tantos dirigentes desportivos a passar a governar-se, mais do que a governarem e administrarem convenientemente o desporto e a juventude; foi assim que ambos se transformaram em uma amálgama de objectivos pessoais e colectivos à mistura, distrinçados em que se batia pessoalmente por esse emprego no desporto, ou mais acima ainda, por um assento nas instâncias politico-partidárias como repentinamente se tornou moda entre os jovens.
E essa moda, de facto, levantou a questão hoje apresentada como chave do problema do sector, onde se degrada o desporto sem que, inversamente, se revele a nova juventude. Ou triciclos e ferramentas não foram suficientes, nem bem administrados, ou ainda as casas da juventude não causaram o efeito renovador pretendido no escopo da sua criação, pelo que não se obteve uma acção integradora e geradora de cada vez mais formandos e postos de trabalho para os jovens no desporto.
Haverá, também, aqueles que não vissem num Ministério da Juventude e Desporto, uma simbiose, mas uma mera associação de factores sem a implícita expressão social e económica. E se assim foi, falhou a fusão e o projecto que pudesse estar ali subliminarmente.
Por outro lado, a expressão desses intentos não foi nacionalmente uniforme, acabando por se tonar mais visível em pontos geográficos estratégicos do país, como a capital e o litoral-sul, mas que não cintilaram o bastante. E no essencial foram apenas focos sem muita expressão, por exemplo, como uma via para nessas casas se implementar um ensino técnico, nem resultou dali suficiente expansão, também por exemplo, em regiões de maior densidade de população jovem identificada pela sua distância geográfica dos pólos universitários, e por isso dependente do emprego gerado por essas casas da juventude.
Em suma, se a fusão da juventude e do desporto, para o desporto, foi mais formal, do que essencial, esperemos ver doravante se o desporto terá um enquadramento mais programático, e se o nosso país é capaz de mostrar mais senso comum no desporto e mais efeitos benéficos para a juventude no geral.
Numa altura em que já se agitam os jovens que temem pelo rumor da extinção do instituto único de educação física do país - será? pensa-se nisso? – importa que o poder politíco consiga (re)ver no desporto o capital politico que ultimamente parece que desprezou. A hecatombe dos toténs desportivos nacionais é ilustrativa desse debacle.
E assim, após o descrédito que grassa o desporto da nossa república, será que alguém vira resgatar aquilo que foi perdido? Conseguiremos que os anais parem de se desmoronar?
A expectativa é grande, não tanto pelo forma governativa que terá o desporto, mas, pela receita curativa que o mesmo vai ter, se é que se partilha a ideia de derrocada que houve. Mais do que um aparato apenas, a próxima estrutura do desporto deverá conter um teor, em si, revolucionário. E não importará mais quem há-de ser o titular e seus sequazes, do que importará trazerem os mesmos um programa, e de preferência um projecto, para o seu acto de empossamento em breve.
Felizmente, sobram para Angola oportunidade de amostragem, mas uma coisa será aparecer nos jogos olímpicos por convites, e outra será conquistar nas compºetições do continente, o direito de participação associação ao arvorar da bandeira nacional de Angola. E neste momento a pedir redobrada nspiração, sublinha-se que foi até aqui costume apurarmo-nos por direito próprio e do que nos conferiam os nossos títulos de campeões e campeãs em África.
Agora, postos nos quintos dos infernos e metidos em cestas de abadas e cabazadas, para usar uma homofonia condizente com os resultados que estamos a conseguir, termo este que não corresponde mais a conquista, mas, sim, a resignação e que sugere que haja depressa uma intervenção, que não a divina, mas a da inteligência colectiva.
Se assim for e na sua esteira, precisa-se da revalorização política do desorto, não apenas como sendo um porta-estandarte embemático do país, mas como fruto da política de facto em prol da juventude, da cultura e da educação dos jovens angolanos, e não apenas na cidade, mas, também no campo. E só por isso, qualquer ideia contra o INEF será passível de se converter em perigoso atentado à base e integridade dos sistema desportivo nacional por minar a capacidade formativa do estado em material de desporto.
Infelizmente e por mais que as universidades abracem o ensino superior da motricidade, Angola precisa de ter na base da sua pirâmide muito mais que os candidatos a doutores, os treinadores do dia-a-dia.
