Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Um passo frente, dois atrs...

19 de Abril, 2018
Angola marcha na cauda do cumprimento pelos clubes, de dois pressupostos que desde 2005 fazem parte do plano de desenvolvimento dos clubes, lançado pela CAF. Avessos a auditorias por via de regra, os emblemas angolanos não estão a cumprir na íntegra quando não tiverem todos os escalões principais activos de facto, e enquanto não auditarem as contas.
“Andei nos subúrbios de Luanda, onde julgava que as pessoas estavam abandonadas, mas, eles mesmo se surpreenderam que o presidente da federação de angolana lhes havia levado visitas e benévolos que amam as pessoas e o futebol. Os voluntários e crianças e mesmo os moradores do bairro ficaram surpreendidos, contentes e felizes, mas, os mais felizes éramos nós, eu e Diouf, porque nesta viagem haviam-nos levado ali onde queríamos estar, que era onde a costela solidária do presidente da FAF nos havia escolhido levar”, disse Antoine Bell, o antigo craque camaronês que nos anos 90 defendeu em Luanda a baliza dos Leões Indomáveis e do Canon de Yaoundé.
Realmente, nas comunidades, sente-se pouco o futebol e isso é sinal de que outros desportos serão ainda mais inacessíveis ali, onde tantos craques em potência devem nascer, crescer e morrer. As poucas iniciativas que se vê, têm pouco do esforço da comunidade e lamentavelmente estas vivem afoitas mais na sobrevivência do dia-a-dia, do que atentas ao desenvolvimento do bem comum.
Ainda hoje se debate o espaço sobre a massificação e os clubes, o papel da sociedade civil e o das federações, sendo o ponto da situação o de que nos encontramos em terra de ninguém. Vazia de iniciativas e pobre de ímpeto, aos poucos a sociedade angolana reflecte a educação civil que teve, a qual presumia que o Estado era quem se ocupava de tudo.
A realidade é bem diferente e foi mais rápido, e fácil, destruir as bases, do que criar novas. As novas bases do desporto angolano são uma data de papelada e de normas que, na prática, está visto no que deu. O imobilismo é hoje flagrante nas instituições e o desporto não representa infelizmente uma excepção, tirando uma ou outra modalidade, um ou outro clube, que fazem realmente por se ver o que fazem.
“Sentimos que a federação se está a ocupar dos que são mais pequenos, vimos clubes que se estão a organizar para enquadrar mais rapazes e raparigas”, felicitou-se na mesma ocasião o senegalês El Hadji Diouf. “Recordo que hoje tenho uma família também angolana, o meu pai casou-se com uma angolana e agora já tenho duas irmãs, mas tenho também aqui muitos amigos, incluindo jogadores como Flávio, Gilberto, Manucho, então eu estou bem, mesmo se por vezes recordo que em Tamale (CAN Gana’2008) foi Angola quem eliminou o Senegal. Sou sobretudo um homem que gosta do futebol jovem e gostei de visitar em Luanda duas academias dirigidas por dois generais e que são uma imagem correcta de como o futebol deve ser feito”, enfatizou o antigo matador dos Leões de Teranga, Blackburn Rovers, Bolton, Leeds, Liverpool, Sunderland todos da Inglaterra, Rangers da Escócia, Sochaux e Rennes da França.
Para os mais novos, Bell preferiu deixar o exemplo da sua própria retrospectiva de vida e carreira. “Da mesma forma que não me satisfazia apenas por ser o melhor guarda-redes da minha aldeia, ou dos Camarões, eu queria ser o melhor numa dimensão internacional, então não fui apenas o primeiro negro guarda-redes em França, mas também o capitão da minha equipa, Marselha, e ainda considerado o melhor guarda-redes do campeonato, o que para mim era uma ambição”, confessa o sucessor do grande Thomas Nkono, um dos melhores guarda-redes de todos os tempos em África, que nos anos 80 também pisou palcos de Angola.
