Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

S falta pensar

08 de Maio, 2015
Ser ou não profissional, parece-me líquido que a questão ficou ultrapassada, legal e materialmente. Ou seja, já não se coloca a questão nesses termos. A Lei de Bases do Desporto consagra (nos termos do artigo 36) o Desporto Profissional e Organismos autónomos. Entidades que por delegação de competências das federações podem organizar competições profissionais, como ligas por exemplo.

Os jogadores de futebol, atletas do basquetebol e andebol celebram hoje contratos de natureza profissional, com direitos e deveres, competindo a qualquer uma das partes recorrer ao tribunal para ver reparado o seu direito violado. Numa frase estabelece uma relação profissional. Entendo desse modo que já não vale a pena gastar tinta com essa questão, de saber se o desporto é ou não profissional.

Compreendo que a resistência que existe em considerar o nosso desporto como profissional prende-se mais com as práticas (sobretudo más) do que com a sua natureza propriamente. Não temos, isso sim, competições profissionais, assim como o desporto ainda não produz o suficiente para sustentar os clubes nacionais. Essa é igualmente uma realidade que não merece nenhuma defesa.

O Girabola, principal competição futebolística do país, não é profissional. Por essa razão, os clubes que nele participam recebem zero. Ou seja, nada. Contudo, nada impede que a entidade que o organiza, no caso a Federação Angolana de Futebol, possa premiar os primeiros vencedores. Isso é o mínimo que se espera da FAF. Há muitos anos que esse assunto é colocado na mesa. Mas 37 anos depois, o Girabola continua a ser uma prova por amor à camisola.

Também ainda não é profissional a gestão dos clubes, pois os seus dirigentes com a excepção dos directores e secretários-gerais não são remunerados. Ou seja, presidentes e vice fazem-no por amor ao clube e ao desporto. Esta questão é uma pura mentira. Não se pode dar a gerir milhões a uma pessoa e ela não beneficiar.

Os clubes ignoraram os esforços para buscarem receitas nas pequenas e poucas oportunidades que existem. Muitos clubes têm contratos com os bancos e outras empresas não por iniciativa dos seus gabinetes de marketing, mas porque são essas empresas que vão à procura dos tais clubes (salvo uma ou outra excepção).

Os clubes entregam os departamentos de marketing aos jovens mais bem parecidos que virem, ou que saibam dizer uma frase completa e correctamente em português ou em inglês. O conceito de marketing nalguns clubes é coisa de outro mundo. Ou se entrega os departamentos de marketing aos sobrinhos, que têm dificuldades de encontrar emprego. Logo, o resultado é esse: clubes que desperdiçam as mais pequenas oportunidades para ir buscar qualquer coisa e desafogar o principal patrocinador.

Não se aceita que jogadores (apenas um exemplo) Ary Papel ou Job, jogadores com imensa notoriedade nos respectivos clubes e capazes de arrastar uma legião de consumidores, vistam na rua camisolas da Puma ou da Nike, chapéu da Adidas, mas os clubes não ganham nenhum kwanza com essa exposição das marcas que os seus “veículos” fazem. Falta estratégia de marketing aos clubes, por conta do que acabei de afirmar. Então é normal um jogador beber um sumo ou gasosa e colocar a foto no facebook, sem que o clube retire disso qualquer proveito?

São essas práticas que fazem do profissionalismo do nosso desporto ainda questionável. Mas com os milhões que se movimentam com transições de jogadores e treinadores, o facto dos jogadores terem como principal meio de sustento o desporto, e um sem número de pessoas, temos de convir que o nosso desporto é profissional. Resta aperfeiçoar esses aspectos, de gestão sobretudo, para que possamos fazer do desporto uma indústria dentro dos próximos 30 anos.
Teixeira Cândido

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