Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Santos de casa fazem milagres ou no?

21 de Dezembro, 2017
O esforço das tutelas ministeriais da Juventude e Desportos, da Educação, e agora também do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, para colocarem em marcha a caravana do desporto estudantil, tem estado a repetir um ‘dejà vu’, isto é, algo sem novidade.
Após profundas reflexões feitas no encontro do passado dia 15, as titulares dos sectores do Desporto e do Ensino Superior concluíram que ambos os órgãos devem trabalhar conjuntamente para regulamentar a prática da educação física e do desporto nas instituições de ensino superior, fruto das promessas de campanha do seu partido e respectivo governo.
O mesmo se poderá presumir do papel de ambas as Partes, quando a nova cúpula do MINJUD reuniu primeiro com a da Educação acerca do caso do desporto escolar.
A mim só se me acinzenta andar-se ainda em reflexões sobre ‘fábricas’ que já produziram no passado, mesmo que em condições deficitárias, porém, efectivas e cujo registo devia ser o ponto de re-arranque sem ser tão necessário recomeçar-se do zero, como parece. De fora parece posto de lado todo o saber e experiência acumulados no florescer desse mesmo desporto estudantil nos Anos 80 e 90 do passado século, mas ainda próximo.
Apesar de o desporto estudantil ser um ‘novo’ assunto de estado, após se concluir o disparate que fora erradicá-lo do sistema de ensino em Angola nas quase 3 últimas décadas, era esperado haver maior celeridade nos processos, que foram desencadeados em 2013 e desde então parecem estar a marinar.
Convenhamos, em 100 dias de novo governo, pouco se viu ainda do dinamismo que um MINJUD precisa, até por ter algo mais do que assuntos correntes, como seja a ‘agenda’ da nova equipa para os próximos três anos do ciclo olímpico em curso, depois que o primeiro ano, 2017, só parece ter servido para renovações de mandatos.
Ainda não vi o desporto federado, nos maus lençóis em que se continua a deitar, a merecer a abordagem séria e de urgência que é precisa, do mesmo modo que o assunto ‘jogos olímpicos’ ainda nem sequer entrou para a cozedura, numa altura em que as modalidades e atletas já deviam estar encarrilados e sem ficarmos à espera que o nosso andebol feminino lá chegue, como de hábito, mas ao contrário do nosso basquetebol masculino, que já era...
Poder-se-á dizer em uma primeira leitura e sem precipitações, que parece haver tudo menos urgência e foco aberto, dado o atraso na matéria e a que antes fiz referência. O desporto estudantil não é a menina dos olhos, mas apenas o processo de formação integrada da criança e dos jovens, de que o desporto andou divorciado na escola e universidade.
Era de esperar da parte de antigos desportistas de nomeada que foram elevados a novos dirigentes do desporto, uma celeridade que parece não haver ainda para todos os
segmentos dos assuntos do desporto, parecendo-me que os mesmos passaram a sentir com alma política as dores de parto do desporto.
O desporto federado e dos clubes e selecções tem estado entre o declínio de uns e o marasmo de outros, parecendo-me que além da reintrodução do contrato-programa para vincular estes agentes desportivos aos subsídios duodécimais, era preciso uma abordagem mais dinâmica e também mais apreensiva com o estado de coisas: assim e á excepção do andebol e do basquetebol jovem, o que mais esteve bem em 2017 desportivamente falando?
Se as práticas desportivas têm perdido, já os activos do desporto, como infraestruturas, parecem estar de vento em popa após o advento das parcerias público-privadas para gerir património e infra-estruturas, enquanto novos planos há de indivíduos se apoderarem de mais estruturas cobiçadas, como aquela que se estava a construir em Benguela para os jogos da nossa comunidade linguística e eventualmente da nossa própria sub-região.
Portanto, enquanto uns sofrem atrozmente para repetir proezas desportivas do passado, outros estão perto da proeza de se apoderarem de ganhos recentes do desporto, como a moderna infra-estrutura cada vez mais distante do horizonte de usufruto das massas, apesar de os investimentos terem sido sempre públicos e não de particulares.
Desta forma, património, infra-estruturas, fundo de desenvolvimento do desporto, formação e actualização de quadros técnicos, e mais que tudo a preparação atrasada da missão olímpica para Tóquio’2020 e o resgate do desporto federado a nível das chamadas modalidades colectivas e individuais de ponta, parecem temas adiados para 2018, concentrados que ficaram no desporto estudantil ainda sem pernas para andar direito no ano que está prestes a começar.
Cada vez mais dependentes de reforços estrangeiros – excepção seja feita ao andebol – e já não só técnicos, como também atletas, acho que temos tudo menos razão para sorrir diante de uma quase hecatombe desportiva resultante do prolongado descaso que o MINJUD vem fazendo do estado da formação desportiva de jovens e de treinadores.
Os nossos clubes e o nosso desporto só devem cair uma vez e depressa ser erguidos, tomando-se medidas que seriam mais enérgicas se houvesse o fiscal que era o director nacional dos desportos, esse posto desaparecido e que afastou ainda mais o ministério do desporto real e factual do dia-a-dia. Mas no caso de Angola optou-se por agravar o empobrecimento ao optar por suprir todas as dificuldades com estrangeiros; primeiramente só treinadores e já comummente agora, também atletas.
E deixar de produzir é o pior que se pode ver de um país. A recessão não pode e nem deve ser justificação para deixar adoecer - e nalguns casos morrer - o nosso sistema desportivo.
A monitorização do incumprimento de normas e regulamentos que teriam garantido uma vida desportiva normal e crescimento – afinal nem tudo se resume a dinheiro, mas primordialmente a formação e competência – é um mal que grassa e que parece não estar a incomodar suficientemente os novos inquilinos do MINJUD, afoitos a querer reinventar o papel do desporto estudantil no nosso sistema desportivo.
