Jornal dos Desportos

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Opinio

So Silvestre da tradio sai rua

30 de Dezembro, 2017
A mediática corrida, a São Silvestre de Luanda, sai felizmente amanhã à rua para a sua 62ª Edição, para de forma exuberante e garbosa dignificar a nossa Angola. Só o facto da corrida se efectivar, dadas as inúmeras adversidades vividas na véspera, já é um passo em frente e mostra que mesmo na crise nenhum de nós é como a avestruz que diante das intempéries prefere acobardar-se e colocar a cabeça na areia.
Tal como referimos em artigo anterior e sobre esta mesma matéria, a São Silvestre de Luanda é uma grande marca de projecção e de marketing que em tempos idos foi devidamente rentabilizada, a ponto dos organizadores e a Federação Angolana de Atletismo não precisarem das “esmolas” de outras estruturas, porque no rol dos patrocínios e na rentabilização por via da publicidade e promoção de marcas, retiravam os lucros que cobriam os custos operacionais, como a sustentabilidade da prova, a logística em geral, os prémios etc., etc.
Hoje por hoje, as realidades são diferentes.
Os patrocinadores retraem-se devido à crise e ninguém investe sem o devido retorno. Assim, infelizmente, há que recorrer ao Estado que de uma ou de outra forma tem responsabilidades acrescidas em todo o processo, porque por via da corrida retira imensos bónus sob o ponto de vista da imagem, política, social, económica, enfim. Aliás, a transversalidade e dimensão da mediática corrida falam por si.
Foi sofrível a preparação desta 62ª Edição da São Silvestre de Luanda, que em tempos idos foi a segunda melhor do mundo depois da do Brasil. À capital do País aportavam nesta altura do ano, muitas “feras” do atletismo mundial como Paulo Tergat, Haile Grebrselassie Berharnu Guhirma que como apuramos vinham à nossa corrida para relançar as suas carreiras e ganhar notoriedade a nível internacional.
Os angolanos, por seu turno, ganhavam com isso. Lucravam mais-valias com o contacto com esses atletas de gabarito, neste quesito melhoravam as marcas a ponto de em algumas ocasiões terem vencido a corrida, mesmo com um naipe de atletas africanos de reconhecida competência competitiva. João Ntyamba é um exemplo disso que bisou em dois anos consecutivos (1999 e 2000).
Portanto, a corrida que amanhã vai ter lugar, longe de atingir os níveis das anteriores, será a corrida possível. Reconheça-se esmero e entrega ao elenco de Bernardo João, Presidente da Federação da modalidade, mas como se diz, contra factos não há argumentos. A escassos dias da realização da corrida é que viu disponibilizado o montante orçamentado que rondou os 40 milhões de kwanzas. Enfim, um exercício muito em cima do joelho, para quem até já tinha mergulhado no mar das incógnitas e das incertezas. À semelhança de outros países lusófonos, exemplo Moçambique, Angola corria sérios riscos de anular a corrida deste ano, não muito pela ausência de estrangeiros, mas fundamentalmente pela falta de recursos financeiros. A nível das províncias do interior do País, as respectivas seleccões se vêem à nora para marcar presença na prova. Muitas inclusive, declararam ausência justificada por falta de verba para sustentar três ou quatro atletas que fazem a representatividade provincial.
Com bastantes esforços se conseguiu que alguns países marcassem presença e estes, por razões históricas, de irmandade e de solidariedade desportiva, vão estar presentes para dar cunho internacional à prova.
Por outro lado, no capítulo da organização das condições internas da corrida, é mister reconhecer que muita coisa ficou atrasada e que nestes últimos dias “à boa maneira angolana” (convenhamos!), correu-se atrás do prejuízo, emendar aqui, reparar ali, enfim, fez-se um profundo Raio X ao trajecto para reparar lancis, tapar buracos, revitalizar postes de luz, iluminar ruas escuras, enfim…
Numa outra vertente, há que fazer referência ao papel pedagógico que a organização está a esgrimir, procura com conselhos úteis aclarar os que não são atletas na vertente competitiva, pretendam tão-somente animar a prova e manter a forma atlética, participar de forma activa na corrida. À esses, segundo conselhos do Dr. João Mulima, do Centro de Medicina e ligado à questões de antidopagem, todo o cuidado é pouco, têm os concorrentes entusiastas de obedecer inclusive aos produtos alimentícios a ingerir nos dois dias que antecedem a prova e no próprio dia “D”.
Mulima tem vindo a falar de forma exaustiva de questões profilácticas, do ponto de vista da medicina e do controlo antidoping cerrado de que a prova vai ser objecto. Esse mecanismo é recomendável pela Federação Internacional de Atletismo e organismos afins ligados à essa área para se evitar falseamento de resultados, e por outro, salvaguardar a saúde dos que praticam o desporto de alta competição e não só.
Apesar dos parcos e tardios recursos colocados à disposição das entidades que organizam, estamos em crer que a corrida sairá à rua amanhã de forma exuberante e garbosa, com largos objectivos de salvaguardar a imagem de Angola, um país que se quer afirmar em todas as vertentes. Os participantes vão procurar, cada um a seu jeito, emprestar o brilho necessário que ela merece. Quer os que entrem para competir, como os populares anónimos que vão “para se divertir”, todos vestirão a camisola da solidariedade desportiva, no espírito do fair play e da fraternidade.
Que ganhe quem merecer e que este seja de facto um angolano. Consta nos anais da história que o angolano António Esperança venceu a corrida em quatro edições consecutivas, de 1957 a 1960, e o etíope Berharnu Guhirma triunfou nos anos de 1979, 1980, 1981 e 1982.
MORAIS CANÂMUA

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