Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Tijolo põe, tijolo tira...

08 de Fevereiro, 2018
Num ápice o futebol sai do CHAN, para as Taças de Clubes da CAF. Mas, o CHAN vem hoje a propósito.
Os Palancas Negras de repescagem, como ouvi, deram um mote ao futebol; há quem me dissesse que a originalidade já foi do campeão, Primeiro de Agosto, a cuja pressão alta se ficou a dever a vitória também no plano cultural do jogo. Pois, o sofrido novo ‘Onze Nacional’ foi além de quase toda a expectativa, porém, os ‘Agostinos’ que lhe faltaram, foram quem a certa altura saiu a perder.
Não trabalhar como o fez o conjunto de Vasiljevic, Sasha, Maximovic, Love e Chila, pode bem ter custado pouco em termos da escola, onde também já estavam, contudo, entre 5 jogos internacionais que podiam ter nas pernas, com elevados níveis de tudo para a nossa medida, é bem crível que a esta altura, já fossem outros ‘guerreiros’ na Liga dos Campeões...
Mas, como se dizia no novo ‘Onze’ dos Palancas Negras, falta só podem fazer mesmo quem lá estiver, e não quem se ficar a julgar, nem julgar-se. Auguro que eles saibam, a seguir, preparar-se para ‘Os Garanhões’ (Étalons) do Burkina, se quiserem trilhar atalhos para o CAN, em 2019, e os Jogos Olímpicos, em 2020.
Mas, os olhos não devem ver apenas a árvore, sempre a floresta.
O seleccionador ‘AA’ quer as selecções de promoção entregues a angolanos, por eles estarem a acompanhar quem cresce e engrandece, sabendo melhor que ninguém, e que os Sérvios, quem é quem nos cadetes, juniores, olímpicos e aspirantes a seniores, contudo, precisam de cavar mais.
Na visão de Vasiljevic e Companhia, as raízes devem baixar ao Futebol de 7 e os fundamentos saírem de lá; os treinadores angolanos ficam diante de uma oferta muito grande, desde a gestão e administração do futebol, ao ‘scouting’(olheiro de olho!), para os filhos da praça explorarem desde cedo novos campos que a tecnificação e tecnologia estão a gerar na crescente indústria do futebol, ainda mal seguida no nosso País.
De facto, quer no plano do projecto, em si, que não emana de uma orientação pré-estudada pelas autoridades desportivas do Estado, nomeadamente em matéria de metodologia e saber apontar à sociedade uma direcção a seguir; quer no plano cultural, incapaz de ler sinais e tratar de começar a explorar a cultura do futebol como fonte de inspiração para milhares de jovens de ambos os sexos e sem outro rumo nem (garantias de) futuro fora do futebol, apenas esperamos por quem de direito.
Vai-se fazendo tarde e é esperado o país reencontrar depressa o seu rumo cultural, e particularmente desportivo. Um ministério que é também o da juventude, tem que ter essa preocupação, visão e pressa. Saber criar sinergias e saber criar empatia, coisa em que a direcção actual do MINJUD ainda não gerou eco, nem colhe as simpatias gerais, muito pela alegada postura arrogante, autoritária e por vezes de sobranceria e desprezo, tal como exibidas, narradas e, até, re-narradas com incontidas risadas, que são de lamentar.
Seja com que atenção estiverem, é bom que saibam que o facto de o desporto acorrentar a juventude ao mesmo ministério, sugere que se faça como primeiro lance colocar o desporto ao serviço da juventude, assim como atrair a juventude para o desporto, pois, até aos 18 anos é obrigação do Estado cuidar da educação das crianças e adolescentes, sendo grave sentirmo-nos num país que vive para o ‘Girabola’ e os seniores.
Depois e sempre como pais do desporto nacional, o MINJUD pensar no emprego dos que ficam seniores, mas, as mais da vezes, no banco de suplentes e depressa no desemprego, sem terem para onde se virar, e então é quando a socialização do desporto realiza o seu papel e fulcro de fazer do desporto uma vivência nova dentro desse mesmo mundo. E esta cultura cria-se, não se impinge, apenas se semeia, para se colher a curto, medio e longo prazos em cada vez mais quadrantes, comunidades e locais.
E para que a juventude angolana abrace o desporto e aspire ao seu conhecimento cada vez mais profundo, especializando-se e alicerçando o mercado em termos de conhecimentos e valências para ir melhorando esses alicerces de um espectáculo cada vez mais a entrar na dimensão da industrialização e do ‘showbusiness’.
É evidente que vale mais preconizar isso de cima para baixo, do que deixar que a sociedade civil, já de si a braços entre o dever-ser e o aproveitar-se da situação, dividida entre justos e pecadores, e que se julgue que a mesma venha a parar, ainda, para reflectir sobre o futuro de todos.
Então, essa é uma das primeiras ilações a tirar do que se passou em Agadir e Tanger com uma selecção do país quase paga do próprio bolso e em que o próprio país não disfarçara que ninguém queria dar um tostão furado por esta selecção do ‘Top 8’ Africano. Mas, acredito que se fosse para o Mundial, colarinhos brancos e ‘aparecedores’ estariam todos arrebitados e postos de pé, solidarizando-se, com rebita, kwatas e kissangua, ...‘ai-ué, nossa selecção!’.