No entanto, a próxima autoridade que tiver o desporto nacional, que pode ser simples se não for muito misturada, é preciso que seja funcional caso vejamos agregadas a cultura, a juventude e o desporto; e que haja programa, haja projecto, e se siga à risca alguma coisa científica, mais do que ilusionista. No dia em que a direcção nacional do desporto foi trocada pela direcção das políticas do desporto, começou o ilusionismo desportivo da nova era, pois nenhuma dessas políticas sobressaiu.
Assim é que tudo aquilo que havia sido herdado do saber e do modo de bem fazer o desporto em Angola, foi-se despregando aos poucos da prática quotidiana dos agentes desportivos, que são hoje mais parecidos com empresas, do que verdadeiros clubes. Porque os presidentes se parecem mais com empresários, e neste caso falidos, do que com desportistas e mobilizadores fomentadores capazes de produzir desporto.
Ainda em referência ao projecto e programa necessários, é importante definir-se uma política a seguir, pois, a via da profissionalização foi tão banalizada que em vez de exigência, profissionalismo se passou a confundir com mero emprego para se poder viver do desporto. Mesmo não se fazendo realmente desporto. É que o profissionalismo, antes ainda dos seus deveres e direitos, é uma actividade orientada para a excelência e esta traduzir-se-á sempre em resultados o mais vitoriosos possível, do que em um sustento apenas, dos seus executantes.
O desporto angolano já deu bastas provas de que foi melhor enquanto Amador, do que quando enveredou para um falso profissionalismo. Outrossim é ter-se a coragem de se declarar, então, o desporto como um mero entretenimento nacional, que admite toda a sorte de dislates – por exemplo, continuar-se a dar dinheiro a uma actividade ruinosa – e também de disparates – como seja, os candidatos prometerem aquilo que depois não cumprem após chegados a presidentes dos clubes, associações e federações. Salvo rara excepção.
O novo presidente do país e do governo de Angola é esperado ter a determinação e autoridade que o caracterizava em jovem e director político das forças armadas revolucionárias, ou mesmo como secretário-geral do partido maioritário, pois o desporto angolano carece agora de uma revolução.
E o desporto angolano, a dar benefícios, vai poder gerar mais emprego do que aquele que conseguiu o último Ministério da Juventude e Desporto. É que se não houver uma acção de fomente, qualquer dia só haverá clubes viáveis na capital de um país com pelo menos dezoito cidades e províncias.
A feira de vaidades do ‘Girabola’ não pode ser o único contentamento nacional, para mais quando nem em futebol damos mais um ar da nossa graça. Os políticos são, sim, bem vindos ao desporto pela sua capacidade de articular ideias políticas para o desporto, criar um projecto e programa de acção, mas, a ocupação pura e simples de cadeiras é um dilema que urge não realimentar, ou daqui a pouco nem as ‘welwitschias’ e ‘pérolas’ hão-de sobrar incólumes à capacidade auto-destrutiva que se instalou no desporto em Angola.
O amadorismo, já disse, foi a melhor expressão que o movimento desportivo nacional teve em 40 anos de país. Actualmente os números não cessam de cair, seja o de praticantes, seja o dos rendimentos. E a bancarrota no desporto não pode ser escondida ou disfarçada por muito mais tempo. Se a nova palavra de ordem for mesmo ‘corrigir o que esitver mal e melhorar o que estiver bem’, então o que está mal é o desporto deixar de ser arma de combate para ficar na arte de dar a alguns como sobreviver; e melhorar o que está bem será apoiar a ideia de que, mesmo a contar-se pelos dedos das duas mãos, existem em certos clubes e federações os elementos certos para virar do avesso a tendência actual. Gente capaz de ensinar aos desportistas como se disciplina uma tropa em calções e sapatilhas, e se limpa essa arma de combate que é o desporto.
Se não despirmos o desporto dos males e enfermos que o contaminam, é a própria juventude que estará a ver nos maus exemplos actuais do desporto, uma luz no fundo do túnel para as suas pretensões de vencerem singularmente e a todo o custo, copiando e repetindo os modelos de oportunismo, infidelidade e toda a sorte de vícios que grassam actualmente sob a capa de uma actividade lúdica e recreativa para a sociedade angolana.
Haja coragem, aquela mesma que nos foi prometida para corrigir o que está mal, e que o desporto tem de sobra. Como, aliás, os resultados se acumulam cada vez mais a confirmar que, sim.
ARLINDO MACEDO

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