Mas é bom verificar que pelo menos estão a pretender ’’orientar as instituições de ensino superior para promoverem a educação física e o desporto nas suas instituições, (...) para a reserva de espaços que possibilitem a construção de infra-estruturas desportivas (dando cumprimento ao disposto no nº 2 do artigo 34 da Lei do Desporto)’’, apesar de isso ser óbvio, inquestionável e por demais rotineiro.
Já ao ministério da Juventude e Desportos, prossegue a última acta, ’’cabe a responsabilidade de apoiar metodologicamente, monitorar e colaborar na formação especializada complementar, de curta duração, dos agentes desportivos envolvidos nas actividades do desporto universitário nomeadamente os professores de educação física, treinadores, árbitros e dirigentes’’.
Embora sem acesso à acta presumivelmente semelhante do encontro antes tido entre o MINUUD e a Educação, acerca do desporto escolar, admito eu que o espírito e incumbência do MINJUD seja igual. Simplesmente, é à Educação que deve caber prover de condições o alfobre de formadores que é o INEF mediante a sua reabilitação ‘moral e competente’ daquilo que foi – e que deixou de ser - o INEF. Você sabia que nos Anos 80 e 90, inclusive depois e para o Mundial FIFA Alemanha’2006, os seleccionadores salvo raríssima excepção e ocasião, foram brilhantes alunos do INEF?
Ou, então, alunos com bom aproveitamento do brilhante que era o currículo e docência do INEF...
Gostaria eu que o interesse, pressa e adiantamento posto no desporto universitário, fosse também aquele tido para com o desporto federado. Sem a ante-câmara do desporto escolar, que categoria de alunos-atletas poderá ter actualmente a universidade? É um facto que o atleta federado pode representar também a sua universidade, porém e por ausência precisamente de um desporto escolar, o nosso atleta federado anda em maioria demasiado longe da escolaridade desejável, e muito mais da universidade.
O nosso desporto, a atravessar uma crise antes da crise geral, é o reflexo de muitos anos de descaso, de novas políticas geral e internas a requerer reajustes de natureza legal, com grosseiras violações das normas e regulamentos que trouxeram-nos à base ou sopé da montanha do movimento desportivo e da sua pirâmide. A preocupação com o desporto escolar soa bem, mas é pouco para recomeçar.
Da nova direcção do ministério está por se ouvir dar um sinal de apreensão com isso, quiçá um murro na mesa para além da já mostrada determinação em segurar esse touro desgovernado pelos cornos, designadamente com a (re)introdução do contrato-programa como sendo parte da nova medida disciplinadora dos gestores e estrategos das federações e clubes visando o reequilíbrio e crescimento.
Outra das questões que também me parecia dever estar entre as prioritárias, é a dos próximos jogos olímpicos, pois há já um atraso de um ano já em definir-se o que vai ser Angola nos jogos olímpicos de Tóquio’2020. Vão restar grosso modo dois anos apenas para conquistar vagas para esses jogos a realizar no Japão. Por isso parece-me imperativo o estado vir dar voz ao seu empenho, ou não, em fazermos por estar o mais largamente representados nessa montra mundial do desporto. A missão olímpica vai ser ou não um assunto de estado?
Se de facto for, o pronunciamento sobre a matéria pela nova tutela do desporto de Angola é um ponto prévio que ainda não ocorreu.
O país precisa de passar deste limiar e isso obtém-se com planos estratégicos para potenciar desportos onde Angola vislumbre mais sucesso que nos desportos colectivos, casos que merecessem uma academia especial e centro especial de treinamento: atletismo, canoagem, ciclismo, desportos de combate, ginástica, vela e voleibol de praia, pelo menos. E esta definição não importa somente para as olimpíadas, mas também para os jogos continentais e da sub-região.
Com o desporto federado e o olímpico revistos e melhorados, haverá tempo para erguer os verdadeiros pressupostos do re-advento angolano do desporto escolar, assim como do universitário por arrasto. Sem as quadras, ginásios e professores, a carroça não dará qualquer passo seguro, nem duradouro.
E as preocupações não se ficam por aí; o panorama tem todo o aspecto e possibilidade de não estar contemplado nas contas para o orçamento de 2018. Se for realmente isto, será mais difícil ainda dar passos na direcção pretendida já no próximo ano que se aproxima, admitindo-se que a iniciativa junto dos estudantes comece por tímidas experiências-piloto antes de o sistema ter as pernas fortalecidas para acertar passo e desenvolver-se por igual, a nível nacional.
Se o balanço dos primeiros 100 dias parecer já ser algo substancial, melhor será quando ele envolver todas as componentes actuais da preocupação geral: desporto escolar, desporto de formação, formação de formadores administrativos e técnicos do desporto, revisão da legislação para desobrigar clubes a ter pelo menos 3 modalidades diferentes, criação de pilares desportivos com a comunidade e administrações municipais, fomentar a responsabilidade corporativa e mecenato entre as entidades mais abastadas da economia nacional, e embarcar no esforço nacional a participação firme e determinada das organizações juvenis de todos os partidos e credos.
A soma dos pequenos avanços de cada um e o balanço crescente do todo que isso representar, é uma possibilidade real de criar avanços neste fenómeno social chamado desporto, que tem em Angola cada vez menor dimensão, embora conserve ainda um extraordinário potencial.
Como não poderia deixar de ser, é ao dirigismo do MINJUD que se vão ficar sempre a dever tanto os sucessos, como os insucessos. E a incorporação na sua direcção de antigos atletas de boas referências permanecerá a grande incógnita por enquanto, até os mesmos virem provar que santos de casa podem fazer milagres, sim.
ARLINDO MACEDO

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