Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Um ano sem luxos

28 de Fevereiro, 2019
Após novo sorteio, a ‘Segundona’ vai ver a luz com 9 equipas. E assim foi melhor porque face aos nossos paradoxos deve sempre prevalecer um bom senso.
Se aqui seguir-se os regulamentos desportivos à risca não haverá algumas competições, por exemplo em futebol, onde uma maioria de clubes olha com pouca seriedade e determinação para o seu próprio futebol jovem. É norma que quem não estiver a competir nos escalões jovens fica impedido de participar nas competições nacionais seniores.
Mas se isto foi visto à lupa e pente fino hão-de ficar poucas equipas para a competição, daí ter que se fechar os olhos certas vezes em certas circunstâncias também, como é o caso do nosso desporto com problemas para arrancar numa data de províncias e sobretudo municípios onde se costumava jogar à bola, pelo menos.
A primeira questão é sabermos que é mau permitir que os clubes descurem a sua base desportiva piramidal, do mesmo modo que é paradoxal deixar-se participar na mesma para evitar deixar uma determinada província sem representante. E consequentemente ajudar a matar esse emblema e esse desporto no seio daquela comunidade e naquela região.
Assim os fiscais do sector estão num permanente dilema face ao paradoxo desportivo angolano, que existe em vários aspectos e nos vários planos. No plano legal temos uma lei de base do desporto que parece não estar feita para servir nos municípios e chegar ás comunidades; no plano administrativo sente-se pouca disponibilidade de verbas dos administradores para com o lazer da juventude da sua circunscrição.
Finalmente e no plano familiar há uma fractura cultural séria e que rompe com uma tradição da juventude angolana de um passado recente, certamente os avós e pais de hoje que podem ter igualmente perdido hábitos simples de vida e de lazer, como costumava ser o desporto na nossa sociedade.
Ora, no plano meramente relacional e inter-pessoal temos esta querela de gerações que muito de longe de ser a repetitiva rotina da geração dos mais velhos dizer para a dos mais novos que no tempo dos primeiros é que era, porém, os mais novos não estão a mostrar as suas valências na actualidade desportiva. Os jovens fazem hoje menos desporto, mas também há cada vez menos juventude federada nos nossos desportos, portanto e actualmente são os jovens os primeiros causadores do estado de desmobilização social para o desporto, e daí a sua pobreza actualmente.
Ainda assim, sente-se a falta de apelo dos clubes aos mais jovens do bairro e comunidade onde se inserem. Sem este acasalamento tardam em desenvolver-se as raízes do clubes e a nascer o desporto de formação desse clube e comunidade. E sem
essa base não haverá uma pirâmide desportiva sustentável nesse clube e nesse mesmo seu bairro e viveiro natural.
Infelizmente uma política assim não encontra activismo. Confesso que uma estrutura técnica competente no seio do órgão reitor do desporto haveria de contribuir para a acção que falta – a dum autêntico director nacional do desporto – em vez de um director nacional de políticas desportivas. É que até soa um pouco mal por causa de um ridículo de facto que é a inexpressão das políticas que haja num país em face do estado de coisas em que anda o desporto. E para ajudar, apertem-se os cintos que vai haver cortes!
Em suma, a gente é capaz de distorcer a norma, se necessário, só para acamar um certo interesse e o caso da ‘Segundona’ foi exemplificativo desta minha afirmação. Ao fazer um sorteio com 12 equipas inicialmente, das quais 7 presentes e 5 ausentes do acto, houve reclamação de uma parte das 7 equipas, que levou a repetir o sorteio. Das 5 ausentes, 3 não concluíram o processo, ficando em definitiva uma ‘Segundona’ a nove.
O curioso é que mais de 40 por cento dos participantes são da mesma província; habitualmente apuram-se para a ‘Segundona’ o campeão e ao campeão provincial. Ora, em 2017 e por razões aceites, o campeão e o sub-campeão de Benguela não participaram, e assim Benguela participa este ano com retroactivos e 4 clubes. Em teoria será o anunciado regresso em força de Benguela ao ‘Girabola’...
Proteger a expansão territorial do desporto foi uma variante usada pela FAF para quebrar a norma, de resto, um gesto que pode ter efeitos positivos sobre uma das obrigações que a federação também tem, que é o fomento e expansão da modalidade, e ponto.
Agora esperava-se mais firmeza do ministério da tutela, em relação à criação ou montagem da base da pirâmide desportiva – viveiro dos desportistas à nascença – em planos bienais, pelo menos, com os agentes desportivos e numa primeira fase de identificação, auscultação e arranque dos desportos feitos à medida do interesse despertado nas diferentes comunidades em que estão inseridos os clubes.
Um papel interessante sobretudo para as organizações juvenis e cristãs seria a de se tornarem embaixadores da educação física e desporto no seio da sociedade em geral e da juventude em particular, agindo com m papel de ‘activistas’ juvenis, que já são por essência das suas organizações, porém, dando um aumento substancial ao espectro da acção social educativa e motivadora que têm organizações como as dos movimentos escuteiros.
