Jornal dos Desportos

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Opinio

Revirar o chip do nosso atletismo

22 de Fevereiro, 2020
Para a edição de hoje, o meu companheiro Sérgio Vieira Dias propõe que falemos de atletismo. Sim, atletismo. Não na sua plenitude obviamente, mas pelo menos no que ao seu ingente relançamento diz respeito e também do seu estado actual, dado que, nesta altura, há evolução de inúmeras provas, quer a nível das províncias, como nacional, com particular destaque para o campeonato de corta-mato, que irá decorrer na comuna da Palanca, município da Humpata, na Huíla.
Precisamente na Huíla. A Huíla que tem fortes tradições no atletismo nacional, principalmente nas especialidades de fundo e meio-fundo, onde sobressaíram grandes ícones. Estamos a falar, por exemplo, de João Baptista N’tyamba, um craque do futebol aquém se lhe notaram apetências para o atletismo e lá ficou, correndo o mundo e no mundo. Falo-vos igualmente de outros como Arnaldo Catchiunha, Pedro Dala, Capoco, Eugénio Catombi, João Carvalho, Augusto Diogo, Ana Isabel, Joaquim Chamane, Aurélio Dumbo, Rosa Tomás, Teresa Tchiculile, enfim uma gama de figuras que ajudaram a erguer, ao longo dos anos, a modalidade naquelas paragens que hoje, mesmo com as intempéries e as tais mudanças de paradigmas, continua a ser uma potência.
Uma potência que, na verdade, deve ser mais explorada, com apostas consentâneas e direccionadas. Veja-se, por exemplo, os projectos de estimulação de talentos da Jamba Sport e o de massificação do atletismo nas escolas dos 14 municípios da província da Huíla, denominado Okuhateka (que em português significa: Vamos correr), liderado pela consagrada Ana Isabel Elias. Há aqui grande manifestação de vontade de progredir. Criar valor acrescentado. Investir. Fazer surgir novos talentos que, no fundo, aqui e ali, infelizmente vão “morrendo” à nascença. Primeiro, por falta de incentivos. Depois, por falta de clubes para os sustentar (dada a pobreza destes) e, por último, sendo mais grave ainda, por falta de condições de treinamento. Infraestruturas. Pistas. Acessórios. Os tais quesitos para se estimular a prática de outras disciplinas dentro do atletismo. O salto a vara, o salto em altura, o salto em cumprimento, os arremessos, de peso e de dardo, enfim, um sem números de quesitos, que “roubam” a vontade dos jovens investirem o seu tempo e inteligência neste desporto, que pode conferir muitas glórias ao país.Além da Huíla, há o Huambo e outras paragens do País, como Luanda e Benguela, onde o atletismo tem sido encarado com bastante seriedade. No Huambo, por exemplo, depois da geração de Aurélio Mitty Handanga e outros, pouco ou nada se ouve.
Outros talentos anónimos andam, todavia, “escondidos”, talvez por falta daquelas condicionantes que acima apontamos. Na verdade, há que se fazer alguma coisa. As sucessões dos elencos federativos mais parecem uma corrida apenas e só em busca da organização da prestigiada corrida de fim de ano, denominada São Silvestre, onde a sustentação do Estado, em termos de apoio financeiro, se manifesta. Não pode! O atletismo é mais do que isso, meus senhores! Independentemente dos tempos ruins, no capitulo financeiro, pode-se fazer muito e mais. Vejam-se, por exemplo, os estádios de futebol construídos aquando da realização, por Angola, do Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2010, pura e simplesmente foram esquecidas as vertentes de outros desportos, como o atletismo. Ninguém se lembrou das pistas, das caixas, das plataformas, das barreiras, enfim. Isso é muito grave, meus senhores!
Um país potencialmente forte, nesta disciplina, a nível da África Austral, pelo seu extenso planalto, conjugado com a altitude em que, por força desta vertente, proporciona aos habitantes destas zonas mais capacidade no ponto de vista fisiológico, pois, quanto mais alto, maior é a capacidade de absorver oxigénio “puro”, dotando o organismo de qualidades “suis generis” no que à resistência física diz respeito.
E, os exemplo na nossa África são claros, apontando o Quénia, Etiópia e outros poucos, Angola é assim, uma raridade, particularmente as províncias da Huíla, Huambo, Bié, enfim, praticamente apenas essas, com um potencial que todavia não conseguimos explorar metade sequer, nem tão-pouco enxergar, o que se torna mais grave ainda.
Por isso, todo o movimento de realização das provas provinciais e nacionais é bem-vindo, não só na perspectiva de se cumprir os calendários das competições e outras realizações, mas, porque entendemos que, deve ser, isso sim, numa perspectiva maior. Fazer surgir verdadeiros campeões. Fundistas, velocistas, enfim, meio-fundistas… para termos estofo de discutir marcas em África, primeiro na nossa região, depois em outras paragens e, por conseguinte, estarmos aptos em discutir lugares, a nível de campeonatos africanos, mundiais e jogos Olímpicos, porque não!
Teremos para isso, de revirar o “chip”, rever tudo, reestruturar políticas inclusive e dar uma melhor caracterização deste desporto apaixonante, que se chama atletismo.
Cuidemos do nosso atletismo, em homenagem aos nossos gurus: Alfredo Melão, Barceló de Carvalho, João Ntyamba, António Andrade, Paim, João Teixeira, Bernardo Manuel, Joaquim Morais, Demósthenes de Almeida, Rui Clinton, Aurélio Mitty e outros, que souberam honrar esta modalidade que demonstra ter progressão tímida…
Morais Canãmua

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