Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Um tributo para os ex-atletas

15 de Dezembro, 2018
Numa altura em que o país assinala mudanças profundas em vários domínios e, por conseguinte, fazendo ainda eco por cá o slogan “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, que virou moda no seio dos nossos compatriotas, há-de todo a premente necessidade de se resgatar a verdadeira identidade dos angolanos. Mas para tal é preciso ter em conta o facto de muitos dos filhos da nação que sacrificaram a sua juventude e que, em consequência disso, perderam a oportunidade de dar outro impulso na sua vida.
A guerra, que por quase três décadas imperou no país, foi dos factores que contribuiu, grandemente, para que muitos dos nossos concidadãos não conseguissem atingir o seu «el dourado», depois de anos à fio se dedicarem a causas nobres e a várias actividades.
Uma dessas actividades está, implicitamente, ligada ao desporto, que como algumas vezes se enfatizou em espaços de opinião deste título desportivo, em determinada época serviu como bálsamo para as asperezas da guerra.
E como consequência disso, muitos dos praticantes de desporto dessa época, que suavam a camisola e, sublinhe-se, sem qualquer contrapartida, quer em clubes lendários do país, quer nas Selecções Nacionais, hoje por hoje estão votados ao abandono.
É importante aqui lembrar que o faziam por simples amor à pátria e à camisola, como soe dizer-se, mas sem a devida recompensa.
Por arrasto, hoje estão confrontados com uma condição de vida que não se compadece com o papel que tiveram enquanto estavam no activo. Portanto, hoje não usufruem os proventos dos rendimentos do tempo em que estiveram no auge das suas carreiras.
No caso particular do fenómeno desportivo no país, à semelhança do que acontece com outras esferas da actividade laboral, o Estado deveria criar, igualmente, uma política para recompensar os ex-praticantes das diferentes modalidades.
Está claro que o sistema de segurança social no país é composto por um conjunto de pressupostos de carácter contribuitivo, como os de regime dos trabalhadores por conta de outrem, por conta própria, dos membros de confissões religiosas, mediante ao cumprimento de deveres e ao direito às prestações definidas por lei.
Por isso, é imperioso reconhecer, claro está, que os ex-atletas merecem também uma recompensa por tudo que fizeram, enquanto estiveram no activo, dado que a segurança social atenua os efeitos da redução dos rendimentos dos trabalhadores nas situações de falta ou diminuição da capacidade laboral, na velhice, no desemprego e em caso de morte, deve-se garantir a sobrevivência dos seus familiares. Isso é inequívoco.
Aliás, a segurança social é, geralmente, definida como a protecção que a sociedade proporciona aos seus membros, através de uma série de medidas públicas, que de uma e de outra forma podem ocorrer pela supressão ou redução substancial dos rendimentos, em consequência de doença, acidentes de trabalho, desemprego, mortes e outras causas. A segurança social é entendida, ainda, como uma protecção social obrigatória, circunscrita a uma realidade assumida pelo Estado, cuja importância incide em quatro vectores essenciais, no caso económico, social, jurídico e político.
Por essa razão, deve, indiscutivelmente, abrangir toda e qualquer esfera da actividade profissional. No caso específico do nosso desporto, é óbvio que essa recompensa resultaria da actividade exercida pelos antigos praticantes das diferentes modalidades dentro e fora das nossas fronteiras.
Numa entrevista publicada por este jornal em vésperas dos festejos dos 40 anos da Independência Nacional, assinalados a 11 de Novembro de 2015, o ex-futebolista angolano Joaquim Dinis “Brinca N’areia” manifestou a sua preocupação pelas dificuldades sociais que muitos ex-atletas vivem. Falando então na qualidade de presidente da Associação de Antigos Futebolistas de Angola referiu que a problemática dos ex-jogadores constava no rol das preocupações da instituição, para encontrar, assim, as formas de ajudar estas pessoas, que vivem imensas dificuldades.
A meu ver a posição assumida pelo ex-futebolista do Atlético Sport Aviação (ASA), do Sporting e FC Porto, estes dois últimos emblemas da Liga Portuguesa, deve fazer mossa no seio do nosso associativismo desportivo.
Digo isso por não ser justo permitir que muitos dos ex-praticantes das distintas modalidades, como é o caso de do próprio Joaquim Dinis e outros ícones do desporto angolano não usufruam nada por aquilo que fizeram em prol deste fenómeno no país.
Nessa senda há uma infinidade de nomes para recordar, como no futebol por exemplo, onde saltam à vista ex-glórias como os irmãos Laurindo e Jaime Chimalanga, Ndungidi, Jesus, João Machado, Napoleão, Kapelo, Rosinha, Vieira Dias, Mané, no basquetebol, Jean Jacques da Conceição, Sidrak, Gustavo, Zé Carlos Guimarães, Lutonda, no andebol Palmira Barbosa, no atletismo Ana Isabel, José Sayovo, entre outros.Nessa perspectiva o Estado, em parceria com as várias associações e federações desportivas, deveria traçar estratégias para a viabilidade deste processo, como forma de salvaguardar o futuro de muitos destes ex-atletas.
E a acontecer seria um grande tributo para os antigos desportistas. Na mesma proporção como acontece com profissionais das diferentes áreas, no desporto o ex-praticante de qualquer modalidade deve, após o fim da sua carreira, receber uma pensão para sua integridade, não só para salvaguarda da sua situação, mas como também dos membros da sua família, em caso de morte. O resto, como soe dizer-se, vem por acréscimo...
Sérgio V.Dias

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