Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Salvaguardar o futuro

26 de Maio, 2015
A semana passada, neste mesmo espaço, abordamos o tema “Aposta na Formação”. Hoje, para dar continuidade ao tema, propomo-nos tecer considerações sobre “Escolas de Futebol”. Aliás, são dois temas que estão interligados.

As escolas de futebol começam a crescer dentro da nossa sociedade, isso, devido a vários motivos e um deles é o interesse do empresariado, que tem como uma fonte de renda a formação de talentos, sempre na perspectiva de lucros.

Mas será que esses empresários ou ex-atletas estão preparados para desenvolver um processo pedagógico, bem elaborado no sentido de terem objectivos e finalidades que favoreçam o aluno, ou apenas estão a desenvolver um projecto social a pensar no dinheiro? Esse, é um ponto que merece séria reflexão.

Ainda sim, outros motivos geram dúvidas e levantam-se questões, pois a especialização precoce transpõe vários processos importantes da vida da criança e do adolescente, e é nessa fase que a criança absorve ênfase na sua formação. A formação é um aspecto fundamental para os clubes de futebol e não só, daí a importância que se deve dar a uma escola de futebol.

Todas as escolas têm um princípio pedagógico, um princípio muito importante é o do ensino e da aprendizagem que se adaptam à idade do praticante.

Também é preciso ter em conta a experiência que o aluno carrega consigo. Se não levarmos em conta esses valores vamos retardar esses processos.

No nosso país existem muitas escolas de futebol. Umas com excelentes condições, outras nem tanto. Vivem do improviso. Umas possuem estruturas outras nem tanto. Mas ter uma escola de futebol exige muito mais do que a boa vontade.

Para que os objectivos da criação de uma escola de futebol sejam alcançados é preciso deixar de lado a visão de descobrimento de talento e olhar para o praticante como um futuro cidadão autónomo e preparado para a realização de tarefas diárias.

Adaptar as brincadeiras infantis para o futebol é de extrema importância para o seu aprendizado. A convivência entre o técnico e o jovem não pode ser colocado em segundo plano, pois os alunos têm de ter alegrias na realização das actividades e em alguns momentos, o técnico tem de colocar-se na situação dos alunos, viver como eles e pensar como eles para ter melhor compreensão da sua linguagem.

Querendo ou não, o tema mexe comigo. Faz lembrar-me com alguma nostalgia a “Escola do da Rosa”, a primeira escola de futebol que surgiu depois do 11 de Novembro de 1975. Uma escola que forjou um campeão mundial, Gil Gomes, na altura mais conhecido por Rico.

Foi na minha escola, situada no antigo campo junto ao Supermercado Fernandes, na Samba, que Gil Gomes, campeão mundial de Sub-20 a envergar as cores da selecção de Portugal, começou a dar os primeiros pontapés na bola. Aliás, nem era avançado. Era guarda-redes. Fui eu que o tirei da baliza e o coloquei como extremo.

Uma escola que tinha como objectivo dar aos alunos (era professor nessa altura) e a outros miúdos outro momento de lazer. Quando abandonei o ensino e enveredei pelo jornalismo não tive opção senão fechar a “Escola do da Rosa”. Com o inicio do torneio Caçulinhas da Bola, organizado pela RNA, grande parte dos meus jogadores ingressaram nas equipas que disputaram o referido torneio. Rico o “Gil Gomes” jogou pela Pastelaria Universal.

Além de ser uma oportunidade, para os jovens mostrar o seu talento e melhorar de vida, as escolas de futebol são tidas como uma actividade que podem ajudar muitas crianças e jovens a manterem-se longe de algumas armadilhas que permeiam o mundo actual, como a violência, as drogas e outros males que enfermam a nossa sociedade.

Os atletas angolanos, num passado não muito distante, aprendiam a praticar o futebol nas ruas, bairros ou nos pelados espalhados por todo o país. Mas o futebol que tantos valores revelou nesses espaços, virou refém do desenvolvimento urbano, a cada dia mais está a ser praticado e desenvolvido no ambiente das escolas de futebol, na verdadeira acepção da palavra.

A experiência diz-me, que se as escolas de futebol espalhadas pelo país fossem assistidas financeira e pedagogicamente, podiam transformar-se num grande espaço para a formação de grandes atletas e/ou homens. Os clubes e personalidades que um dia pensarem em abrir uma Escola de Futebol tenham isso em mente. Esse é o meu apelo.
Até à próxima terça-feira.
POLICARPO DA ROSA

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