A visita aos subúrbios de Luanda com dois dos mais brilhantes futebolistas africanos das últimas décadas foi tal e qual como os “fast filmes” nigerianos, feitos tal e qual como a rua lamacenta estiver. O ‘tour’ oferecido aos embaixadores do futebol africano englobou a Escola de bairro “Futebol do Tio Nandinho”, no Zango Um, a equipa privada “Estevada Futebol Clube”, do Cariango, nos Curtumes do Cazenga, e por último as academias Interclube, Primeiro de Agosto e AFA.
A primeira boa nota para o futebol angolano é o namoro da FAF ao antigo metodólogo da AFA, Ramon Alturo, responsável pela metodologia de treinamento e possuidor de todas as qualificações necessárias incluindo a licença Pro da UEFA, de quem é também instrutor, para apoiar o futebol de formação e as selecções jovens. É de recordar que sem fazer publicidade disso, a AFA tem hoje angolanos juniores a aprimorar-se na Espanha, para além de dominar consequentemente torneios internacionais de futebol jovem de Sete.
Alturo vai chegar à FAF numa altura em que foi montada uma intriga no rumor de que Love Kabungula era o novo seleccionador de Sub-17, deixando destroçado o Professor Languinha, porém, a verdade é que este não foi exonerado, apenas o seu contrato terminou em Dezembro último.
O desporto jovem de Angola requer um comando único nos clubes e federações, estabelecendo por prioridade um grupo de Sub-15, ao mesmo tempo que monta outro de Sub-13, garantindo sucessivamente o crescimento do desporto jovem no clube e na comunidade. Então, um director técnico deve coordenar os escalões jovens (Sub-15, Sub-17 e Sub-19 ou 20), assumindo por princípio o papel executivo do seleccionador misto, no caso duma federação, ou de treinador-principal, no caso de um clube, sendo os seus coadjuvantes aqueles que com regularidade preparam a equipa segundo parâmetros e paradigmas definidos pelo primeiro.
Será este o caminho da FAF? E da FAB? E da FAAN?
No dia em que um clube adoptar uma filosofia transversalmente, o desporto vai poder evoluir de forma mais igualizada ao invés de haver ilhas dentro dum clube. E quando os clubes forem menos do futebol do que são, acredito que os orçamentos vão poder relançar a formação como deve ser. Clubes há com essa tradição e que morreram
porque uns e outros pouco se importaram que assim fosse. Será o caso do Vila? O CDUA parece ter ganho segunda vida, mas os clubes tradicionais também estão a morrer.
A questão era e continua a ser que o desporto não está a descer às raízes e tem-se desperdiçado um potencial provavelmente de muito talento com todos os jovens que queimam etapas e crescem ser ter podido experimentar fazer desporto porque este simplesmente não existia à farta... em Angola.
Não só falta vitalidade às políticas sócio-desportivas, como o próprio ministério se tornou um peso demasiado mórbido para o desporto que se precisa e devia começar por um director nacional do desporto a sério. E uma equipa ministerial demonstrativa de ser mais a sério ainda.
A última acção de vandalização dos bons costumes em que cresce o ‘fairplay’ foi consumada com a expulsão do departamento das selecções de futebol e da associação de treinadores e da associação de árbitros, dos gabinetes anexos que ocupavam no espaço outrora ocupado pela FAF e em que há ainda material do passivo que, no caso do Conselho Técnico da federação, coloca em risco muita coisa. Mas foi assim, sem quê e nem mais. E as coisas não acontecem assim e se mantêm sem haver por detrás delas, força. Força para despejar e força para ocupar.
Veio esse episódio ainda com rios de tinta para correr, certeza garantida pelo estilo com que se está a dirigir cada vez mais o desporto angolano, fazendo das infraestruturas a coutada mais apetecida, quando esse apego devia ser de todos com as selecções nacionais. Contudo é consabido quando por baixo tem andado o nosso patriotismo desde que as famílias, e até a do desporto, andam afoitas ou a tentar sobreviver, ou em “business”...
Vamos, então, terminar esta abordagem de hoje. O que é que os outros vêem, que nós não conseguimos ver?
