Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Um Girabola de choros...

29 de Julho, 2016
Soe dizer-se que cada caso é um caso. No percurso histórico do Girabola, que remonta do longínquo 8 de Dezembro de 1979 aos nossos dias, muita coisa nos foi dado a ver. Do normal ao insólito, do ruim ao prazenteiro, mas situações que sempre acabaram entendidas como ingredientes propícios a tornar a compita suculenta.

Já tivemos edições que foram para além de um ano de disputa, qual maratona, como decorrência da situação menos boa que o país conheceu e que dificultava grandemente a locomoção das equipas, dando lugar a terríveis "engarrafamentos" de jogos em atraso. Já tivemos igualmente equipas desqualificadas na secretaria e outros quejandos.

Agora que nos vimos envolvidos pelos tentáculos da famigerada crise económica, cruzamos perante um Girabola cujo desfecho, fora dos contornos meramente competitivos, ninguém está em condições de prever. Vai terminar em data prevista? Vai terminar com o mesmo número de equipas? Eis o cerne da questão. Desde já pairam no ar indícios de algumas convulsões.

Pelos vistos está tudo desajeitado. Não seria nenhum desatino chamar esta edição por "Girabola de choros", porque a crise parece estar generalizada. Choram os clubes, choram os treinadores, choram os árbitros, enfim o mundo inteiro desacatou em gritaria, e o lema parece ser "salve-se quem poder" .

Cada dia é uma equipa que vem a público anunciar o esvaziamento dos seus cofres, como consequência da falta de apoios e a retirada ou desistência da prova vem a seguir como saída encontrada. Assim foi com o Porcelana do Cuanza Norte, foi com o 4 de Abril do Cuando Cubango e está a ser com o Atlético Sport Aviacao-ASA.

Se ameaçar a desistência é a forma estratégica que as equipas encontraram para exercer alguma pressão sobre os seus patrocinadores oficiais não se sabe ao certo. Mas o que é facto é que a situação acaba sempre por causar algum desconforto, não só à FAF como entidade organizadora, como também aos outros concorrentes, já que o regulamento prevê a anulação dos pontos obtidos com equipa desistente.

Paira o receio de que o segundo turno da prova venha conhecer muitas convulsões. Pode ser que as equipas em situação de grave aperto financeiro, as tantas venham mesmo a jogar a toalha ao tapete, e a prova se veja na contingência de fazer arranjos que se impõem para dar seguimento.

O caso parece não estar para menos. O cenário pode acabar por desencorajar recandidatura ou candidaturas para cargos directivos, num ano olímpico que se recomenda renovação de mandatos nos clubes, associações e federações.

Aliás, a situação já saiu do âmbito de clubes para abarcar também a Federação Angolana de Futebol, que parece estar em falta com os árbitros, amaçando estes boicotar as próximas jornadas, caso não vejam os bolsos aliviados. É caso para dizer que a competição vai de tanga e trajos decentes precisam-se para reaver o ego que lhe é característico.

Se calhar, devemos fazer apelo aos dirigentes desportivos para uma política de gestão mais harmonizada, que preveja os prós e os contras de cada estratégia gizada. Ou seja, viver de acordo à sua capacidade. Um Porcelana, por exemplo, não pode pagar como prémio de jogo o mesmo que para o Petro ou o Libolo. Deve ajustar as coisas ao seu nível, com a sua realidade. Fora disso não há como evitar um Girabola inundado de lágrimas, onde todos, até o apanha-bolas, choram...

Matias Adriano

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