Hoje o nosso desporto estaria a dar bons rendimentos para Angola, se os agentes desportivos não se tivessem afastado das melhores práticas desportivas e organizacionais, e em vez disso, escolhido os objectivos principais longe da base social e geracional do clube. A cultura dos próprios clubes diminuiu e tem contribuído para se subentender o desporto angolano como sendo a soma do ‘ZAP Girabola’ ao ‘Unitel
Basket’ e, sempre que haja troco, ao andebol. Mas o resto, onde Angola tem um enorme potencial, é só vermos como se desperdiça e abandona.
Coxos como nos vejo, de ideias para pobrezinhos materiais, por vezes de espírito também, admito que venhamos a tropeçar nos nossos próprios imbróglios e, no último estágio dos nossos males desportivos, chocaremos de frente com os paradoxos da nossa vida desportiva.
Em sociedades tradicionais como a nossa, ou pelo menos de forte componente da tradição popular, o fazer-se desporto costumava ser muito mais do que jogar futebol em criança e adolescente. Assim e para os angolanos, em face do legado que recebemos, justifica a importância e necessidade de se ter uma base desportiva forte e feita do somatório daquilo que se faz nos clubes.
Assim e a par da prática que empobrece deveras, está-se também a apagar a cultura desportiva das gerações mais novas, pois não lhes é dada a oportunidade de entrarem para o mundo desportivo através da escola, ou do bairro organizado e um clube. Hoje a iniciação dos mais pequenos não passa da correria desenfreada e própria da idade, nem sempre educado por pessoal qualificado para dar à criança uma educação motora e proporcionar adiante a sequencial descoberta dos talentos para o desporto. E isso haveria de nos permitir saber tirar partido das excelentes condições naturais do nosso país que parecem ignoradas da maioria, mas que são deveras apreciadas no estrangeiro.
Todos nos recordamos do momento em que descobrimos que afinal temos em Angola miúdos com elevado potencial para praticar a canoagem, contudo, nas regiões de rápidos do interior planáltico de Angola há requisitos para esse desporto e outros radicais, como por exemplo o rally-cross para veículos todo-terreno ou 4x4, que já foi um desejo dos organizadores da competição Camel Trophy, porém deu eu nada.
Sempre que viaja para Luanda, um piloto de uma companhia traz a sua própria prancha de surf, contando que nas Palmeirinhas ou dali perto há uma das melhores ondas de que se pode falar no mundo; alegadamente pela mesma razão, já surfistas sul-africanos haviam estado ali. Ora, um potencial assim turístico também é de ajudar o desporto recíprocamente e através da formação de novas colónias balneares, para além de revitalização das actuais, elevar a adesão dos jovens aos desportos de mar, aquáticos e náuticos.
Porém e mais uma vez haveríamos de ser barrados neste raciocínio pelo facto de nem sempre parecer que os nossos actos seguem as nossas palavras quando falamos em necessidade de incentivar o turismo para aumentar as receitas cambiais do país, mas também é importante as receitas em moeda nacional graças ao turismo interno. Por exemplo, promovendo acampamentos jovens e festivais de praia ou de mar, com desporto na ementa.
Ainda não somos um país propenso a dar com facilidade um visto turístico. Nunca é demais recordar que no maior evento desportivo organizado em Angola, o CAN de 2010, o país deu férias consulares colectivas na quadra natalícia e da festa da família, portanto entre Dezembro e Janeiro, que era precisamente o período maciço dos pedidos de visto de entrada em Angola para acompanhar a sua selecção ou vir simplesmente ver o futebol.
Claro está, para recordação ficaram as imagens de um CAN angolano atípico porque às moscas, à excepção dos jogos da equipa da casa, quando por hábito os CAN têm sido uma festa internacional do futebol, para além do torneio em si. Mas não era o maior, nem o pior dos nossos paradoxos desportivos.
Uma das jóias da nossa natureza é a natureza baixa e arenosa da nossa extensa costa com baías e enseadas e uma corrente marinha fria que nos traz um fauna de peixes dos mais procurados, contudo e sem ser na água, a nossa costa dá-nos muito terreno para andebol de praia, futebol de praia, voleibol de praia, mas é um debalde. Tanto mais que a maioria dos nossos jovens habitantes do litoral até nem sabe nadar.
A República de Angola tem pelo menos oito grandes colónias balneares (Cabinda, Soyo, Luanda, Porto Amboim, Sumbe, Lobito, Benguela e Namibe), que são cidades de mar, porém sem visíveis hábitos desportivos de natação. E historicamente Angola é um país de campeões natos em desportos aquáticos. Havia renhidas competições entre clubes de remo e de vela de Benguela, Lobito, Luanda e Namibe, praias que não morreram, mas donde parece que se afastaram os entusiastas que levavam a juventude a ser mais desportista.
A nossa falta de iniciativa hoje é já pré-doentia e ela esconde uma questão mais séria e grave que é a falta de atitude social. E num ano com menos uma terça parte do dinheiro, desbloqueado só em Março, acredito que se volta a repetir a nossa velha ópera social angolana intitulada “Ter Padrinhos Na Cozinha”, a que os principais emblemas e modalidades sempre assistem do camarote reservado a 3 modalidade e a 5 clubes, do total de um universo imenso do desporto angolano a esmorecer a olhos vistos.

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