Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Uma autoridade nacional dos desportos seria uma boa ideia (fim)

01 de Setembro, 2018
A AFA expandiu até Espanha o seu eixo, portanto, decolou daqui e só fez bem, pois, os frutos dela vão surgir e contribuir um dia para o país, como haveriam de contribuir muitos mais miúdos talentosos que Angola parece o único país africano que desperdiça – actualmente vários sul-americanos e, até, asiáticos fazem ‘scouting’ na Europa – a partir do momento em que um país não mais acompanha, nem arrebanha, os seus garotos e talentos expatriados.
São essas poucas, mas, substanciais diferenças de visão que demarcam o velho ‘Líder’, desta sua ‘jovem guarda’, a quem tem sido dado governar o desporto angolano nas últimas duas décadas. Partiram muita da lógica do que encontraram feito na nossa sociedade. É um facto que não se pode ficar sempre a viver do passado, mas seria mais lógico ainda, que se preservasse as obras. O desporto não foi excepção, infelizmente.
E regressamos com as mesmas figuras institucionais, feitas as despedidas ao ‘Presidente’, para continuarmos a falar do presente. E do futuro pensado primeiro. A teoria com que eu vinha a defender, ia nas prevalências de uma Alta Autoridade do Desporto, contraposta com modelo e peso do ministério e suas delegações provinciais e municipais, por um lado, enquanto, por outro lado, é difícil defender a continuação de um ministério como mais-valia para a gestão do desporto nacional.
Numa altura em que o Executivo está focado na feitura do próximo OGE, não seria má ideia livrar-se de um ministério do desporto e da juventude, por troca com uma agência especializada em desporto e inclusive da juventude; desta forma poder-se-ia fazer fomento da geração de emprego e capacitação de quadros entre os jovens, nos sectores da educação e da cultura física e recreação. Arlindo Macedo
Uma vez definido tal, era vital a ‘agência’ implicar haver um projecto para gerir, projecto esse que fosse inclusivo da sociedade civil e agentes desportivos – clubes em geral e suas associações - até às raízes do sistema.
O mapa da distribuição das forças produtivas do desporto é um importante dado para se poder depois traçar um perfil desportivo de cada região, ou província, para haver fomento na direcção certa, segundo o potencial humano e cultural de cada região – se o andebol, basquetebol, por exemplo, forem desportos nacionais, por quê a sua competição só nos mostra Luanda e Benguela?
As práticas desportivas auto-sustentáveis e, provavelmente, tradicionais de cada comunidade, são um paradigma importante para sanear a distribuição nacional do subsídio ao desporto, promovendo efectivamente desporto, ao invés de simples donativos de verbas com um igualitarismo entre províncias, que não se espelha no incentivo e fomento do desporto local. E isso é uma distorção do sistema financeiro – e de subsídio - do desporto em Angola.
O facto de o futebol se praticar efectivamente em somente 10, das dezoito províncias do país, é um dado sociológico para se reflectir acerca da necessidade de uma estratégia nacional de desenvolvimento desportivo, partindo de um acto de nacionalismo: haver orgulho em criar-se desporto na sua terra e região.
Sem fundamentos desportivos implantados no seio das comunidades, será empobrecido o legado que deixarmos às próximas gerações de jovens que não viram ainda nascer o desporto federado na sua área. Assim sendo, o atraso na realização de uma mesa-redonda esclarecida sobre ‘desenvolvimento desportivo’ em Angola será sempre para ser relacionado com consequências de uma incúria de tamanho histórico, como o tempo nos há-de demonstrar.
O desenvolvimento desportivo em Angola precisa de começar por um acção política de princípio, como já havia dito, e com uma dimensão cultural. Comparada com outras sociedades desportivamente
adultas, por exemplo qualquer um dos vizinhos Congos, Côte d’Ivoire ou Senegal, nós estamos ainda sem o berçário do que queremos edificar. E só falei de países onde vivem sociedades em níveis de relatividade próximos dos nossos, e então é que notamos comparativamente como estamos nós indo a pique. E por quê?
A nossa resistência à transparência das acções e da gestão, à conformidade das contas, depois, à sua constante auditoria, no fundo, mudanças exigidas pela nova ética das sociedades e negócios, são ainda coisas que nos complicam, deixam desconfortados. E cada vez mais atrasados.
Contabilização e auditoria, transparência e responsabilização, são novas expressões da FIFA (e consequentemente da CAF) desde 2005. A maior parte dos nossos agentes desportivos ainda é contra isso; a FAF, que solicita desde 2005 que os clubes auditem as contas, sem todavia coagir disciplinarmente – ou não haveria competidores para o ‘Girabola’ – está agora constrangida a ver os seus emblemas de fora das ‘Afrotaças’ em 2019, caso não agirem em conformidade no final desta temporada.
A partir deste ano nenhum clube angolano vai pisar fora de Angola se não auditar as suas contas para atestar a sua sanidade financeira e, tecnicamente falando, fizer prova de absoluta conformidade. Não consegui apurar que critérios haverá para os auditores, pois, não estranharia que em alguns clubes se pensasse em criar a sua própria empresa de auditoria. E pensar não é proibido.
Por essa via de razão, o exemplo tem de partir de cima; infelizmente não me recordo neste século que já vai há perto de vinte anos, ter visto nos jornais contas auditadas dos fundos e receitas sob tutela do MINJUD, desde arrendamentos do vasto parque da Cidadela, até os dividendos de sociedades público-privadas que tem constituído para entregar a gestão de infra-estruturas.
Que receitas acumula o fundo de desenvolvimento desportivo? Esta é uma questão de princípio, sem retrato até hoje. Portanto, se o exemplo vier de cima, o MINJUD, tal como os clubes, deve auditar em 2018 as suas contas, para exemplo. Por um princípio de gestão, de probidade e de transparência.
Uma alta autoridade deve trazer cunho moral, antes de tudo; e também cunho técnico. A especialidade é algo que precisa de ser valorizado, respeitado e aplicado, pois, o desporto é mais difícil de gerir, administrar e desenvolver, sem a necessária especialidade; refiro-me a especialidade nos recursos humanos, especialidade na visão e planeamento de um projecto, e em seguida no treino desportivo, sendo, por tal, precisos especialistas em desenvolvimento organizacional do desporto, desenvolvimento técnico-desportivo, desenvolvimento de mercado, etc.
Como disse, em Angola está em curso a preparação do OGE e esperamos ter alguma informação sobre a percentagem da despesa do MINJUD no ano que vem, que se há-de destinar ao desenvolvimento, essa tal pedra de troque do resto. A partir daí saberemos se em 2019 estaremos em presença de uma repetição, ou mudança.
Angola tem de dar mais provas e amostras de que estamos mesmo determinados a querer mudar para melhor.

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