Jornal dos Desportos

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Opinio

Repr os valores do desporto

31 de Maio, 2017
O nosso desporto ainda cheira mal. Mais alguma carne putrefacta deve ser removida dos esconderijos predilectos dos predadores e de outros agentes de corrosão do desporto Angolano. Isso é pesado, mas tem que ser dito e repetido, pois é já longa a marcha pela reposição dos valores morais e éticos do desporto que nos eram característicos e próprios.

Hoje eu quero fazer uma cruzada pela limpeza desportiva e pela valorização dos nossos técnicos. Momentos houve de virada na génese do desporto Angolano de rendimento que importa preservar, agora que falo de valores. Quando em 1988, no rescaldo da refrega de maior eco no desporto Angolano, uma tripla de teimosos saudáveis que discutiam e replicavam o basquetebol como muito poucos, ficaram sem mais onde se esconder e forçados a enfrentar-se no esgrimir das suas ideias, emergiu ‘vencedor’ Victorino Cunha da área técnica do basquetebol, tendo Mário Palma abandonado a selecção e partido, acabando por ser Wlademiro Romero o escolhido.

Aquele havia sido o ‘big bang’ do nosso desporto na sua era pós-colonial. Assim o então seleccionador de Sub-19 – o escalão fenomenal para mim - Wlademiro Romero levou junto alguns daqueles ‘seus’ júniores, com realce para Ângelo Victoriano e Manuel de Sousa ‘Necas’.
A escolha tinha estofo em uma ‘lei’ do basquetebol ‘cá em casa’ que criava a dupla-categoria júnior-sénior nos clubes e assim permitia que fossem juniores os 10º, 11º e 12º jogadores da selecção sénior.

Do Cairo, ‘Lulú’ Romero regressou vice-campeão Africano. Havia sido rompida uma barreira história e anunciada a chegada da hora e vez de Angola. A partir dali era curial as selecções seniores levarem dois a três atletas ‘aspirantes’ e eles deram todos em belos jogadores de que ainda hoje vive a nossa selecção principal.

Passados 30 anos, os episódios repetem-se e eis que a nova direcção da federação de basquetebol, FAB, tem completo o trabalho de casa nas selecções. E deste modo Raúl Duarte, sucede a Nuno Teixeira, como director técnico. Para surpresa geral – e sinal de que chegara a hora do Basquetebol angolano – o ‘Lulu’ Romero chegou lá e ficou com a prata, a primeira do palmarés de Angola em seniores.

Na então Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, SEEFD, o professor Victorino Cunha, que havia acabado de ultrapassar uma direcção técnica dificultada pelo alter-ego de Mário Palma, graças aos meio-louros trazidos do Cairo pelo novo seleccionador, Wlademiro Romero.

Resta agora prosseguir o saneamento na área em que o jogo mais precisa, a seguir: a arbitragem. Sobretudo na óptica de um próximo emprego, para antigos jogadores sem capacidade competitiva e com alguma formação e preparação, mas que sejam jovens para possuir larga margem de projecção.

Alguém já me definiu como ‘ndragueda’ o momento que se vive na arbitragem da bola ao cesto, caracterizado por um fenómeno transversal na sociedade, por exemplo no futebol mais que em qualquer outro meio desportivo, e que se refere à arbitragem. E o termo siciliano ‘ndragueda’ significa a panela donde todos comem e calam. Até o presidente da associação de árbitros pode andar lá metido.

E a recondução de Manuel Silva ‘Gi’ no comando da selecção senior masculina de basquetebol foi a machadada final em um concerto a favor da nova ordem das coisas do basquetebol, na era do novo presidente, Hélder ‘Maneda’. E assim ‘Gi’ vai estar coadjuvado por dois antigos internacionais, importantes no balneário e também na orientação técnica e no treino, sendo eles Miguel Lutonda e Benjamim ’Avô’.

Aparentemente dois nomes ficaram eclipsados, sendo eles o ‘primogénito’ na contenda para o comando dos seniores, Carlos Dinis, e o jubilado director técnico, Nuno Teixeira, substituído por Raúl Duarte, que vai acumular com a selecção principal em um projecto de basquetebol, que é a dos Sub-19. Entretanto, o sector feminino reuniu Jaime Covilhã e Gualberto Paquete no comando, entre outros nomes recentemente empossados na área técnica.

