Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Tirar a maquilhagem e chamar as coisas pelos nomes

21 de Junho, 2017
Gostaria de terminar o que começara mas, entretanto, (re)começo por apresentar ao Leitor as desculpas deste autor por não lhe ter dado a conclusão do artigo na semana passada.

Havia deixado a meio uma tentativa de caracterização da nova gama do dirigismo desportivo em Angola, a propósito de uma tirada quase homérica que ecoava e estava relacionada com um anúncio em pleno fim da III República, de que o próximo governo haveria de massificar um milhão de crianças.

A massificação, fique claro, jamais substituirá o método correcto, clássico e ortodoxo – isto é, o desporto faz parte do ensino por via da educação física – enquanto estas jornadas de campo que se estão a preconizar em nome da massificação farão desabrochar talentos para depois inserir em que clubes?

Depois de em Angola se ter banido o desporto escolar do ensino e da sua proximidade em meados dos anos 90, aquando da primeira crise do petróleo, pelo que se presume tenha sido uma medida para reduzir custos e orçamento, eis que em 2013 alguém colectivamente (re)descobriu que antes se havia feito uma asneira, tocando a reunir para convir que era preciso devolver ao ensino a educação física, para começar. Mas então havia caído em 1994-5 um castelo de cartas e entre elas centenas de treinadores que adviriam dos finalistas do instituto de educação física, INEF, os quais perderam ou nunca chegaram a ter esse emprego nas escolas secundárias.

Então voltou a haver uma conferência para repor lógica na iniciação desportiva e foi com tal pompa e circunstância, inclusive trazendo-se especialistas de fora, alguns deles com passado na antiga secretaria de estado antes do barril perder força da primeira vez, que decerto se espantaram por vir refazer o que havia sido desfeito.

Mas não era o único contra-senso. O acaso fizera a batata quente ir parar à mão de quem antes a havia recusado. Conta-se que quando Rui Mingas era director escolar queria que a estrutura do desporto no governo arcasse com o desporto escolar para haver mais dinamismo e recurso certamente, porém, tendo sido nomeado Secretário de Estado da Educação Física e Desportos, já o recusava. Não faz muito, ele acabou nomeado coordenador para a implementação das conclusões da referida conferência.

Parecemos não saber o que queremos e a fugirmos sistematicamente do que devemos fazer. Porque empreender é diferente de encontrar feito; empreender é resolver, ser capaz de fazer canoas com uma caixa de fósforos, fazer das tripas coração. E é um tipo de dirigente desportivo que já não abunda infelizmente. Gente assim é que é a tal gente empreendedora, não quem se atreve a achar predestinado para dirigir o desporto só porque um dia o praticou ou tentou.

Outro cariz do dirigente desportivo que se preza e é preciso, é o tipo que não pesa na folha de salários da própria instituição e é tal como o capitão de um navio, o último a saltar do barco sempre. Precisa de ser o primeiro entusiasta da modalidade ou do clube, consoante a sua posição, e atirar-se aos problemas com o afã de conseguir melhorar aquilo que encontrou. E um presidente assim difere daquele que é o primeiro nas despesas e vales.

Aqui e ali já se sente a falta de alguma gestão responsável e estou a ver a floresta pelas poucas árvores que nela restam de pé. Eis um quadro diante do qual eu tenho mesmo que sentir a falta do tipo de dirigentes desportivos carolas e de apetites moderados que havia, que eram homens construtivos a quem hoje nem se recorda mais, mas claro está porquê.

Assim quem vir o desporto jovem tratado com a indiferença que presentemente é, estaria indignado como eu. Quando eu olho para uma AFA e vejo como ela trata o futebol – para não falar também da excelência da infra-estrutura que alberga a academia – eu tenho que admitir que o problema não é o palácio, mas, a visão e o método, a organização, o saber do ‘métier’ e do futebol. No dia a dia. Anos a fio.

E não me venham dizer que é por haver dinheiro na AFA que não há para outros, pois as federações e clubes têm recebido dinheiro e ele é dado consoante os orçamentos, e estes segundos despesas correntes e projectos e investimentos, então, que projectos têm visto recusados?

Por exemplo, o andebol e basquetebol estão a conseguir reanimar-se no interior do país e concretamente fora de Luanda, tendo os últimos campeonatos nacionais de jovens sido demonstrativos de crescimento. Já em futebol, os campeonatos nacionais de jovens com se tanto 6 das 18 províncias do país, deixariam um estrangeiro a pensar se as nossas crianças são pernas-de-pau na maioria do território, ou se em parte do território não haverá federação, ou população?

