Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Tendenciosas "chicotadas"

04 de Agosto, 2015
A chicotada psicológica é uma “atitude coerciva” aplicada ao treinador, na expectativa que produza efeitos psicológicos nos jogadores e que lhes dê a volta ao estado anímico. Isso infelizmente, acontece todos os anos no futebol angolano.

O Girabola teve o seu início em Fevereiro, seis meses depois, afirmo, alto e em bom som, que quem mais trabalha no futebol nacional é a guilhotina, prova de que a instabilidade dos treinadores é marca de peso, muitos apontam que essa é uma das nossas principais mazelas.

Verdade ou não é a triste realidade que vivemos. Ao longo das 19 jornadas disputadas, oito equipas já mudaram de treinador. Algumas até já crucificaram dois técnicos nesta temporada. Feitas as contas, 12 técnicos já foram “postos na rua e atirados ao desemprego”, mas foram provavelmente bem indemnizados, pudera!

Também não deixa de ser verdade, que as vezes deixam os cofres dos clubes numa situação de completa penúria, muitas das vezes, por incompetência de alguns dirigentes. Essa é a pura verdade, mas que ninguém reconhece.

É verdade que alguns alegam, que a desvinculação foi “de comum acordo”, ou devido “a problemas familiares”. Aliás, esse motivo é que está agora na moda. Mas as mudanças de comando técnico nas equipas têm frequência assustadora.

Em Angola, os ciclos dos treinadores nos clubes, são curtos. Não cumprem objectivos, saem, troca -se de treinadores, equipas técnicas, sistemas tácticos e até de jogadores.

Progresso, Interclube, Sporting de Cabinda, Kabuscorp, Recreativo do Libolo e Sagrada Esperança, são as equipas que mudaram de técnico. Na Caála e no Bengo moram – mas não jogam – os campeões das chicotadas. As suas equipas vão no terceiro treinador!

Do lado oposto, no grupo dos sobreviventes, estão equipas como o Petro de Luanda, o ASA, Bravos do Maquis, Benfica de Luanda, Progresso da Lunda Sul, 1º de Agosto, Desportivo da Huíla e Académica do Lobito. Todas mantêm os treinadores com que iniciaram a temporada.

Depois segue-se a velha dança das cadeiras: o sujeito é demitido aqui, assume ali, cai para logo voltar ao ponto de partida. E o clube paga ao fim da temporada, por dois ou três treinadores, que trabalharam só alguns meses, ou por outra, finge que paga, deixa a dívida rolar nos “sonolentos” tribunais.
A situação é que alguns dos nossos dirigentes desportivos, vêem como melhor solução as ditas “chicotadas,” para salvaguardarem principalmente as suas posições, sempre intocáveis até novas eleições. E como tal, assim as primeiras vítimas que estão desgraçadamente mais à mão, para alguns dirigentes, pelo maus resultados verificados pelas equipas de futebol, são os treinadores.

As mudanças de treinador têm como não podia deixar de ser, o seu lado anacrónico: o acto não produz os seus efeitos sobre o sujeito, mas sobre terceiros. O treinador é que é chicoteado para que os jogadores emendem ou entrem no trilho certo. Ou os jogadores é que andam por maus caminhos mas o treinador é que leva o castigo.

Tem uma explicação simples: o treinador é só um; os jogadores são às dezenas. E outra, também pouco complicada: por cada treinador empregado, há no mínimo dez à espreita, à espera e a fazer figas, para que as coisas lhes corram mal.

Mal surge a oportunidade e lá está outro disposto a dar o seu cunho pessoal, a fazer crer que a equipa vai passar a ganhar os jogos todos, a injectar moral naqueles jogadores como se de uma penicilina se tratasse.

Uma vez por outra, a coisa até resulta, é isso que dá força à chicotada psicológica. Ninguém se lembra das vezes em que tudo fica na mesma, essas não contam para nada. Em memória ficam as que resultam!

Mas o chicote não pára, continua no ar, ameaçador. Quem será o próximo? Esta é questão que se coloca, mesmo a saber que restam 11 jornadas para o cair do pano do Girabola.
POLICARPO DA ROSA

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