O candidatos principal a seleccionador sénior masculino, Carlos Dinis, quis avançar com o antigo seleccionador, Carlos Alberto ‘Ginguba’, desiderato que viu liminarmente ‘chumbado’ pela indisponibilidade da federação abrir mão de ‘Gi’, pelo que ou seria Dinis e ‘Gi’, ou então ‘Gi’ mais alguém. Apesar disto, tanto Dinis como ‘Ginguba’ terão sempre voz nos assuntos do basquetebol por intermédio da associação de treinadores que mantém estreita relação com a FAB na área técnica.

O primeiro grande impacto que as novas medidas podem alcançar é a re-caracterização do basquetebol Angolano. As sucessivas passagens de treinadores estrangeiros, como foram Luís Magalhães, Michel Gomezt, Moncho Gonzalez, foram sempre de um aprimoramento táctico mergulhado no irrealismo e evidências contrariadas do nosso estilo de jogo e modo de jogar.

Mas agora poderemos recuperar isto. Voltar aos nossos fundamentos. Forjar lançadores de 3 pontos, que ficámos sem. O assunto merece desenvolvimento e não me importarei de voltar a ele. Agora gostaria de concluir sobre os momentos de viragem nos destinos de dois importantes desportos da nossa cultura, o basquetebol e o futebol.

Havia falado de duas viragens históricas, quais ‘momentum’ e marcos em duas das principais modalidades desportivas do país, o basquetebol e o futebol. No futebol Angolano houve uma virada sensacional no dia em que o malogrado seleccionador, Carlos Alhinho, inscreveu Angola em Toulon. A partir dali tudo mudou, mas por pouco tem, pois Angola foi deixada de convidar. Os organizadores franceses temiam que os Angolanos fossem gatos. O nosso futebol havia chegado à nossa geração campeã do CAN Júnior de 2001, que não chegou sequer cinco anos depois, ao Mundial na Alemanha.

Toulon é ainda hoje a Mecca do futebol jovem mundial. O torneio começou em 1967 e a segunda edição demorou, até 1974. A cada ano dá um ‘craque’ para o mercado. Entre os jogadores até aqui eleitos MVP no torneio estão Zinédine Zidane, Alan
Anualmente competem no evento francês algumas das melhores selecções do mundo de Esperanças, ou de Sub-20, e Angola regressa assim pela porta grande, quase 30 anos depois. A prova tem estado a decorrer desde 19 de Maio e até 3 de Junho.

Era tudo o que nos falta em termos estratégicos relativos à competição. Algo assim como a festa do chefe quanto todos querem lá estar, tal é a importância do torneio jovem de Toulon, para as forças emergentes do futuro. Ao que apurei tratou-se de um plano gerido discretamente entre o novo presidente da FAF, Artur Silva, o seu vice para as selecções, Adão Costa.

Para além de uma substancial credibilização do nosso Futebol que a nossa reintegração traduz, também se pode começar a sonhar como deve ser no negócio dos direitos, com os olhos bem abertos e os pés assentes no chão, pois, Toulon vai virar a melhor montra para o nosso talento jovem, uma vez que chega pela televisão a todo o mundo, e não vai depender dos ‘olheiros’.

Toulon suscita que os clubes também se interessem, pois são eles que formam os atletas, ou deviam. No interesse de organização do clube e do marketing do futebol, algumas medidas de natureza coloquial devem promover a abordagem franca e entusiasta do tema nas vertentes técnica, jurídica, entre outras que visem preparar os agentes desportivos para uma nova ordem das coisas. Por exemplo, os pais vão precisar de ser aconselhados, as garantias dos talentos redigidas, os cenários de emigração analisados, para que nunca haja estranheza em eventuais abordagens futuras sobre os talentos, nem total desconhecimento do que não se deve fazer no decurso desses processos inerentes e que alguém pode comete a impudência de assinar.

Este ano, em Toulon, Angola e a Côte d’Ivoire estão a competir com o Brasil, Escócia, França, Inglaterra, Japão, ente outras, e deseja-se que a regularidade seja uma constante para que a selecção cresça duas vezes ao ano, se em Dezembro assegurarmos as nossas presenças nos torneios de jovens da COSAFA.

O paraíso abrira apenas duas vezes as portas, para Angola; quando as idades começaram a parecer viciadas no futebol jovem em Angola e os ecos chegaram lá fora, partindo algumas vezes de Portugal, os Franceses deixaram de nos convidar. Esse foi um período negro no nosso ‘association’ pela forma como comprometia o nosso desenvolvimento, que se viu deveras afectado, porém desencadeou entre nós algum combate às idades forjadas e ainda está longe de ter terminado. E relativamente à verdade desportiva esse é o par de outro ‘cavalo de Tróia’ do futebol, a arbitragem.
Arlindo Macedo

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