Sempre que os clubes desonram os seus deveres e obrigações para com as camadas jovens e desporto de formação sente-se isso nos campeonatos provinciais respectivos, mas sobretudo na geografia dos nacionais, sendo a partir dessa leitura que se avalia realmente o desempenho e o foco do dirigente com visão, com programa e objectivos. Alguém virado para o lado do desenvolvimento. E este tem as suas regras, medidas e caminhos.

Nem todas as federações internacionais são actualmente impositivas de protocolos bilaterais com ONG como a FIFA – por exemplo no andebol e basquetebol não se exigem níveis às carteiras de treinador, nem os países aos seus seleccionadores, tal como não impõem contas auditadas aos clubes,etc. – e por isso nem todas as modalidades, como o futebol, têm afirmado um compromisso com as políticas hunanitárias da Organização das Nações Unidas.

Os protocolos da ONU para o desenvolvimento incumbem não apenas as crianças ou as mulheres em particular, mas também as políticas e objectivos de desenvolvimento que se preconizam serem de desenvolvimento auto- sustentável, pois este é que confere e ao mesmo tempo mede o desenvolvimento real, logo, este é o desenvolvimento que se quer e que é preciso. Ponto final. Só que isto é implementado por actos de gestão, logo por gestores e antes disso ainda, por vontades e através de políticas. Logo também por interesses, ou não.

Assim e para além de melhores gestores que falta no desporto, são precisas políticas de equilíbrio para auxiliar esforços de desenvolvimento, como seria o caso de protocolos com os clubes, por exemplo, compelirem estes a auditor contas e consagrar trinta por centro (30%) do seu orçamento para fins de investimento; e ser considerado investimento a despesa tida com a com formação e o desporto de formação nas camadas jovens, factores que constituem a foto síntese do desenvolvimento se assim puder ser explicado em sentido figurado.

O óbice apenas está em que a nova gama da gestão e dirigismo desportivo acha este pensamento anacrónico. Então e assim sem dirigentes para criar desenvolvimento, nem seque novos clubes, onde ficaremos nós quanto a nossos sonhos para 2018?
Actualmente os clubes tradicionais e até mesmo os regionais parecem assoberbados e com estruturas de custos a romper pelas costuras, mesmo sem praticar direito o desporto jovem e as mais das vezes se o fazem é por via de regra sempre em detrimento de outros desportos, ou das suas camadas jovens e quantas vezes ainda do sector feminino.

E se assim continuar, onde colocar em breve mais novos talentos quando estiverem acabadinhos de encontrar?
Então a próxima ‘massificação’ vai certamente produzir números só para a estatística, a menos que os pressupostos de sucesso dessa operação surjam, sendo estes mais clubes, mais monitores e professores de educação física adaptados ao desporto, mais subsídio ao desporto de formação incluindo para a formação dos seus formadores. E mais empenho geral.

Na realidade temos parte desses pressupostos, talvez nem todos no mesmo estado de conservação, mas existem parte desses pressupostos e falta reuni-los na totalidade necessária, o que se acredita ter sido feito na tal conferência de 2013, mas de lá para cá é preciso haver também sinergias, ganhando empatia com esta causa do desporto jovem na escolar.

Só que essa travessia no tempo ainda vai demorar, enquanto, por exemplo, pequenos clubes do interior não aparecerem sequer por bairrismo, ou professores de educação física não estarem dispostos a ‘migrar’ sem casa ou sem um salário atraente.
Mas, enquanto isso, podemos ir endireitando o que vai mal e os clubes podem ter a primeira palavra, pelo menos grande parte deles a atravessar dificuldades de crescimento, portanto a estagnarem. Ou mesmo quase a afundar.

Assim seria aos gestores e dirigentes desportivos que haveria que cobrar pela preservação do ‘modus operandi’ da formação desportiva e da estratégia do desenvolvimento desportivo, cartilhas sem as quais fica difícil ao desporto ser desporto, antes virando um coisa sinistra ou sem o resultado desejado e portanto merecedor de alguma acção corrector da deformação ou desvio. E no nosso caso acontece nada. Mais parece tudo na mesma.

Os gestores desportivos podem ao menos ser os primeiros a contribuir para a melhoria dos índices de desenvolvimento desportivo em Angola se dentro das suas associações e clubes forem defensores e promotores do desporto jovem. E saberem que lhes trará lucros sob forma de dividendos desportivos, louros e medalhas. Eu acho que muitos não se empenham em semear para não dar a outro os louros a colher disso.

Se não for presidente para uma federação ou clube, que seja PCA de uma ‘PPP’! Vai ser disto que voltarei para concluir esta abordagem, digamos, ética e deontológica aos meandros que o nosso desporto atravessa. Mas que não gostaria de ver entrarem na IV República…

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