Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Treinadores e o desemprego

16 de Fevereiro, 2016
Confesso à partida que abomino a xenofobia, pois considero-me um cidadão do mundo, sem qualquer obrigação de viver ou trabalhar no lugar em que um dia vislumbrei o primeiro raio solar. Mais do que isso, entendo que as necessidades vitais levam o homem a desbravar caminhos para diferentes lugares da geografia planetária, sendo quase uma realidade que país algum se desenvolveu contando apenas com a mão de obra dos seus nativos.

O mundo desportivo dá-nos, desde já, esta realidade, bastando para o efeito, olhar para a legião de atletas que representam emblemas de outros países e de treinadores que se sentam nos bancos de clubes de países distantes do seu. Tenho vindo a dizer que o desporto deve ser entendido como um Estado à parte, com uma bandeira, um hino e uma língua comum.

Entretanto, nesta política de abertura para estrangeiros impõe-se sempre algumas regras, não sendo sem razão que os grandes clubes pelo mundo definem o número limite de atletas forasteiros a inscrever por época e quantos devem alinhar em regime de simultaneidade. Quanto a treinadores até onde vai o meu conhecimento não existem limites, sendo de todo pacífico aceitar-se que 70 porcento de equipas num campeonato tenham no banco técnicos estrangeiros.

Entendo, de resto, que o aumento ou a redução de técnicos estrangeiros num campeonato, e aqui se calhar convirá falar mesmo do nosso, é regulado pela necessidade e pela capacidade financeira dos próprios clubes ou federações. Desde que acharem que pelos objectivos competitivos definidos a aposta deve passar por um técnico brasileiro, sérvio ou croata e o cofre estiver a altura.

É certo que este procedimento tem um quê negativo, que consiste na criação de desemprego aos técnicos nacionais, muitos destes com comprovada maturidade profissional, superando em muitos casos alguns colegas seus idos de outras paragens, contratados à custa de avultadas somas em dinheiro. E o que se está a passar por exemplo no nosso desporto, no futebol no caso particular, é uma espécie de subaproveitamento dos técnicos nacionais.

É inconcebível que jovens treinadores como Mário Calado, Agostinho Tramagal, Ernesto Castanheira estejam fora de competição. A estes podemos juntar outros como Arnaldo Chaves, Napoleão Brandão, Rui Teixeira, António Lopes Chiby, Joka Santinho que, desencorajados pela incongruência do mercado há muito abraçaram outros ofícios.

É que neste andar muitos técnicos nacionais, que à expensas próprias se esmeram em ampliar os seus conhecimentos, podem cair em desânimo, certos que o diploma que vão à busca mais não servirá senão para enfeitar a gaveta. Enfim, a classe está entregue à sua sorte. A última acção formativa custeada pelo Estado, de que estou lembrado, foi a que nos meados dos anos 80 levou a Leipzig(Alemanha Democrática), quando o muro de Berlim ainda se mantinha firme e esguio, uma catadupa de jovens, entre eles Joka Santinho, Arlindo Leitão, Pedro Garcia, Nando Jordão, Rui Teixeira e outros tantos.

Não havendo mais acções formativas orientadas, já que quem se forma individualmente precisa dos media para se fazer ouvir e conhecer ao mercado, os clubes hão-de continuar a apostar no mercado externo para as suas equipas e o Girabola há-de continuar a ser multilingue. Na verdade, o gráfico subiu exponencialmente nos últimos anos. Nos primórdios do anos 80 técnicos estrangeiros contavam-se aos dedos da mão no nosso campeonato, sendo por isso que continuamos, volvidas três décadas, a reter na memória nomes como de Mário Imbeloni, Skorick, Eduardo Gonzales, Ruben Garcia, Petar Kzernevich, António Clemente e outros.

Mas também concorre para este cenário uma preferência, quase doentia, de certos clubes e federações por técnicos estrangeiros, numa exposição da sua saudável capacidade financeira, como que passando a mensagem de que técnico nacional é para clubes ou federações de menor grandeza, quando, paradoxalmente, as estatísticas, sobretudo a nível de selecções, colocam os nacionais como aqueles que melhores classificações nos brindaram até à presente data.
Matias Adriano

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