Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Tragdia do Uge continua sem culpados

22 de Fevereiro, 2018
A edição do Girabola/2018 caminha de forma segura. Já foram disputadas duas jornadas e embora haja alguns jogos em atraso, a prova trilha o curso normal. Algo diferente da edição de 2017, que foi marcada na ronda inaugural com a morte de 17 pessoas no Estádio Municipal 4 de Janeiro, na cidade do Uíge, atropeladas pela multidão que assistia ao jogo Santa Rita de Cássia - Recreativo do Libolo.
O incidente ocorreu nos primeiros minutos da partida, quando os adeptos forçaram a entrada por um dos portões do Estádio, que acabou por ceder. As vítimas foram pisoteadas e muitas acabaram asfixiadas, incluindo crianças.
Segundo as estatísticas, para além das 17 mortes, 60 outras pessoas ficaram feridas, sete das quais em estado grave. Apesar das mortes, a partida não foi interrompida e terminou com a vitória de 1-0 a favor da equipa de Calulo. Enquanto nas quatro linhas os jogadores disputavam ao pormenor cada lance, lá fora os adeptos, ávidos de acompanhar ao detalhe o jogo de estreia do seu representante na alta roda do futebol nacional (Santa Rita de Cássia), tentavam entrar no Estádio e um dos portões cedeu à pressão, fez que muita gente fosse literalmente esmagada pela força da multidão.
O trágico acidente aconteceu no dia 10 de Fevereiro de 2017. De lá para cá, já se passaram 12 meses e 12 dias e não há nada de concreto em relação ao inquérito levado a cabo pelas autoridades competentes.
Na altura, o antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, exigiu a abertura de um inquérito para investigar as causas da tragédia, instruiu o governo provincial do Uíge, na altura presidido por Paulo Pombolo, a prestar apoio aos familiares das vítimas e aos feridos.
O Ministério da Juventude e Desportos, na altura sob comando de Gonçalves Muandumba, solicitou à Federação Angolana de Futebol, à APF local e às autoridades da província do Uíge que tomassem as medidas necessárias, para se encontrarem os culpados. A investigação estava a ser coordenada pela delegação provincial do Ministério do Interior.
Na altura, o presidente do Santa Rita, Pedro Nzolonzi, atribuiu as culpas à polícia pela tragédia.
“Ocorreu um erro grave da polícia, ao deixar a população aproximar-se do campo. Muitos não queriam pagar e os que tinham bilhete não conseguiam entrar. Depois gerou-se a confusão”, explicou na altura o dirigente.
A verdade é que até hoje, nem água vai nem água vem. O caso está guardado a sete chaves nas gavetas. Ninguém se pronuncia sobre o resultado do inquérito mandado instaurar pelo então mais alto responsável da Nação.
Qual o actual estado de espírito das famílias, que viram os seus filhos morrerem de forma trágica? Pessoas que procuraram por todos os meios assistir à estreia oficial do seu representante na maior prova futebolística do país, depois da província ficar muitos anos de fora!
O silêncio das nossas autoridades constitui um escândalo. É o reflexo, a afirmação e a certidão de impunidade que normalmente ocorre no país. É inconcebível, diga-se em abono da verdade. Onde está, pergunto eu, a dificuldade de levar alguém à barra do Tribunal? Isso, é lamentável. É por assim dizer, um atestado de falência completa da investigação.
Temos de pensar qual a importância do crime que aconteceu, que tirou a vida a 17 pessoas. Penso mesmo que dentre os feridos, alguns devem ter traumas para o resto da vida. Tudo isto revela incompetência das autoridades nacionais nas investigações.
É muito triste que até hoje, não haja qualquer resultado das investigações feitas, principalmente, se compararmos com outros países. Na Inglaterra, por exemplo, apenas 5 por cento dos casos similares não são elucidados, e nos Estados Unidos 70 por cento desses crimes são elucidados. Poderá dizer-se que são situações diferentes. Compreendo. O que não compreendo é o porquê do resultado das investigações continuar fechado a sete chaves.
Na hora do infortúnio, muitos oganismos endereçaram condolências, como a UEFA, Real Federação Espanhola de Futebol, equipas portuguesas e distintas personalidades mundiais, como o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.
O futebol é para se divertir, mas muitas das vezes a diversão, infelizmente, acaba em dor, como aconteceu no passado dia 10 de Fevereiro de 2017, na cidade do Uíge. Um acidente que deve ser encarado como a gota d´água, para que os problemas com o futebol sejam resolvidos.
POLICARPO DA ROSA

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