Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por ARLINDO MACEDO

Querer fazer-se desporto sem mentalidade desportiva

07 de Março, 2019
Com Março chega muita coisa: o pico do calor, os primeiros dinheiros do ano e o fimque se aproxima do primeiro trimestre. O calor é a nossa praça de sempre, os atrasos com dinheiros já nos caracterizam e o fim do primeiro quarto do ano é que me assusta.
Se apesar da redução dos orçamentos, em 24,08 por cento para o futebol, e em 05,26 por cento para o andebol e o basquetebol igualmente, ainda nos atrasamos adisponibilizar parte disso para as primeiras impressões com a época desportiva, só o andebol se salva do suor frio porque o mundial masculino, um mês após o africano, são um alívio de tesouraria para a federação, cujas seniores femininas terão o clímax da sua época no mundial de Dezembro próximo apenas.
Assim e perante este ultimato financeiro dos cofres do Estado, ao desporto, acredita-se que a última reunião entre o ministério e os agentes desportivos começou já a fazer ver de que a penúria financeira vai restringir despesas fúteis com modalidades e competições que não representem significativamente uma razão para despesa. Não se vai poupar muito, apenas alguma coisa, pois as modalidades vão continuar de portas abertas e a dar significativa despesa com pessoal e meios de funcionamento.
Ainda assim, este vai ser mais um ano sem significativos avanços a nível da expansão do tecido desportivo nacional, a creditando-se que daqui mais 3 trimestres veremos um ano mais passar, que nos deixará desportivamente ainda mais pobres. Enquanto o desporto não crescer fora do círculo habitual de emblemas da capital e mais meiadúzia de cidades, cortes drásticos podem representar poupança e ao mesmo tempo mais mortandade desportiva.
O país precisa de muitos e mais clubes desportivos, pois, se não for por adoração à religião e ao Estado, ou a um partido, o pequeno e jovem cidadão precisa de causas comuns para abraçar, consolidar amizades e haver uma aliança intrínseca das comunidades, fazendo disso, bairrismo. Quem diz clubes novos, dirá grupos desportivos e recreativos ou culturais, em que a comunidade se veja representada.
Passados dois anos e sem os pressupostos para efectivamente poder-se massificar o desporto, ainda que fosse apenas nas escolas ou em círculos escolares, pois não há monitores para tal, nem meios ainda. E uma força cultural como um clube jovem seria uma boa alimentação espiritual quotidiana para as crianças e jovens nos municípios, pois não há outra idade para viver correndo atrás de bolas.
O nosso país torna-se a cada ano um atraso de vida desportivo, que não carece de lupa para se ver, sentir ou perceber, porém e enquanto houver uns jogos de futebol ou basquetebol principalmente, parece que vai tudo bem. Mas se não se mexer na lei de base e simplificar o nascimento de clubes e grupos desportivos como cogumelos, e ainda por cima houver um corte orçamental à vida desportiva no geral, então não restem dúvidas de que, mais do que nunca, o desporto vá tardar a chegar à juventude de demasiados municípios angolanos.
E isso é um atraso de vida inequivocamente. O desporto é um processo evolutivo e que requer etapas sem saltos, mas cada ano que se atrase o passo há-de representar um processo mais adiado ainda, um arranque mais tardio que nunca e uma safra mais parecida com um enorme desperdício humano, porque as capacidades motoras também se devem educar de pequenino. Com 17 anos vale mais ir à tropa e aprender uma profissão, do que tentar ainda chegar a craque num desporto qualquer.
Entretanto, há uma ponta de satisfação em ver que finalmente o MINJUD fala em dar a quem produz e começar a não dar tanto a quem mal se faz notar. Muitas federações actualmente constituídas têm uma existência mais parecida com uma comissão instaladora, sem sequer dez novos atletas federados por ano, mas que constituem um centro de custo, nada pequeno por sinal, e que retira a outros desportos mais exuberantes no país, somas importantes para aqueles que trazem de facto ao país algum crescimento desportivo.
O Governo reduz este ano a despesa com o desporto, embora não se saiba quanto daquele valor cabimentado ao MINJUD vai ser para a juventude, porém, cingindo-nos a factos e descartando comparações, é flagrante que o desporto não terá 30 por cento do bolo da Juventude e Desporto, confirmando-se que a vocação do ministério é mais para gerir conselhos da juventude e seus programas de financiamento, do que para gerir e criar desporto.
