Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Um tema discutvel

31 de Maio, 2016
Tem o nosso futebol um modelo de jogo próprio? Este é um caso que num passado não muito longínquo levantou celeuma entre os entendidos em matéria, desencontrados nos seus argumentos que dessem alguma sustentabilidade à polémica tese. Mas por entre toda a discussão o certo é que o nosso futebol, pelo menos na era Girabola, nunca teve padrão definido.

Sabe-se, por exemplo, que os clubes ganenses e a própria selecção têm um modelo de jogo que se compara ao brasileiro, assente num futebol de troca de passes curtos e rápidos. O italiano revela uma propensão defensiva que combina com saídas rápidas para o contra-ataque, Alemanha, Holanda e Dinamarca têm um jogo veloz, combinado com cruzamentos venenosos.

A olhar para o universo de países que praticam futebol à escala planetária quantos modelos de futebol seriam precisos? Aliás, os países que citei não cultivaram hoje o seu estilo de jogo. Ele é secular, vem de há séculos. Cultiva-se a partir dos escalões de base dos clubes e influencia de alguma forma ou de outra o esquema das próprias selecções.

Logo, não é o nosso caso. Até podíamos evoluir para ai se fossemos capazes de conservar a nossa cultura desportiva. Se se verificasse alguma vitalidade das escolas de formação como já foi em certa época. Feito o nosso futebol como é feito, quase que de forma improvisada, em que os jogadores(nem todos) ascendem ao escalão superior cheios de defeitos de fábrica, fica difícil falar-se em modelos de jogo.

Outro problema que se põe é a diversidade de escolas no nosso futebol. Quando se tem professores angolanos, brasileiros, portugueses, croatas, sérvios por esta ordem, fica difícil a construção de um padrão uniforme de jogo para as equipas, porque ai estaremos a lidar com diferentes metodologias. Digo, por isso, que em mim nunca se encaixou e não se encaixa esta conversa de modelos de jogo.

Defendo à partida, um modelo de jogo para cada equipa, influenciada pelas características da sua escola, passando-se o mesmo quanto à selecção nacional, que saindo das mãos de um treinador croata não jogará da mesma forma se passada para um brasileiro. Ou estaremos a confundir futebol com a dança? Aliás, dizia mais atrás que os modelos são, em regra, seculares. O kizomba(Angola), o samba(no Brasil), tango(Argentina) salsa(América Latina) não foram inventadas hoje.

E mais: no caso de Angola será preciso reconhecer que o seu futebol sofreu, depois da ascensão do país à independência, influência de muitas escolas, bastando para tal olhar para a lista de treinadores que aqui já trabalharam e as suas respectivas nacionalidades. Isto aliás, vê-se a olho nu. O Petro de Luanda pode ser cá entre nós das poucas equipas com um padrão de jogo pouco alterável, porque desde António Clemente que, com um ou outro desvio, a sua aposta recaiu sempre à escola brasileira.

Com que modelo de jogo por exemplo se identifica o 1º de Agosto? Fica difícil uma resposta com alguma precisão, sendo uma equipa com preferência a várias escolas, bastando dar uma espreitadela à lista de treinadores que já teve e as suas respectivas nacionalidades.

Enfim, este é um tema que transcende a sapiência jornalística, mais do domínio de técnicos de futebol e de outros estudiosos. Seja como for, não é por falta de modelo de jogo definido que o nosso futebol está como está. Porque qualquer modelo é variável em função das características ofensivas e defensivas do adversário que defrontamos.

Matias Adriano

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