“O que vi em Angola foi extraordinário, têm instalações, infraestruturas, têm dirigentes com visão, são pessoas rigorosas, profissionais, ambiciosas e que têm os seus objectivos, e quando falamos de forças armadas vemos excelência, por isso gostei muito do que vi no Primeiro de Agosto e no Interclube, pois, a seguir merece que eu regresse e diga a alguns dirigentes desportivos lá do meu país, Senegal, que deviam vir ver o que se está a fazer em Angola”, disse Diouf abertamente.
“O que encontrei nas favelas, vi e ouvi, pode fazer de quem começa na tenra idade, os campeões do amanhã. São estas crianças desfavorecidas que devem ser levadas para os centros de formação. E daqui a dez, quinze anos, poderemos começar a ver os angolanos a singrar entre os melhores, pois, só falta a formação para dar um toque no futebol angolano”, analisou El Hadji Diouf, para minha satisfação pessoal. Sempre achei que Angola é daqueles países onde é preciso as dicas virem de fora...
Recentemente outros estrangeiros, entre nós, interrogaram-se por que em Angola não há “9’s”. Ainda assim houve ganhos, joga-se actualmente melhor os 90 minutos do que há vinte anos atrás, porém, continuam as mais das vezes, dez atrás da linha da bola. E depois, claro, ainda nos faltam avançados-centro.
Pois é, ninguém pode ter o que não cria. O desporto angolano tem formigas e cigarras, porém, assim que a formiga obtém uma mais-valia, a cigarra canta mais alto e apodera-se. Há cigarras cujo poder financeiro está a acabar com a comida das formigas, sendo importante reverter a fábula no desporto, valorizando realmente o trabalho das formigas a partir da fase jovem da competição, permitindo inclusive que mais clubes jovens novos se afirmem, ao invés de serem asfixiados ou simplesmente enxugados do futebol, porque os grandes lhes ficaram com as principais promessas.
O desporto angolano precisa de adoptar um código segundo o qual os jogadores jovens sejam crias que não possam ser arrancadas dos pais antes da maioridade, sendo imperativo adoptar isto para potenciar clubes e equipas jovens, bem como a competição deles por muitos mais jogos e semanas de temporada.
A falta de protecção dos clubes pequenos, a rapina dos seus talentos jovens antes da maioridade, deviam ser objecto de um código desportivo legal, só sendo possível negociar passes mediante condições que protegessem os ganhos do jovem e sua família para assegurar os seus estudos e ganhos sucessivos, consoante os trespasses que a sua licença obtiver, ressarcindo numa percentagem justa o clube formador. E estas políticas não acontecem sem que também nos seja dada alguma explicação ou justificação, continuando a morrer o desporto de bairro e a base desportiva real de Angola.
“Sempre que se fala do futebol africano, fala-se dos Camarões, Nigéria, Senegal, Cote d’Ivoire, Gana, mas nenhum desses campeonatos é tão falado quanto o angolano”, admite Diouf. “Os países não estão organizados como Angola, mas aqui também não ganham, então aqui têm um problema, por isso disse ao presidente da federação, - eu estou aqui, ofereço os meus préstimos, pois, tendes tudo e se não ganhais, há um problema. Eu aposto sobretudo na formação”, insistiu Diouf.
“Há quinze anos, digam o nome de um craque africano que não tenha passado por um centro de formação, uma escoa de formação, é impossível, há quinze anos. Se Angola foi ao Mundal de 2006 e não voltaram lá, estiveram no top em 2006 e não estão mais lá, então são as equipas de base que vingam, de formas que se continuarem a fazer este trabalho de base, daqui a 15 anos também podereis estar ao nível daqueles países, fazendo que as crianças ganhem essa dinâmica, pois, o futebol é sobretudo educação.
“França, Alemanha, ganharam os seus mundiais porque têm essa organização de base. Ir ao Mundial e 15 anos depois mais nada, foi o mesmo que o Senegal, quando primeiro foi ao mundial em 2002 e não voltou mais lá, então, é como eu vos alerto, porque fui jogador, hoje sou empreendedor no futebol”, concluiu o antigo craque do Senegal. Quinze anos depois, ainda era preciso nos virem dizer e termos de ouvir isso?
ARLINDO MACEDO

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