Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Trocar reticncias pelo que faltava dizer

15 de Novembro, 2018
Regresso às reticências deixadas no meu último texto “Demo branco e nossos Pelé com muleta”, para trazer à estampa aquela continuação que havia faltado. O tema continua a ser o nosso ‘Panteão’ oficioso do desporto.
Nunca haverá um panteão sem nexo com a história. Igual merecimento de reconhecimento público teriam hoje todos os fundadores da nossa felicidade desportiva que haja sido banhada de ouro. Duas galerias cheia de comprovativos têm duas modalidades e dois clubes, nomeadamente o andebol e o basquetebol, o Petro de Luanda e o Primeiro de Agosto.
Mas não só o panteão, nem o andebol e o basquetebol, resumem as nossas conquistas desportivas. Sob auspícios do MINJUD ou do COA, é tempo de haver na Galeria dos Desportos um átrio da fama, como é conhecido o ‘Hall Of Fame’do cinema e show-business em geral, incluindo grandes nomes do desporto americano e do atletismo, basquetebol, beisebol e futebol americano (diferente do soccer).
Em Angola, do atletismo ao xadrez, o nosso abecedário desportivo tem demasiados nomes de pilares e obreiros deste desporto angolano e que já se jubilaram sem a menor deferência pública para com os mesmos, nem já uma menção honrosa para emoldurar e pendurar na parede de casa.
Quando domingo – e eu comentaria na segunda-feira – se exaltava a Victorino Cunha, por exemplo, eu não poderia ter deixado passar aqueles outros treinadores que também merecem algum reconhecimento mesmo ficando fora deste primeiro escalão da nossa história desportiva. E fi-lo, como já deve ter lido. Arlindo Macedo
Foi na parte dos atletas, que o meu texto publicado se ficava por ‘Akwá’, com reticências porque haviam mais. Para mim, a par da grandiosidade do ‘pai do golo’ é preciso não esquecer a outros nossos ‘marcos históricos’ do desporto como aqueles nossos primeiros quatro mosqueteiros pioneiros do desporto angolano de alto rendimento e que, além das mostras, deram provas com os primeiros títulos continentais de andebol e basquetebol.
É, dito por ordem alfabética, de antigos ‘craques’como Fábia Raposo (andebol), Jean-Jacques Conceição, José Carlos Guimarães (ambos, basquetebol) e Palmira Barbosa (andebol), que faltava falar. E quantos outros dessa geração pioneira, mas também a nossa mais galardoada, vão ficar ainda por se dizer...
Ainda quanto ao icónico futebolista, Fabrice Maieco, aliás ‘Akwá’, o seu nome fica memorável por nos ter posto no torneio mundial que mais importa (e é minha esta conclusão). Se estiver a exagerar por excesso ou por defeito, apenas direi que é o que os factos me dão a ver e perceber.
Quando eu analiso os principais laureados do desportos – Victorino Cunha e Fabrice Maieco – ou vejo basquetebol dum lado, futebol do outro; ou noto a exaltação de um
treinador e a de um atleta (ou então de um seleccionador e um capitão) como sendo eles o ‘top nacional’.
De resto, mesmo não conhecendo o regulamento, nem critérios de selecção, ressalta que tal como um indulto, também uma comenda é prerrogativa presidencial; e homenagens recebem-se por cortesia e não se declinam, nem se discutem. O talento, como o mérito, não se mede ou compara; apenas se nota porque ressalta do demais.
Assim e certamente por um século ou mais de memória – é preciso começar-se a escrever uma história definitiva da independência e da Nação - o nome ‘Akwá’ ficará associado à lembrança do nosso único Mundial FIFA. Acredito ter sido, depois da independência, o primeiro de vários episódios da história mais presenciados pelas quatro gerações do país ao mesmo tempo: pais, filhos, netos e bisnetos juntos a verem lá em casa no camarote.
Mesmo quando se quer dividir a proeza contabilizando a assistência de Zé Kalanga, após fuga isolada pela direita e cruzamento para a área, ainda assim, para a História, o pai do golo foi ‘Akwá’.
Foi a epítome – resumo que consubstancia a obra - e também corolário para a curta carreira do menino tardiamente descoberto em Benguela para o futebol profissional, que sonhava e chegou ao Benfica de Lisboa, mas já sem idade para margem de progressão, tendo escolhido o Qatar para uma carreira profissional. Até um dia, antes da Copa do Mundo de 2006, quando fora chamado pelos “Palancas Negras”. E não mais voltou...
O seu clube qatari multou-o e recorreu à FIFA por quebra de contrato, tendo pedido uma indemnização fixada em 250 mil dólares, quer até hoje não foi liquidada. Por um tempo, atleta e federação trocaram culpas, mas a mudança de inquilinos sucessivamente na FAF, levou o nosso ‘craque’ a estar presentemente banido do futebol, pela FIFA.
Nem na FAF pode ‘Akwá’ prestar-se a qualquer papel, de resto já hoje seria o embaixador do futebol angolano, sucedendo ao nosso maior futebolista de todos os tempos, velha glória, Joaquim Dinis ‘Brinca n’Areia’.
Antigo deputado, ‘Akwá’ volta a ter oportunidade para usar o resplandecimento de haver chegado ao nosso ‘Panteão’ pelo tapete vermelho do Palácio. Com este novo registo de notoriedade ele vai poder criar melhor empatias e sinergias para se livrar dessa multa. E fazer o que lhe falta, no futebol.
Em duas ocasiões, o Presidente da FAF fez a aproximação ao seu homólogo do Qatar e a última aconteceu em Junho, à margem do congresso da FIFA; e como resposta Artur Silva recebeu sempre o sorriso diplomático do qatari, mas nunca o perdão da dívida.
