Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Tcnicos fora do mercado

07 de Julho, 2017
Naquilo a que se pode considerar, em bom rigor, atear fogo à pradaria, o técnico Mário Calado, insurgiu-se, e com justa razão, contra os critérios de contratação de técnicos de futebol para o nosso mercado, e sobretudo contra a cultura de ostracismo a que estão quase votados os nacionais, muitos destes já com créditos firmados. Numa extensa entrevista a este jornal o técnico vai mais longe e diz mesmo que os dirigentes julgam saber muito do futebol quando é o inverso.

Na verdade, é penoso ver-se uma legião de treinadores de futebol votada à sua própria sorte, tão só porque no mercado impera o princípio de que o angolano é menos capaz, e, por via disso, contratado apenas em situações extremas. Ou seja, naquelas em que os cofres deste ou daqueloutro clube estejam à míngua. Enfim, a coisa chega roçar os píncaros de mera vaidade.

Escapa, pois, a sensação de existirem por aí clubes para os quais investir num técnico nacional é baixar a sua reputacão, e partem para o mercado externo em busca de treinadores que nem sempre superam os nossos em termos de conhecimento e experiência.Chamamos aqui a atenção, de que não estamos a ser xenófobos, longe disso. Tratamos apenas de manifestar um protesto àquilo que julgamos estar errado.
Matias Adriano

Aliás, treinar em outros mercados não é coisa de hoje. Remonta da descoberta do próprio futebol, e acontece igualmente noutros desportos. Como vemos nas grandes ligas europeias, os técnicos das equipas são de várias origens, não havendo nenhum mal nesta aposta. No caso particular do nosso país, a coisa parece também já ter virado negócio da China.

Afinal a contratação de um técnico estrangeiro exige um conjunto de pressupostos, e, se calhar, dá mais lucros aos amigos das chamadas “comichões”, o que não acontece, à mesma escala, com um nacional. Vai daí, se calhar, a preferência pelos primeiros, mesmo vendendo a sua banha de cobra. Os próprios dirigentes disto já terão percebido, justificando-se daí o recurso ao mercado local sempre que as coisas dão para o torto e encontram na famosa “chicotada psicológica” a solução.

Por regra, o nosso campeonato, disputado por 16 equipas, tem seis ou sete equipas em mãos de técnicos nacionais, o que reduz substancialmente o mercado de trabalho para estes, que acabam por enveredar por outros affaires, quando não lhes convém a condição de adjuntos a que normalmente são submetidos. Não fosse o espaço de jornal algo limitado, passávamos aqui a lista de treinadores angolanos fora do activo.

Sem excessos, a situação levanta, realmente, alguma indignação, sabendo-se que os encargos financeiros com um técnico forasteiro são de longe superiores aos de um nacional. Pois, estes mesmos clubes volta e meia trazem à praça pública problemas de falta disto e daquilo, por limitação financeira, nos dias de hoje atribuída à recessão económica vivida no país. Como pode faltar dinheiro para prémios de jogo a um clube que paga avultadas somas de dinheiro a um treinador estrangeiro?

É que se se fizer o levantamento dos 37 títulos correspondentes a igual número de edições do Girabola, notamos, sem recurso a um exercício suplementar, que técnicos angolanos também subiram o meridiano dos campeões, daí que não se lhes pode emitir nenhum certificado de incompetência, a não ser que façamos a apologia da maior injustiça.

Desde os tempos de Mário Imbeloni, Petar Kzernevich, Eduardo Gonzales, António Clemente é demais sempre tivemos também treinadores nacionais com a mesma reputacão. Severino Miranda \"Semica\", Chico Ventura, Eduardo Laurindo, João Machado, para só citar estes, foram desse tempo, e sempre tiveram mercado. Portanto, não é hoje que se vai tomar o técnico nacional como opção de último recurso. Está errado...

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