Balanceando a sua ala do sector durante o fima do ano passado, a Secretária de Estado da Juventude lamentava o crédito mal parado de mais de 330 milhões investidos em projectos jovens, por azar nenhum deles desportivo, pois se o crédito ficou mal parado é porque o dinheiro não surtiu o efeito esperado, daí eu interrogar-me se, em 2019, a linha de crédito de apoio ao empreendedor jovem (PROJOVEM) há de ser novamente a farra do ano passado, ou algo que possa orgulhar realmente o jovem empreendedorismo angolense.
A diferença de resultados entre a juventude e o desporto é que no desporto veem-se os resultados, mesmo quando são maus, enquanto as notícias já nos confirmaram quenão veremos os resultados dos seus projectos, pelo menos do ano passado. E agora como será? Haverá novamente 200 mil dólares para cada promessa de empreendedor jovem, mas nem sequer um décimo disso, ou sejam 20 mil dólares, para se abrir um clube jovem de voleibol no Namibe?
Claro está, o nosso desporto anda cada vez mais limitado a verbas, e cada vez menos ao voluntariado. Falando o ano passado à juventude de Malanje, a Ministra, Ana Paula do Sacramento, afirmou que o MINJUD aposta na ocupação dos jovens através do desporto.
Com o objectivo de se reduzir as acções pouco abonatórias praticadas por jovens e adolescentes, o Ministério da Juventude e Desportos pretende implementar em Malanje um projecto de inclusão da juventude em actividades desportivas, evitando que se mantenham na ociosidade. “Para tal, foram capacitados dezenas de jovens voluntários para sensibilizarem outros para a necessidade de se enquadrarem em tarefas úteis”, informou a Ministra da Juventude e Desportos, depois de visitar projectos do seu sector nos municípios de Malanje e Cacuso.
A Ministra sublinhou que “a medida tenciona pôr termo a contornos alarmantes de fenómenos de gravidez e casamento precoces entre os jovens, bem assim como doenças sexualmente transmissíveis, que a juventude tem ganho e que comprometem a sociedade e o futuro da juventude”. Em Cacuso, o Centro de Formação Técnico-profissional “Projecto Desportivo Palanca Negra” caminha a um ritmo normal e dá garantias da possibilidade de se desenvolver o desporto na província, apesar das dificuldades financeiras que o país atravessa, tal como reconheceu Ana Paula do Sacramento. Já em Malanje, a Ministra visitou os empreendimentos ligados à juventude, nomeadamente o “Con-Jovem”, o “Complexo Desportivo do Quéssua” e a “Piscina Municipal”, onde reconheceu que a província de Malanje continua a trabalhar para a massificação do desporto, não obstante os condicionalismos.
Ora, parece que Malanje é um oásis no nosso deserto de crescimento desportivo, porém, embora seja através deste processo que o desporto se poderá revitalizar, a verdade é que o MINJUD deve ir empurrar projectos noutras províncias, pois, é acentuado o desequilíbrio desportivo entre o Norte e o Sul de Angola, ou se preferirmos, a norte e a sul da linha do caminho de ferro de Benguela.
Esse caso despoleta ainda a curiosidade em saber se a juventude e as estruturas do Estado noutras províncias do País não logram mobilizar também as lideranças jovens locais para desencadear projectos que dêem vida desportiva às suas gentes e terras?
O país tem dois níveis de desporto: o desporto de competição e o desporto de recreação. De entre ambos, importa realçar a importância do desporto de recreação como factor importante na formação física e cultural dos mais jovens, que não tem de ficar dependente dos emblemas clássicos, mas de novos emblemas ou agrupamentos juvenis virados para o desporto, a serem massivamente criados e a proliferarem.
Quanto ao desporto de competição, vulgo federado, importa que seja redimensionado em Angola quem realmente faz desporto de rendimento e merece mais meios para isso, e quem tem modalidades olímpicas de facto, mas inertes ou com fraca expressão.
Assim haverá 3 frentes absolutamente distintas e que não se devem comprometer entre si, mas será precisa primeiro a vontade política em querer sair da mesmice e da doentia repetição de erros de concepção no passado, que só nos dignificaria aceitar e corrigir.
De outra forma, o ano de 2019 será mais um para esquecer, na já longa trajectória dedescaso e indiferença nacional para com o estado da coisas, desgraçado, do desporto.

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