Seja como for, o nosso único Mundial FIFA tem mais obreiros para além do seleccionador e do capitão dos “Palancas Negras”; foi sobretudo um feito da união da nação, uma política realista e reconciliadora, e abrangência a toda uma geração excepcional de futebolistas naturais de Angola, mas que o país não consegue repetir.
Com ‘Akwá’ e daqui de casa estavam na mesma ribalta o Pedro Mantorras, Flávio Amado e Gilberto Silva, todos curiosamente vestidos de encarnado pelo Benfica de
Lisboa e Al-Ahly do Cairo, respectivamente. No entanto, o primeiro laureado internacional do nosso futebol, distinguido pela CAF em 2009 com o galardão de ‘Legend Award of African Football’(lenda do futebol africano, velha glória), foi o Osvaldo Saturnino Oliveira ‘Jesus’, distinção que o angolano dividiu com o malogrado jogador e seleccionador nigeriano, Stephen Keshi.
Quando exaltarmos o futebol, ou a futebolistas, devemos ater-nos a um critério, a origem e nacionalidade. E só me referi a futebol porque exceptuando poucos casos em andebol e basquetebol, é onde Angola sempre teve activos desportivos antes e depois da independência. Mas até o país se descomplexar do passado, não se sabia se angolanos eram todos os naturais de Angola, ou somente os naturais nela residentes.
Assim e seguindo a hipótese A do meu manual do reconhecimento, seria meu crime de lesa-majestade estar a falar-se de méritos e ao mesmo tempo, ignorar os grandes desportistas que foram Joaquim Dinis, Domingos Inguila, Rui Jordão (futebol), ou Jean-Jacques Conceição e Zé Carlos Guimarães (basquetebol), ou ainda as pioneiras Palmira e Fábia, que não só fundaram a hegemonia angolana do andebol africano feminino, como também emblematizaram a mulher angolana. Até então, a figura mais emblemática da emancipação eram mulheres-soldado guerrilheiras.
Todos os nomes antes mencionados formam parte da nossa memória colectiva porque são referências históricas máximas inapagáveis dos anais desportivos angolanos de todos os nossos tempos, do antes e do depois; e um povo não nasce com a sua independência política, mas com a sua própria existência. É uma experiência colectiva e terrena que fica indesmentível aos olhos de todos.
Assim e em relação ainda aos felizes e merecedores galardoados desportistas, para além dos casos de Demarte e do Onze angolano de futebol com muletas, apraz-me questionar a seguir se não caberia também ali no lanço dos campeões, aquele bi-campeão paralímpico, José Sayovo? A meu ver ele enquadra-se nas valências da categoria de feitos extraordinários, pois foi também por mais que uma vez ‘Rei’ de um desporto consagrado à escala do Planeta.
Angola tem mais campeões a recordar, entre paralímpicos, pan-africanos e africanos, em andebol, basquetebol, judo, tiro, vela e também em xadrez, nos dois sexos, cujos nomes são igualmente merecedores de honra, porém o país só tem agora um improvisado ‘panteão’ e falta-lhe ainda um ‘étrio da fama’.
Entretanto sabe-se que Demarte, tal como ‘Akwá’, está suspenso pela federação. O castigo data de Dezembro de 2017 e está relacionado com dopagem, devendo o campeão ser readmitido no circuito em finais de 2019. De Pena já era campeão do mundo desde 2014, cinturão que deteve até final do ano passado.
Outra questão que me suscitam as nomeações desportivas às comendas (ou nomeações às comendas desportivas?) valorizam um campeão olímpico, ou paralímpico, menos do que um campeão do mundo?
Seja como for, assim a eito e a olho nu, o desporto paralímpico em Angola continua a destacar-se. Será mesmo a nossa melhor representação nacional pluridisciplinar na actualidade. Para além disso fico também a indagar os meus botões se haverá razão
fisiológica do esforço ou genética da vida para me explicar porque somos tão pródigos a correr com guia e a jogar com muleta, mas não sem isso.
Será uma questão de talentos, de metodologia, de psicologia desportiva, ou algo de maior complexidade ainda? Para mim, isto merece um estudo aprofundado, pois, como diz o dito popular, embora muito se cite Miguel Unamuno como seu autor: “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem!”
Aí eu diria que “não há muitas diferenças entre os dois ‘atletismos’, nem os dois ‘futebóis’, mas que entre nós essas diferenças existem, sim”. Com tantos eventos que o MINJUD tem patrocinado para resolver crises como as do futebol jovem e do desporto escolar, que mesmo assim continuam, é o momento para sugerir uma mesa-redonda sobre os exemplos e lições do nosso desporto paralímpico, ao federado.
Finalmente vou colocar o ponto de interrogação no final do meu texto anterior, inadvertidamente impresso como ponto final. É que eu interrogava e não afirmava.
História não se faz por decreto, nem a fazem apenas instituições, nem vem exclusivamente em compêndios; a História fazem-na os homens com os seus feitos narrados e ainda por narrar, porém o Homem sempre usou sobretudo a oralidade e em particular a tradição oral como veículo e recipiente das (lendas e) narrativas da História. E só esta nos recordará daqui a cem, ou mil anos, e contará quem foram um dia Demarte, ‘Akwá’ ou Celestino (o MVP do mundial de futebol com muletas, sem desprimor do restante Onze, que não caberia se nomeasse um-por-um ).
Os nomes do desporto para o ‘Panteão’ consagram formal e oficialmente dimensão histórica a uns, sem conferi-la a outros. Assim, e também para nossa reflexão, deverá a nossa história continuar a ignorar a Demósthenes de Almeida, enquanto Cuba, país e revolução que tanto nos inspiram, festeja e comemora sem complexos a um argentinoErnesto ‘Che’ Guevara?

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