Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Requim hora da chegada

06 de Setembro, 2018
O país desportivo vai contra-a-mão. A ‘polícia’ pode não dizer nada, mas os peões da situação, que são os adeptos do desporto, e particularmente os contribuintes, reais pagantes do desporto que se faz e que vemos, por isso, sendo algo que sai do nosso bolso, daqueles que contribuem para o Estado, é um direito reivindicar-se que se faça futuramente uma organização e projecto diferentes disto a que nada chegámos, salvo um ou outra excepção, que confirmam por isso a regra ou princípio de Peter, segundo o qual cada um tem o seu limite de capacidades, e a necessidade da especialidade na obra de se melhorar o que estiver mal.
Não devemos ser peões nessa circulação da bola, meros espectadores da desvirtuação, desorganização, desestruturação; sim, da sua desparasitação, ou se faltar forças para tanto, então, uma desratização, primeiro. O desporto deve representar para nós, na actualidade, mais que uma zona de conforto para alguns poucos que sufocam os outros muitos, aferindo-se a sua obra pelo mau estado, cada vez mais, em que nos estão a deixar o desporto. Assim, de que legado se poderá falar e o que se deixará para as vindouras gerações?
Devemos evitar mais comparações a crimes de lesa-pátria. O Presidente de todos os Angolanos, general João Lourenço, deve-nos isso; moralizar que em Angola se vai mesmo corrigir o que está mal.
À sua maneira apaixonada pelo desporto e mantida em vinha de alhos quase todo o mandato de vida política, “Zédu”, até uma mini-quadra de basquetebol construiu no quintal e deixa-nos um legado desportivo inexoravelmente ligado à maioria dos nossos êxitos desportivos, pelo seu entusiasmo e empenho pessoal quando pudesse, tendo-nos ajudado a ganhar tudo o que o basquetebol e andebol ganharam, graças às excelentes bases que permitiu que para tal se criassem, incluindo novas e modernas infraestruturas, contemplando igualmente o futebol e hóquei-em-patins, outras modalidades em que Angola já se agigantou um dia, como foi quando o Governo acreditou – e até hoje não sei se foi porque precisava disso politicamente na altura – que chegámos ao primeiro mundial FIFA da nossa história, na Alemanha em 2006.
E as infra-estruturas que haviam sido construídas de raiz para podermos receber África em nossa casa nas melhores condições, hoje, nem “Os Palancas Negras” as podem utilizar, no “Onze de Novembro” que nos proporcionou organizar o único CAN sénior da nossa história quase cinquentenária. Assim contado, resta comentar “ao que chegámos, com as tais parcerias público-privadas e tarifas incomportáveis para atletas e selecções nacionais, pelo que tais parcerias resultam contra-producentes para o desporto nacional emais se assemelham a (quase ou de facto) uma alienação do património público-desportivo. Ponto e vírgula. E o caso do Hotel Palanca é outro. Ponto parágrafo.
Não seria responsável assistir-se calado ao desmoronar de um tempo que desistimos de continuar a construir, nem se preservar como estávamos no desporto. E isto apenas sucede porque o desporto angolano não tem um estatuto de visão, de missão e de projecto; e se tem, precisa ee nos dar a conhecer. E permita-se o comentário de que, na actualidade, o desporto nacional mais se assemelha a uma paródia com duodécimos para os agentes desportivos se “virarem nos 30”, como costuma(va) brincar um programa de televisão muito visto por nós.
A passagem de testemunho em Angola ganha cada vez mais os contornos de uma firme decisão de o novo líder da nação levar-nos para caminhos moralmente mais consentâneos com uma existência de reconstrução, progresso e, um dia, desenvolvimento. Ainda não seremos tão desenvolvidos enquanto pactuarmos com o empirismo e marginalizarmos a especialização; falando de desporto, não estamos a dar hoje mostras, na maioria, da especialização que haja, e é crescente o recurso até a atletas e treinadores estrangeiros contratados.
