Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Tributo aos nossos heris

05 de Setembro, 2013
Vem de há muito o carinho dos angolanos aos seus heróis. As recepções apoteóticas no aeroporto de Luanda datam dos anos 70. Devo estar lembrado de que a primeira grande manifestação de recepção ocorreu em Janeiro de 1975, tributada ao então primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, no seu regresso do exílio para se dedicar de forma mais firme à causa do seu povo.

Não estive presente a esse acto de massas. Na época integrava a criançada que, longe das convulsões que o país registava, se contentava com o jogo da bola de trapos no areal ao meio dia e com outras brincadeiras da idade. Mas educados de outra maneira, sabíamos prestar atenção àquilo que os pais falavam. Sei que lá ao grande musseque chegou a fama de como Neto tinha sido recebido e as fotos que nos dias seguintes ilustravam os jornais falavam por si.

Sete anos mais tarde, em 1982, os caminhos que levam ao Aeroporto 4 de Fevereiro voltavam a estreitar. Numa noite de estrelas, Luanda inteira movimentou-se para tributar calorosa recepção à selecção júnior de basquetebol, que em Maputo tinha conquistado o segundo título consecutivo, depois do Luanda'80. Aí sim, já estive presente, mesmo fugido de casa.

Numa época em que não se falava em engarrafamentos, poucos conseguiam atingir a Revolução de Outubro com as respectivas viaturas. Era gente a mais, a ponto de Gil Tomás, repórter ao serviço do Jornal de Angola, ter considerado aquela recepção como tendo superado em termos de adesão da população a da chegada ao país de Agostinho Neto. Assim mesmo escreveu na edição do dia seguinte o matutino oficial.

Na verdade, os heróis de Maputo eram merecedores daquele banho de carinho. Durante os dias da competição, só com transmissão radiofónica, por a televisão ainda não estar desenvolvida como nos dias de hoje, Lapa, Amaral Aleixo, Jean-Jacques da Conceição, Matamba, José Carlos, Kayaya e outros levaram Angola a render-se ao fascínio da sua exibição. Até músicos ganharam inspiração artística, e Dionísio Rocha cantou o "meu pequeno leão".

E desde então foi sempre assim. Umas vezes com o basquetebol outras com o andebol, as modalidades mais ganhadoras do nosso desporto. Os hendecacampeões, já nos levaram ao aeroporto de Luanda, oito vezes, pois dos onze títulos que ostentam no seu palmarés apenas três foram ganhos em casa. E a última vez foi domingo, quando o "cinco" nacional desembarcou de Abidjan de ouro ao peito.

Foi de facto uma recepção à dimensão de verdadeiros campeões. Mais uma vez, Luanda, em representação do país inteiro, esteve na recepção dos bravos rapazes que, na Costa do Marfim, vincaram a sua classe para cumprir à letra aquilo que era a missão de Angola. Em causa estava o resgate do título que tinha escapado em 2011 em Madagáscar. E assim foi.

Por tudo isso, a nossa selecção foi merecedora daquele banho de carinho. Ainda que a consciência nos diga que eles mereciam muito mais. Mas o povo esteve lá e voltou a manifestar o seu carinho por esta selecção, tida por muitos como a fonte de orgulho desportivo de todos os angolanos. Vamos esperar que o trabalho continue com o mesmo vigor e no mundial possamos fazer valer a nossa condição de campeões de África.
Matias Adriano

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