Jornal dos Desportos

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Opinio

Talentos angolanos ofuscados na dispora (?)

21 de Setembro, 2019
Hoje, neste espaço assinado “A duas mãos”, concordamos escrever sobre um assunto de suma importância e que merece a nossa atenção, até porque, sem desprimor para outros, as questões sobre os futebolistas angolanos que actuam na diáspora, com particular destaque para os novos talentos que têm, nos últimos tempos, preenchido largos espaços na média desportiva e não só.Por esta e outras razões ousamos escrever “A duas mãos”, sem contudo reunirmos capacidades suficientes de o esgotarmos por entendermos que o mesmo encerra várias nuances, que podem ser exploradas “por outras mãos”, dada a complexidade e o campo aberto que oferece.
Ao falarmos de jovens futebolistas angolanos na diáspora, saltam à vista os nomes de Gelson Dala, o menino prodígio do 1º de Agosto, que na altura certa foi catapultado para o Sporting Clube de Portugal, e Show, o médio-trinco que recentemente foi para o Lille de França, emprestado depois ao Belenenses Futebol Clube. Naturalmente que há outros nomes sonantes e que nos últimos tempos têm estado na “boca do mundo”, como é o caso do jovem Eduardo Camavinga, filho de pais angolanos naturais de Cabinda. Na verdade, o jovem tem dado cartas e já espreita as portas dos grandes do futebol mundial. O chamam de um fenómeno.
Mas, bem sabemos que como este, há outros ainda por descobrir sendo filhos de pais angolanos e que precisam de ser identificados prontamente para, com base em catalogação prévia, fazerem parte de uma base de dados que proporcionará que a nossa Selecção Nacional possa contar com todos esses e experimentar melhorias das nossas prestações a nível continental e internacional.Porém, há alguns pontos que podem ser tratados de forma aberta, a julgar pela forma como, por vezes, vemos o curso das coisas. Por exemplo, há quem advogue que Portugal não seja um bom mercado, para que os nossos jovens jogadores, idos de Angola, procurem se impor.
Por outro lado, longe de pensar assim, acho que prefiro ver o outro lado da moeda. Ou seja, pensar que não se impõem, devido a disparidade da nossa competição em relação à deles; das diferenças profundas nas condições de treinamento e de trabalho de uma forma geral; na diferença de mentalidade diante da realidade social; na diferença em termos de cultura táctica e, depois, na fraca capacidade de adaptação como o “novo mundo”, que geralmente revelam.
Aqui o caso flagrante foi de Ary Papel que, tendo ido a Portugal pelas mãos do Sporting de Portugal, praticamente não se conseguiu impor, quer na equipa B, quer no Moreirense, onde depois acabou por ser cedido por empréstimo. Parecia que Papel desaprendera a jogar. Na verdade, o fogoso jogador do 1º de Agosto perdeu fulgor, a chama, o repentismo e até alegria de jogar.Já outros, mesmo se adaptando da melhor forma, encontram outras barreiras que limitaram a sua “explosão”.
Show, por exemplo, que foi seguido durante duas épocas pelos dirigentes do clube francês, o Lille, não conseguiu convencer depois de ser levado àquela realidade. Depois de algumas sessões de treinamento, acabou emprestado ao clube da “Cruz de Cristo”, o Belenenses de Portugal, com quem o clube francês tem parceria.
Se por um lado é bom, que o garoto, pelo menos jogue regularmente, por outro, baixa a sua auto-estima, mesmo sabendo que o empréstimo é temporário. Jogar em Portugal, na Liga Nós, não é mesma coisa que jogar pelo Lille, no “Le Championat”, convenhamos.
De uma maneira ou de outra, confere sempre um alento por estar numa outra realidade, onde o rigor e a disciplina táctica é diferente. Aliás, o jovem futebolista está consciente de que deve superar, para voltar ao Lille, onde julgava que iria se integrar em pleno.
Fica aqui a impressão de que a preferência primária por Portugal tem a ver, essencialmente, pelo factor língua que, segundo advogam, facilita a integração e adaptação, juntando a isso o passado histórico e cultural, muito por razão dos tugas terem sido a potência colonizadora.
Naturalmente, há outros tantos atletas angolanos jovens espalhados pelo mundo. Chegados até aqui, volto a abordar o caso de Gelson Dala, um exímio executante que lhe reconhecemos qualidade que, no entanto, foi reprovado por Marcel Kaizer, antigo técnico do Sporting de Portugal, que demonstrou não contar com o seu concurso, quando na altura estava de saída o ponta-de-lança holandês Bas Dost. O jovem Gelson acabou emprestado a um clube turco.Entretanto, vale reflectir sobre tudo isso. Do porquê que os nossos jovens futebolistas, principalmente os saídos do campeonato interno, não se conseguem impor na diáspora.Por isso, há aqui muito pano para manga, para continuarmos a reflectir… Morais Canãmua

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