Chega do país de fazer de conta. Chega de ignorar que o crescimento do crime, da burla e do roubo violento, da violência e da violação, tem muito a ver com frustração, e sobretudo com falta de ocupação e de emprego, e quem tem um ministério da juventude e desporto tem o colírio para desenramelar a visão da juventude e mostrar-lhe horizontes de possibilidades e de confiança.
Além de mostrar quão bom os angolanos medianos podem ser se empoeirados da correcta direcção e orientação, o CHAN foi igualmente a ocasião de voltar a ouvir em ‘boa governação’ desportiva, algo de que só se poderá falar em Angola quando as contas forem prestadas a sério, auditadas inclusive, para os clubes poderem ser licenciados, e sem licença fecha-se as portas à competição, inclusive no município, pois, a mesma será ilícita e incorrerá na punição das respectivas associações local e nacional, em caso de prevaricação.
Assim, depois da celeuma dos campos relvados obrigatórios para a disputa do Girabola, e a promessa de que os clubes não mais vão iludir ao inscrever nas classes jovens equipas que depois nem competem, eis que se aperta o cerco à má gestão e, decerto, com o enterro da mesma se começara a ver mais rendimento desportivo, acreditando que as verbas actualmente desviadas ou indevidamente consumidas, fiquem mais ao serviço do desporto, do que do particular.
De resto, outros bons exemplos a colher, vieram dos estrangeiros. Vejamos a Líbia, para começar.
Ninguém acreditaria que naquele território de quotidiano violento em pelo menos 3 frentes e cidades maiores, cada milícia organize o seu próprio campeonato e parem de lutar para ver o futebol. O que há de especial entre os líbios é que o país tem agora o que seriam em teoria 3 campeonatos nacionais, sem relação recíproca, mas que se juntam para formar uma selecção. Aquela que viram no CHAN.
Em Angola, no tempo que os angolanos se guerreavam entre si, conta-se como parte do nosso folclore, que o clube militar das então chamadas Fapla ou forças do governo, o Clube Primeiro de Agosto, era seguido como o clube de todos os militares de ambos os lados do conflito armado, a ponto tal, que as armas se calavam quando o clube do Rio Seco jogasse. E a selecção, então, nem se fala.
Tais factos ilustram que há muito se tem estado a erguer pilares para haver uma nação angolana de todos, sendo parte deles, do Desporto. E esse factor de unidade nacional já foi mais evocado, do que é hoje tratado.
Mas, há mais lições de África e do CHAN para colhermos com aquela humildade própria dos talhados para vencer, os quais devem começar por aprender.
Os nossos vizinhos da Namíbia foram longamente gozados como os japoneses eram, pelos brasileiros, quando o assunto era futebol. Os japoneses gozavam da fama que depois da derrota na grande guerra, eram vistos pela Europa fotografando tudo o que vissem e achassem interessante no futuro.
Assim, de regresso a casa, tratavam de criar tecnologia, equipamentos e utilidades para o que fosse preciso, graças à sua industrialização, não só em indústria pesada, mas, também em miniaturização, hoje chegada à nanotecnologia. Então aquele arquipélago pequeno lá no extremo asiático e que enfrenta tremores de terra mensais com desabamentos, tem feito riqueza à custa de criar indústria para fabricar tudo o que precisa o resto do mundo, para onde exporte.
Os namibianos fizeram algo parecido. Depois de terem andado em tantos torneios africanos desde a sua independência, e sem colher grande resultado, nem mesmo na sua região, puseram-se a copiar um modelo africano e exequível; escolheram o Gana e começaram a mandar para lá afinar os seus Sub-17, todos os anos, por 3 semanas.
Assim enchidos de jogos, crescidos e passados a Sub-20, depois a Olímpicos, e hoje aos ‘AA’, a Namíbia passou a dar anualmente 3 semanas de ‘training camp’ ou estágio competitivo, a todas as selecções de juvenis e cadetes, que foram crescendo com melhorada cultura táctica, evolução técnica e rendimento desportivo, além de competitivo, tendo sido do nível aceitável que se viu. E que se deve acreditar que há-de continuar a evoluir.
Como Angola, a Namíbia está hoje no Top 8 Africano de futebol.
O topo dos oitos primeiros países é uma aferição clássica que se faz de quem é quem, num torneio a eliminar; o Top 4 seria o dos semifinalistas. Se nos primeiros, os vencedores colheram 150 mil dólares, os vencidos 80 mil, acredita-se que no Top 4 houve premiação pecuniária de mais de 250 mil para ao campeões, e pouco mais de 200 mil para os contendores da medalha de bronze do CHAN.
Numa oportunidade que surgiu, perguntei ao secretário-geral da federação da Namíbia, donde viera a nova aura da sua selecção, tendo-me respondido que vinha deles, enquanto apontava para o nosso companheiro de mesa e secretário-geral da federação do Gana, sentando entre nós.
E então o namibiano desenrolou-me que a federação da Namíbia havia adoptado há já uns anos mandar sempre os seus Sub-17 fazerem aquele ‘training camp’ no Gana.
ARLINDO MACEDO

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