Perante tamanhas dificuldades em construir os garantes para o desporto de Angola, o que significa empreendermos obra por percursos desportivamente mais sãos, ao mesmo tempo que menos propiciados para a má governança da sua gestão, mormente através da gestão danosa, do peculato e de disparates feitos com uma autoridade mal exercida, chegou a hora da mudança ser completada, Presidente.
O desporto não é um sector marginado da economia nacional, nem um parque de diversões para se permitir que a falta de cientificidade se sobreponha ao conhecimento, academia e experiência. Se o país gasta o que gasta, deve gastar bem gasto. O desporto angolano gasta demais para andar no estado em que veio parar, através da indiferença. Mas, até onde irá parar e quando há-de-se parar com o estado anormal das coisas?
Mais que um imperativo, o novo líder da nação tem do exército de admiradores, na juventude, que é a maioria do povo angolano, a expectativa de estar a receber o Presidente da esperança do futuro de Angola. Os jovens têm essa admiração natural e é natural serem melhor atendido se tiverem emprego, e o desporto pode dar-lhes isso se for bem industriado. Estamos num Planeta onde o desporto, gerido modernamente como indústria, e os agentes desportivos, como empresas, fazem da competência um argumento para competir melhor. E isto é fácil de se entender, perceber e aceitar. Não nos iludamos mais, no desporto, se alguém ousar pensar em continuar bem, indo como vamos.
Até onde eu sei, Angola é um caso de total sorte, à parte. Se se perguntar ao FMI e ao Banco Mundial que chances económicas tem Angola de sobreviver sem o investimento estrangeiro, a exemplo de África em geral, há 3 sectores que eles sabem que nos podem ajudar, africanos, a mantermos o nariz acima do nível do mar de dificuldades em que andamos a nadar e por vezes já só a boiar.
Com efeito, graças às suas condições particulares, África tem como recursos naturais que são autênticas promessas verdadeiras, como sendo os maiores sectores de emprego disponíveis, e que são, nomeadamente, a agricultura e, atrelada a si, a agro-indústria e indústria alimentar; as energias limpas, que nos proporciona a natureza angolana graças aos rios, mar e ventos, além da bioenergia que o campo virá fornecer; e o entretenimento, sobretudo a indústria do entretenimento, que nos está no sangue e deve ser o mais rápido recurso natural para criar espectáculo e, através dele, dar-se emprego aos milhares na República de Angola.
Uma democracia responsável – precisamente porque ela pode e todos sabem que a maioria manda – deve prevenir actos de lesa-pátria, que são fáceis de se cometer no desporto, a partir do momento em que se desperdiçam gerações e talento desportivo que não se aproveita por falta de competências na formação desportiva, algo que no país era uma realidade, à época de independência nacional, e que no país pouco se soube preservar e continuar.
O edifício desportivo que Angola ergueu nos primórdios da sua independência foi obra de gerações de angolanos que brilhavam no ensino e mestria de educação física e iniciação desportiva, metodologia do desporto e desporto de rendimento. Isso ensinava-se a aprendia-se no INEF, em Luanda; era director, José Sardinha de Castro, mais tarde ministro angolano do desporto. O INEF era o alfobre dos técnicos desportivos nacionais e berços de alguns brilhantes formandos, treinadores que lançaram o desporto nacional e se distinguiram até chegar a selecionadores, responsáveis pelos primeiros êxitos desportivos.
Se os jovens angolanos voltarem a ter um ensino técnico desportivo de qualidade, no INEF, mais que nas universidades e a motricidade humana que se está a ensinar, é possível contar com a assessoria de antigos quadros e antigos formandos do INEF, para podermos vislumbrar nos futuros candidatos, os treinadores competentes que daqui a oito, dez anos, poderão aspirar a repetir proezas desportivas que Angola já teve, mas, tem-se desleixado para poder voltar a ter naturalmente, já que os bons processos deixaram de se repetir e os formadores foram perdendo qualidade.
