Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Tiro pela culatra

28 de Setembro, 2013
É interessante ver que até as vítimas do chicote (alguns treinadores) contribuem para que esta acção (que na maior parte das vezes é injusta) seja adoptada.

No caso dos dirigentes, parece-nos que recorrem às chicotadas porque na maioria das vezes não usam de candura para consigo mesmos. Assim, não conseguem ver o que realmente impede que as suas equipas atinjam os objectivos a que se propõem.

A falta de honestidade para com a realidade do clube impede-os de analisarem profundamente as questões e daí, repetidamente, recorreram ao mesmo método errado de querer resolver os problemas resultando em muitas dores e decepções para si mesmos, como se de um tiro pela culatra se tratasse.

Quando, por exemplo, uma direcção muda de treinador todos os anos e às vezes até mesmo a meio do campeonato, a verdade é que está a querer justificar-se ou atirar para o técnico a culpa pelos seus fracassos. Em alguns casos, as chicotadas psicológicas deviam ser para ambos: o homem que faz as contratações e o contratado.

Sim, devia ser assim, porque se determinada direcção muda anualmente de treinador e os resultados (os títulos) não surgem, então isso pode indicar que o próprio dirigente também é um fraco, sem visão para escolher um treinador à altura das suas necessidades.

Para piorar a situação, surge a atitude de alguns treinadores que contribuem para que determinados dirigentes abusem do chicote. É que mesmo vendo que em algumas ocasiões o seu colega foi injustiçado, há treinadores que assumem o lugar com muito amor e carinho, e ainda se dão ao luxo de nas entrelinhas dizerem que são melhores que os seus antecessores e vieram para ganhar o campeonato, quando, na verdade, deviam ser solidários para com o colega de profissão.

Passadas algumas jornadas, o homem começa a ver navios e o rendimento da equipa baixa consideravelmente, às vezes ocupando posição muito abaixo da que herdou. Aí já é tarde para se arrepender. Daí em diante, tal treinador passa a ser atormentado dia e noite pela sua má escolha, movida pela ambição de querer aparecer ou matar a fome, esquecendo-se de que ele mesmo pode vir a ser a próxima vítima.

Automaticamente, o carrasco (o dirigente) começa a ver o erro que cometeu. Mas já é tarde. Em cada treino, o técnico ouve palavras insultuosas, que se calhar nunca ouviria se não tivesse feito aquela escolha. O próprio dirigente também passa a sofrer muita pressão dos adeptos, que por vezes querem o anterior técnico de volta.

É mesmo um tiro pela culatra. Portanto, estamos a ver que não interessa pintar a banana de amarelo ou enterrar a manga para dar a impressão de que o fruto está maduro. Tem de haver paciência. Deve-se cuidar de todos os outros pormenores para que a plantação dê frutos sadios no tempo certo. Porque se não, a pessoa passa a ser vítima das suas próprias armadilhas.
AUGUSTO FERNANDES

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