Entre aqueles que escreveram o seu nome a ouro, no INEF, contam para a história do desporto angolano (por ordem alfabética), os nomes dos treinadores – alguns igualmente professores - Alberto “Beto” Portugal (basquetebol), Albino José da Conceição (andebol, natação), Alberto de Carvalho “Ginguba” (basquetebol), Álvaro Mabi de Almeida (futebol), André Kitongo (atletismo), Artur Casemiro Barros “Miro” (andebol, basquetebol, hóquei-em-patins), Bernabé Namalinge (basquetebol), Beto Ferreira (andebol), Eduardo Cândido “KingKong” (boxe), Franklin Gomes (boxe), Gonçalo Arsénio (futebol), Humberto Chaves (futebol), Jerónimo Neto “Jójó” (andebol), João Baltazar (atletismo), José Luís Rocha (voleibol), José Kilamba (futebol), Guilherme do Espírito Santo (andebol), Mário Palma (basquetebol), Mariano de Almeida (voleibol), Mário de Sousa Calado (futebol), Miguel Gourgel (ténis-de-mesa), Nelson Constantino do Vale “Xinguito” (futebol), Oliveira Gonçalves (futebol), Orlando Bonifácio “Gira” (atletismo), Palmira Barbosa (andebol), Pina de Almeida (andebol),
Joaquim Quinito (basquetebol), Sebastião Augusto “Tião” (futebol), o próprio Sardinha de Castro, Raúl Duarte (basquetebol), Victorino Cunha (basquetebol, metodologia), Vivaldo Francisco Eduardo (andebol), Wlademiro Romero (basquetebol), e, perdoem-me aqueles que eu tiver involuntariamente omitido.
As proezas destes antigos alunos do INEF fizeram o apogeu do desporto angolano, quando treinadores. E muitos deles, também professores dessas modalidades, no instituto, e são valências que, ao que parece, se perderam por ali. Daí a urgência da sua reabilitação na área dos recursos humanos e particularmente docentes.
No (des)caso desportivo do país, assistirmos calados ao modo menos bom como é despendido no desporto o dinheiro dos contribuintes, é um grito que amiúde é calado, mas que urge ser ouvido por todos.
O país arruinou-se desportivamente, como num terramoto de nacionais proporções, porque esta passagem de testemunho geracional, entre os dirigentes desportivos, tem sido a cada ano, uma desilusão. Sabia que não se faziam omeletas sem ovos, mas, também sei agora que não se repetem obras sem uma capacidade para tal. E o desporto angolano já foi obra. Obra de muitos como aqueles, que eu espero ainda estarem em vida quando o “País” se relembrar deles. Estou preocupado porque em termos de desportos estamos actualmente na pior rota e parece que também vamos pela pior direcção, principalmente depois de terem dito ao Presidente, pouco acertadamente, que íamos ter desporto escolar(!), pois, o que mais se aconselha enquanto não houver na Educação orçamento para tanto, é seguir a rota das comunidades e escolher a direcção da municipalização desportiva, para com ela aparecerem os viveiros naturais de jovens, na própria comunidade, para alimentar os clubes que hão de aparecer como cogumelos, se o associativismo desportivo for uma forma de fomentar a unidade das populações e comunidades, importantes elementos de uma construção nacional.
Os astros conjugam-se para fazer coincidir muitas coisas, a partir deste Setembro, e só queremos que seja o melhor para aquilo que podemos e que conseguirmos fazer. Havendo a vontade política e a liderança precisa, que mais do que o mando, é o exemplo, seremos de novo capazes e prósperos, em um tempo a menos de dez anos, mas urge recomeçar sem demora.
É sempre bom e providencial deixar um legado às gerações seguintes, mas é muito melhor quando os autores do legado são pessoas capazes, não jovens aventureiros e pouco alicerçados para liderar e construir. O dirigismo não é uma herança nem predestinação, mas, sim, um talento que se desenvolve com a formação que se adquire e o ambiente propiciável de que se estiver imbuído. É uma escola que leva tempo a voltar a erguer, mas, que se poderá preservar melhor no futuro. E assim, a sucessão geracional ser igualmente uma sucessão de valências e de competências. E assim voltar a haver academia, entre nós, no sector do desporto.
A reforma do sector da cultura e, em particular, da área do desporto recomenda-se sem adiamentos, em Angola. E assim, Presidente João Lourenço, seja bem-vindo à sua vez.
Arlindo Macedo

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